1 Nov 2012, 11:41

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Opinião

Rituais funerários e impacto psicológico

Descansar para sempre, jazigo perpétuo… Ideias que estão a ser postas em causa. Nas cidades o espaço é um bem exíguo e até os mortos estão a aperceber-se disso.

Cemitério de Cedofeita

Foto: António Amen

Descansar para sempre, jazigo perpétuo… Eis algumas das ideias que estão a ser postas em causa atualmente. Nas grandes cidades o espaço é um bem exíguo e até os mortos estão a aperceber-se disso. Uma das grandes mudanças em termos de rituais funerários aconteceu quando, no século XIX, se deixou de sepultar no interior das igrejas e se passou para os cemitérios municipais. Confrontamo-nos agora com a falta de espaço também aqui.

Efetuaram-se diversas medidas paliativas nas últimas décadas: os gavetões, a construção em altura também na cidade dos mortos. Mas somos muitos e o problema foi apenas adiado. No presente, existem (pelo menos no que nos é dado a conhecer) 2 grandes opções: a sepultura em campa rasa em que depois o defunto passa para o gavetão assim que “der a ossada” e a cremação.

A primeira opção aproxima-se das práticas tradicionais. A urna é enterrada por um período de 5 anos, obrigando a exumação no seu término. Se estivermos perante a ossada, faz-se a transladação. Poupando assim espaço.

Na segunda opção, o cadáver é cremado, dele só restando cinzas. As cinzas são depois depositadas numa urna ou depositadas no próprio cemitério – nos roseirais ou entregues à família que se encarregará delas. Há aqui a possibilidade de uma cerimónia privada de contornos a definir.

Delimitado, a traços gerais, o cenário, avancemos um pouco. As práticas funerárias são formas culturais de despedida – rituais de passagem que ajudam as pessoas que cá ficam a lidar com a perda. É sob este prisma que poderemos retomar as escolhas que atrás descrevemos. Ambas as opções listadas podem prolongar despedidas, aumentando o sofrimento dos que cá ficam.

Referimo-nos à esposa que sofre durante os 5 anos para ver se o marido “dá a ossada” para poder finalmente descansar. É a outra família que traz para casa as cinzas do avô e se recusa a completar a despedida, guardando-as no interior de casa. As sintomatologias depressiva e ansiosa surgem em diversos membros da família, inclusive na criança que começou a ter medo do escuro e a querer dormir novamente na cama dos pais.

As medidas funerárias são avisadas, em termos de gestão de espaço nos cemitérios. Em todo o caso é preciso ter consciência que certas opções podem prolongar a despedida – não servindo por isso os objetivos a que tradicionalmente os ritos funerários davam resposta.

Não temos certezas para estas questões. Partilhamos apenas a necessidade de conhecermos o impacto, em termos de saúde mental das populações, que estas medidas podem e já estão a ter.

Rui Tinoco escreve segundo o novo acordo ortográfico

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