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Foto: André Rubim Rangel

14 Mai 2017, 15:06

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Opinião

O dia das primeiras vezes, o triplo histórico do 13-05-2017

“Todo o português popular é um reformador impaciente. Não há atitude que não avalie, serviço que não comente, governança que não desconheça, ingratidão que não ouse, para maior desembaraço das suas aptidões. Estas podem não ser famosas, mas constituem a soma dum profundo sentido de perseverança e de sacrifício. Quando o mundo se super-humanizar, lá estará o português para achar natural o que acontece, e portanto necessitado de reforma, e por conseguinte de diálogo. O último homem sobre a terra terá de ser um português que duvida do que é natural e que se indisciplina perante a consumação dos séculos” (Agustina Bessa-Luís).

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André Rubim Rangel é “tripeiro de gema” (cidade e clube). Licenciou-se em Teologia, tem curso profissional de “Comunicação, Marketing e Assessoria de Imprensa” e é mestre em Ciências da Comunicação (ramo Jornalismo). Além de jornalista é professor profissionalizado contratado. Trabalha no semanário ‘Voz Portucalense’ (repórter e redator). Dirigiu alguns órgãos: o ‘JornalVERIS’ (que fundou e administrou), a revista ‘Espaço Solidário’ (co-fundou, além de diretor de Informação da ODPS); o marketing da revista ‘A Folha dos Valentes’ (e seu redator); e o ‘Jornal da P@z’. Como colunista e repórter voluntário, escreveu regularmente: no jornal ‘O Primeiro de Janeiro’; no semanário ‘Grande Porto’; no jornal ‘Diário do Minho’; e no jornal ‘Gazeta do Planalto e Região’ (S.Paulo, Brasil). É, ainda, presidente da Associação para o Diálogo Multicultural (ADM) e membro dos órgãos sociais da Associação Alma Mater Artis. Foi e é dinamizador e moderador de largas dezenas de debates e conferências de cariz geral, entre outros eventos. Em termos pessoais, é colecionador e amante de presépios, entre outros hobbies.

Um amor maior expressou-se num só dia, através de distintas áreas sociais e geográficas, distintos gostos e amores. Neste 13 de maio de 2017 – um maio acrescido de “r”, culminando em maior – amamos todos, que não só pelos dois nem pelos três, etc.. Todos, de alguma forma, ganhamos ontem – os portugueses, em Portugal e espalhados pelo mundo –, mesmo que em cada um/a, pessoalmente, não se somasse pelas três razões evidentes, por algumas dela terá sido! Todos fomos crentes e acreditamos que ontem seria um dia peculiarmente especial e especialmente peculiar, fosse na totalidade, fosse na integralidade. De três modos fizemos ecoar o nome e a vitória da nossa nação pelo mundo e fazemos hoje, seguramente, manchete na comunicação social estrangeira (que não somente nacional). O país – cujo denominador comum pautou-se na letra ‘F’ (Fátima/Fé, Futebol e Festival) – teve um fado igual: o destino da vitória, de conquistar feitos antes inalcançáveis. A pluralidade do amor, que não é um só, vestiu-se ontem e doravante de branco, um só branco e branco com todos: com o amarelo (vaticanista), com o vermelho (benfiquista) e com todas as cores (mundiais), da diversidade cultural e plenamente inter/multicultural.

Já é sabido, mas ora vejamos pela ordem cronológica dos factos:

1) Foi a primeira vez que o Papa Francisco veio a Portugal, embora já tivesse sobrevoado o solo português; foi a primeira vez que uma canonização se realizou fora do Vaticano e, ainda, o facto de os novos santos da Igreja Católica – Santa Jacinta e S. Francisco Marto (há, agora, uma dúzia de santos portugueses) – serem os mais novos de sempre da História eclesial a subir aos altares. A nível de recorde da multidão, parece que esteve longe de ultrapassar o milhão previsto de fiéis (pré-noticiado) e que esteve 50 anos antes, com o Papa Paulo VI, no cinquentenário das aparições/visões de Fátima, segundo os jornais de então (agora, confirmou-se metade, na ordem dos 500 mil peregrinos). Ambos os Papas vieram como peregrinos, visitando apenas Fátima.

2) O S.L.Benfica obteve um recorde pessoal, que não a nível do futebol português: o de conquistar o tetra-campeonato nacional, feito já antes alcançado pelo F.C.Porto (que tem ainda o inigualável “penta”, agora à espreita pelo clube encarnado).

3) Em 48 edições participadas por Portugal nas 62 existentes anualmente do Festival Eurovisão da Canção, o país das Quinas e dos irmãos Sobral venceu pela primeira vez este concurso televisivo; nunca o nosso país tinha tido tantas atribuições da pontuação máxima de “12” pelos júris dos 26 países participantes e votantes; e, como não há uma sem duas, Portugal inscreve-se na História deste Festival por ser o primeiro a atingir a pontuação mais elevada de sempre, juntando a dos júris à do público (758)!

O dia de ontem parece e, de certa forma, é interminável. Até calhou num sábado, para melhor se poder festejar ao longo de todo o fim de semana. Parece que estava predestinado. O primeiro facto já era certo há umas semanas (o da canonização dos Pastorinhos coincidir com a visita papal), o segundo facto já se vislumbrava que acontecesse nesta penúltima jornada, com o deslize do principal rival do campeão em título na jornada da semana passada, e o terceiro facto começou a ganhar consistência quando nos deparamos com as reações e comentários internacionais à música “Amar pelos dois” e ao seu intérprete “com voz de anjo”, bem como com a votação de preferência no portal da Eurovisão. Portugal, Portugal, Portugal!

FÁTIMA/FÉ E O PAPA FRANCISCO
Os caminhos cruzaram-se: o de Portugal, o do mundo e o do Papa. Os três entroncaram e se encontraram em Fátima, raiz da fé popular mariana. Dali brotou e desabrocha uma mensagem firme de esperança, de paz e de luz. Esta não é uma mensagem nova, mas seguramente renovada porque absolutamente desejada e necessitada num mundo (em cada seu continente e neles em conjunto) que adoece, carece e padece de males maiores, como a falta de amor, de liberdade, de justiça, de fraternidade, de concórdia e de igualdade. No fundo, subvalorizado de valores – constantemente diminuídos –, e de deveres e direitos humanos – sucessivamente agredidos… O Papa lembrou-nos da importância de não ficarmos presos aos nossos sucessos nem às nossas derrotas, porém, de darmos o melhor de nós mesmos e de confiarmos em nós.

No seu modo simples e sem entrar nos temas fraturantes da(s) sociedade(s), as intervenções do Papa Francisco tiveram reptos interessantes e a ter em conta, de modo a que não se fiquem por palavras e passem à acção (individual e coletiva). Saliento, por exemplo – entre outras frases que gostei e que fazem refletir mais agir –, a seguinte: “O Céu desencadeia aqui uma verdadeira mobilização geral contra esta indiferença que nos gela o coração e agrava a miopia do olhar”. Há um acontecimento transversal: há 100 anos estávamos em primeira guerra mundial, atualmente dissemina a terceira, de modo dividido. Que futuro queremos para as crianças e os jovens? Continuamente de guerra(s)? Certamente que não! Sejamos, por isso, construtores e instrutores de paz e do que é apaziguador.

FUTEBOL E O S.L.BENFICA
Para quem ainda não sabe, não sou nem nunca fui adepto deste clube da capital. Sou portista, clube da minha terra que me viu nascer e que me vê trabalhar e habitar. Para mim, uma questão de clubismo é uma questão lógica de proximidade, que gera a natural afinidade. É uma visão geral que tenho, mas – como todas as opiniões, vale o que vale. E apesar de gostos não se discutirem, podem ser apresentados/defendidos na praça pública.

No entanto, e porque antes de ser portista faço por ser desportista (nem sempre é fácil), felicito antes de mais o clube e seus sócios e simpatizantes, por mais um campeonato com este seu feito acumulado de primeiro tetra. Não vou, aqui, alimentar um discurso de “anti”, de derrotista – como tantos o fazem nestas horas –, pois o argumento que é usado contra o S.L.B. também foi por ele usado ao longo deste e de outros campeonatos: a questão do “colinho”, da nem sempre total imparcialidade das equipas de arbitragem. Mas uma coisa não duvido: mesmo que o S.L.B. tenha tido o chamado “colinho”, foi só algum, não no total dos jogos, não o suficiente para que se sagrasse novamente campeão. Mostrou-o, nas últimas jornadas – e com mais do que uma prova em simultâneo – que lutou pelo título e conseguiu vitórias limpas, indiscutíveis, dependendo de si próprio. E não falemos de sorte e/ou de azar. Todas as equipas o têm, num ou noutro jogo. Jogam lado a lado.

Certo é que uma equipa que quer ser campeã, não faz um terço dos seus resultados de empates e uma derrota, como o meu querido F.C.Porto. Assim não se vai lá. Os resultados estão à vista. O clube do dragão não aproveitou algumas escorregadelas das águias, escorregando também de seguida – não aguentando a pressão e alargando a margem entre 1.º e 2.º lugares. Há umas jornadas que o treinador dos azúis e branco dizia que já não havia mais margem para erro, mas ela continuou a existir e o mal a persistir… Sem atribuir a culpa interna aos culpados, algo tem de mudar no F.C.P., a sério, para a liga de 2017/18!

OS IRMÃOS SOBRAL E A EUROVISÃO PARA PORTUGAL
Onze meses depois de Portugal arrecadar o europeu de futebol, feito nunca alcançado, Portugal volta a vencer um europeu, o da música, graças ao “brilho de Salvador”, segundo a imprensa estrangeira. Quebra-se agora, e ainda bem, a melhor classificação que o nosso país tinha conseguido há 21 anos, o 6.º lugar, com Lúcia Moniz. Felizmente, muitos portugueses acreditaram, a equipa acreditou e tudo foi possível.

A 6 de março houve quem duvidasse, quem criticasse por não ser uma música própria para festival no seu estilo misto entre bossa e jazz, mas o Salvador veio ensinar-nos novamente que a música é sentimento, que “não é fogo-de-artifício”, como se foi vendo nas diversas prestações em palco, neste e noutros festivais. Esta capacidade de a música fazer-se recuperar pelo que é e pelo que vale foi fortemente estimulada pelo finalista do programa televisivo «Ídolos» (2009). Aproveito para transcrever a publicação de um amigo, na sua página de facebook, nesse mesmo dia em que Salvador venceu o festival da canção em Portugal, para nos representar em Kiev, por ser significativa. Em pouco, diz muito: “Uma canção. Harmonia, simples. A pureza de Caetano, os arranjos orquestrais belíssimos fazendo relembrar os musicais. Noir na essência do tom, timbre próprio sem notas rebuscadas. Assim meio torto, sem in ear, debilitado. Uma letra. Palavras com vida.
O que falta a muita música que tem tudo na técnica e nada na alma. Não vai lá ganhar. Aqui já ganhou. Ao coração…”. E, ontem, acrescentou: “E no final… ganhou”.

O Salvador canta e encanta pelo seu registo feito de docilidade, pelo seu carisma, pela sua melódica musicalidade, pelas mensagens assertivas que foi deixando, antes, durante e depois de atuar. Aquela que mais eco ressoou em mim foi: “Somos humanos e não animais, por isso devemos ser humanitários!”. E é tudo isso que importa, é isso que entra e que fica, não é tanto a sua imagem (havendo quem a defina de descuidada) e muito menos o seu passado. Foram estas clarezas que lhe deram o triunfo e, curiosamente, como observou um jornalista da RTP: “O mais impressionante foi o público europeu ter dado a vitória a uma música cuja letra não entende. A música é universal. A sua vibração ultrapassa fronteiras e une a Europa”.

E, assim, estas histórias – no seu conjunto colossal – reforçam e engrandecem a Portugalidade e a História de Portugal. Só temos a ganhar com tudo o que é real e sentimental, ao invés do virtual, do não sensorial e do artificial.

jornalvp.arr@sapo.pt

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