6 Nov 2012, 11:50

Texto de

Opinião

Drama de um sujeito em 2 andamentos

Andamento rápido e andamento rapidíssimo.

Andamento rápido (AR): Hoje fui à baixa. Houve manifestação. O meu sindicato enviou-me a convocação quase compulsória pois urge lutar contra todos aqueles que querem subordinar o país aos interesses do capital internacional e dos denominados mercados, essas figuras míticas mais esotéricas que as divindades do culto Veda. As palavras de ordem eram fortes: Troika fora de Portugal; Morte aos banqueiros corruptos; Prisão para os empresários que desviam os capitais para o estrangeiro. Somos trabalhadores temos direito à revolta.

Andamento rapidíssimo (ARmo): Tive de levar o carro à revisão e cheguei tarde ao emprego porque os privilegiados da companhia de transportes decidiram fazer greve. Assim o país não vai para a frente com tantas greves. Alguém tem de pôr mão em tanto desmando.

AR: O meu pai que tem umas terrinhas em Trás-os-Montes não consegue escoar a batata a um preço justo porque os espanhóis e os franceses que têm apoios do estado a conseguem colocar em Portugal a um preço irreal. Assim a agricultura nacional desaparece e teremos de importar tudo o que comemos.

ARmo: Há dias a minha vizinha do terceiro esquerdo mostrou-me, impante de orgulho, o plasma Samsung que lhe substituiu o velho televisor Telefunken. A parvalhona parecia um pavão com a nova aquisição. Já avisei a patroa que no próximo mês vamos substituir o LCD reles que o nosso padrinho nos ofereceu como prenda de casamento por um plasma Sony que é japonês e muito melhor que o coreano da vizinha.

AR: Agora vêm os chineses comprar-nos a EDP. As joias da coroa vão sendo encaminhadas para o capital estrangeiro desbaratando as mais-valias que deveriam reverter para impulsionar o tecido económico nacional. Os partidos políticos cedem facilmente aos lobbies estrangeiros pouco preocupados com os superiores interesses nacionais.

ARmo: Andava a precisar de comprar umas botas e uma capa para a chuva para os meus filhos que este ano entram na escola primária. Felizmente encontrei umas coisitas baratas na loja dos chineses o que me aliviou o orçamento. Mesmo em saldo os estabelecimentos portugueses são mais careiros. Já sei que a qualidade não é a melhor mas para o fim que é serve muito bem.

AR: Este governo pretende privatizar tudo o que é público, entregando de mão beijada ao capital financeiro os institutos que são parte fundamental da res publica, nomeadamente na área da saúde e educação.

ARmo: A minha sogra convenceu-me quase me obrigando a meter a milha filha num colégio privado. É lógico que o esforço económico é significativo mas pelo menos a miúda frequenta uma escola de qualidade, sem absentismo docente, ambiente discente pacificado e possibilidade de estabelecer contactos de amizade com os filhos dos que mandam no país.

AR: A saúde não pode ser objeto de comercialização já que é um dos fatores que mais pode contribuir para a coesão social. Em termos éticos não pode haver uma saúde para os pobres e outra para os ricos. O dinheiro não pode ser um fator discriminador no acesso aos benefícios da saúde.

ARmo: Fui marcar no Hospital Central uma consulta geral à máquina. A coisa foi marcada para daqui a 2 meses. Estes serviços públicos nunca respeitam a pressa dos cidadãos. Devem trabalhar ao ritmo alentejano nos dias de agosto. Por muito que me custe já marquei as consultas num hospital privado, que, embora caro, me atende mais rapidamente.

AR: A minha querida filha Segismunda vai nascer, como é usual na família, na Ordem da Senhora dos Milagres. Aquilo não é um hospital, é um hotel de luxo.

ARmo: A minha querida filha Segismunda esteve entre a vida e a morte. Nasceu em sofrimento com problemas vários, entre os quais se salientou a dificuldade de dilatação da minha mulher. A nossa sorte foi que o Hospital Central era perto e os serviços de obstetrícia, com a renovada experiência que possuem, salvaram mãe e filha. Não sei como agradecer aos médicos e enfermeiras este momento de felicidade que me fez de novo acreditar na vida depois dos momentos terríveis de sofrimento que experimentei.

AR: Eu, como funcionário público, não posso fugir aos impostos. O Estado deveria criar um sistema de inspeção e controlo que evitasse a fuga ao fisco, pois assim com o contributo generalizado a carga fiscal não seria tão agravada e criar-se-ia um saudável ambiente de justiça tributária.

ARmo: Fui hoje à feira de Valada das Ribeirinhas. Comprei umas pechinchas nos ciganos, inclusive uns perfumes que embora eu saiba que são contrafeitos cumprem cabalmente o seu papel de disfarçar o cheiro do suor “sovacal”.

AR: Tantos acidentes rodoviários nestas férias da Páscoa. Parece que as pessoas escolhem estas datas simbólicas para se matarem na estrada. Álcool e velocidade são as causas mais frequentes de muitos desastres.

ARmo: No domingo passado vinha da aldeia com o carro repleto de vitualhas para a semana quando numa operação Stop tive de soprar no balão. Só tinha um pouco mais que o permitido por lei e o raio do guarda espetou-me com uma multa de 200 euros e apreensão da carta. Estes gajos pensam que vão endireitar o mundo com tanto controlo. Aquilo é excesso de zelo. Penso que estão mancomunados com o governo para, através da caça à multa, ajudarem o ministro das finanças a cumprir as metas do défice negociadas com a troika.

AR: A minha vizinha do lado, a qual cumprimento todas as manhãs com o ódio e a raiva em sorriso, foi de novo para férias nas Seychelles. Não sei onde vai buscar o dinheiro para tanto arejar no estrangeiro. Por que não vai para o Algarve ou Açores para impulsionar a economia nacional?

ARmo: Eu sei que não tenho dinheiro. Que se lixe, alguém há de pagar. Vou de férias às Canárias com a mulher e filhos. Também temos direito. O cartão de crédito já está a respirar com dificuldade. Com mais esta despesa de certeza que não morre de hipoxia. Só temos uma vida para viver. CARPE DIEM.

José Augusto Rodrigues dos Santos escreve segundo o novo acordo ortográfico

  1. José Luís Durães Rego says:

    …a velha mentalidade criticada por Eça…é um problema estrutural mental da nação…somos bons, mas somos maus…presos por ter cão e presos por não ter…não vela sem senão…somos preconceituosos, no entanto também somos pessoas sem preconceitos…somos do oito e do oitenta…Zé é clarividente a tuas analise, somos assim…é como a canção da Gabriela…abç.

  2. Antonio Brilhante says:

    Companheiro concordo com a tua análise. Somos uma espécie em extinção.Mas somos da geração da utopia, da luta pela liberdade,solidários, mas, sempre lúcidos.
    Um grande abraço

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