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4 Nov 2015, 10:44

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Opinião

E o livro disse: Prazer em conhecê-lo

Sou mero leitor. Passei décadas da minha vida a exercitar a leitura, a descodificar frases, a notar pormenores, a interpretar sentidos, a entusiasmar-me com metáforas e aliterações.

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Já éramos vizinhos de Bairro, agora pusemo-nos a misturar a paixão pela cidade com o amor aos livros e às palavras. E já criámos novos roteiros para os nossos leitores num Porto cheio de livrarias e afectos. Todas as semanas, os bairristas encontram as deliciosas colunas de opinião dos escritores Vanessa Rodrigues, Jorge Palinhos, Marisa Oliveira e Rui Manuel Amaral – os nossos cronistas de Bairro – no Porto24. Sempre à quarta-feira, o vosso Bairro dos Livros no nosso Porto24. Boas leituras!

Por eu insistir em ignorá-lo o livro teimava em tossicar com ar furioso: dando a cada ranger de garganta a veemência de um insulto.
Acedi contrariado. Ser apresentado a um livro é difícil. Há sempre o momento em que nos interrogamos sobre o autor ou o tema; a agonia de pensar no dinheiro assim subtraído a tantos outros livros; a dúvida quanto ao espaço e ao tempo que o livro vai ocupar na nossa vida.

Mas os livros desde cedo aprendem a lutar pela sobrevivência e este já nem hesitava em bater com a capa dura na ombreira da porta – só para me chamar a atenção.

– Deseja alguma coisa?

– Vim apresentar-me?

– Quem é?

– Sou o livro da sua vida.

Sou naturalmente cético – mais ainda para soluções para todos os males, elixires milagrosos, salvadores de almas e bugigangas imperdíveis.

– Isso não me impressiona.

Ele manteve-se sério e calado.

– Tem de se esforçar mais.

Com o canto de uma das primeiras páginas, o livro coçou a esquina interior da lombada. Continuava arrogante:

– Não tenho de me esforçar nada. Você é que tem.

– Eu?

Pensei: Sou mero leitor. Passei décadas da minha vida a exercitar a leitura, a descodificar frases, a notar pormenores, a interpretar sentidos, a entusiasmar-me com metáforas e aliterações.

– Rua!

– Como?

– Se está aqui para me dar trabalho, rua!

Um livro furioso não é bonito de ver.

Veio um intermediário, veio o editor, veio até o próprio autor em tom conciliatório. E o livro lá acabou por ficar, imune às minhas estratégias de indiferença, agressividade e teimosia. Aos poucos fui-me habituando a ele, comecei a conhecê-lo melhor, a amá-lo com a paixão furiosa da posse, depois com a ternura do companheirismo, até um dia o perder na parte de trás de uma prateleira, onde ficou a conciliar-se com a poeira e os peixinhos de prata.

Passados tempos, não – anos –, deu-me saudades dele. Aquele livro birrento, custoso e difícil tinha-me ficado na memória e no afeto. Lá o procurei nas prateleiras, nos sofás, nas malas e caixotes onde vão ficando livros que já não cabem na ordem quase racional das prateleiras. Nada. No fundo onde o livro se encontrava foi onde se manteve.

E eu, olha, eu dediquei-lhe a maior prova de amor que se pode dedicar a um livro: comprei-o outra vez.

Jorge Palinhos tem trabalhado como escritor, dramaturgo e guionista. Os seus textos já foram publicados, encenados e apresentados em Portugal, Espanha, Brasil, Alemanha e EUA. É ainda docente do ensino superior e bolseiro da FCT. 

Jorge Palinhos

Opinião

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