7 Dez 2012, 17:27

Texto de

Opinião

Por este rio acima. Em honra de Fernando Pimenta e Emanuel Silva

Na procura da transcendência dor e sofrimento são companheiros de viagem destes campeões. Honremos Emanuel Silva e Fernando Pimenta, campeões que são agora património deste maravilhoso país.

As praias do Borras no sopé da escarpa do Senhor de Além e do Aurélio um pouco mais adiante frente às Fontainhas foram os meus primeiros espaços de fruição do rio Douro, ainda antes de tomar consciência que a seiva deste rio me corria tumultuosa nas veias e por arrasto na alma.

A minha iniciação natatória na praia do Borras, repleta de “amanhas” ou “amonas” e idas corajosas até à jangada em estilo cão ou fisga, foi acompanhada por pulsões de inveja em relação aos desportistas que moviam a golpes de remo e pagaia os céleres barcos que me davam uma dimensão de evasão síncrona com o meu desejo de aventura e liberdade.

Assim, foi natural o meu aportar, em 1962, ao Centro de Remo e Canoagem do Porto da Mocidade Portuguesa. A longa noite “fascista” caracterizou-se por algumas luzes ao fundo do túnel que um dia, espíritos não tocados pelo zeitgeist, poderão avaliar sem preconceitos.

Aí aprendi a remar e pagaiar e comecei a conhecer na sua totalidade o rio que conhecia em fraciúnculas. Remo e Canoagem foram as minhas modalidades iniciáticas e, em grande parte, conformaram-me o corpo e o espírito. Destas modalidades ficou-me o gosto pela aventura e, muito mais importante, a sedimentação dos anseios de liberdade existencial que é aquela que conta. O desejo de ser livre por cima dos constrangimentos dos homens e das políticas. Todo o remador e canoísta é um rebelde potencial que aprendeu através do corpo a libertar-se das prisões do conformismo. Um desportista que vence rios e correntes, mares e marés, não é terreno fértil para se construírem sociedades autoritárias. Quem sente na face o vento frio das manhãs de primavera nunca se sentirá bem com o ar bafiento de qualquer prisão. A liberdade que muitos procuram no verbo sente-a no corpo o homem amante da natureza. Esse é um privilégio de poucos.

Hoje vou falar da canoagem.

Alguns daqueles a quem me prendem os mais afetuosos ditames da amizade são e serão canoístas. A canoagem, para mim, não é brinquedo ou atividade complementar. A canoagem é parte integrante e essencial da minha vida. A canoagem fez-me viver os momentos mais plenos e gratificantes da minha já longa existência. Por isso, sempre senti como meus os momentos de glória que os canoístas Portugueses têm conseguido ao longo dos tempos. Já tínhamos campeões do Mundo, já tínhamos campeões da Europa, já tínhamos vencedores de provas internacionais de elevado prestígio, só nos faltava a cereja em cima do bolo.

Este ano tivemo-la.

Fernando Pimenta e Emanuel Silva sagraram-se vice-campeões olímpicos. Tantos anos à espera deste momento que eu paguei em lágrimas generosas. Este momento realizou os meus mais íntimos sonhos e de tantos que amam a canoagem.

O Fernando Pimenta e o Emanuel Silva não ganharam sozinhos. Naqueles 1000 metros de glória transportaram os sonhos de todos os canoístas Portugueses. A medalha de prata olímpica consubstancia a carta de alforria da canoagem Portuguesa e é fruto de mais de 30 anos de empenhamento total de clubes e atletas que souberam disfarçar com o máximo empenho e abnegação os constrangimentos materiais que são normais no desporto em Portugal e na nossa modalidade em particular.

Estes 2 heróis hodiernos entraram de pleno direito no areópago dos grandes campeões Portugueses. Mas, sei que não foi fácil. Tiveram de arrostar não só com as dificuldades inerentes a uma modalidade desportiva que tem normalmente uma meteorologia adversa como companheira de jornada mas também a pouca atenção dos poderes instituídos que têm de compreender que um campeão não se faz só com vontade e valor – é necessário outorgar as condições materiais e de reconhecimento social que lhes permita desenvolver o máximo das suas potencialidades.

Eles suportaram com estoicismo:

– As mãos túrgidas e dolorosas;

– A chuva gelada e o vento norte;

– O calor abrasador e a pele queimada;

– O corpo dorido e o espírito cansado.

Na procura da transcendência dor e sofrimento são companheiros de viagem destes campeões. Honremos Emanuel Silva e Fernando Pimenta, campeões que são agora património deste maravilhoso país.

Eles já provaram que podem voar alto. Que o país lhes dê as condições para continuarem a voar por entre os picos mais altos da glória. Portugal deve merecer os seres excecionais que cria. Apoiar os nossos campeões é não só outorgar-lhes o respeito que merecem mas também contribuir para que eles continuem a ser os modelos referenciais que os nossos jovens necessitam e procuram.

José Augusto Rodrigues dos Santos escreve segundo o novo acordo ortográfico

  1. José Luís Durães Rego says:

    Rio abaixo rio acima, aí vai Zé Augusto na sua canoa e de pagaya a bater nas água outrora cristalinas do nosso Douro. As qualidades de trabalho, deste atleta, teriam tido o mesmo exito que o Fernando e o Emanuel se o timing e as condições tivessem sido as mesmas. Mas os campeões fazem desta tempera, HOMENS de grande sacrificio e abnegação à modalidade, com grandes qualidades de trabalho e com o espirito de sacrificio que possuem. Zé Augusto, também marcou a sua época como canoísta, grande Campeão, como o meu AMIGO e saudoso Jorge Estevão, tragicamente desaparecido nas água do Ave. Outro grande campeão. Não me canço de dar os parabéns a estes grandes ATLETAS. Um do Douro e os outros dois do Cávado…

  2. Domingos Silva says:

    Ao contrário de muitas “figuras” e algumas “figurinhas” do nosso querido Portugal, com o acesso facilitado aos diversos meios de comunicação social, onde podem dar palpites sobre economia, cultura, política ou desporto, mas que nada contribuíram para o enriquecimento da nossa sociedade, sendo que alguns são mesmo responsáveis pelo estado desastroso em que nos encontramos. Ao contrário destes, o Doutor José Augusto, pelo seu passado e pelo seu presente, tem moral e integridade para abordar este e outros assuntos. É esta a marca que caracteriza os campeões, onde o Doutor José Augusto está inserido, o RECONHECIMENTO. Neste caso, o reconhecimento que faltou por parte das entidades governamentais, a dois grandes campeões da canoagem portuguesa: Emanuel Silva e Fernando Pimenta.
    Domingos Silva
    12-12-2012

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