Image de Dezembremos, então

"Na Islândia, talvez seja possível pôr de lado o que já foi, fixar os olhos no horizonte, ainda que gélido". Foto: SXC

20 Jan 2014, 22:57

Texto de

Opinião

Dezembremos, então

Esta como muitas outras, aprendi-a com Valter Hugo Mãe. “Havemos de dezembrar”, diz a personagem d’ “A Desumanização”, o romance que aproxima as Caxinas, por via da residência do autor, à Islândia, por via da história. Por via das dúvidas, explica-se o conceito: “era prometer que chegaríamos vivos e salvos ao fim do ano, entrados em janeiro, começados de novo”.

Imagem de perfil de Carlos Luís Ramalhão

Nasceu em Manchester, Inglaterra, mas veio crescer à Maia, cidade de origem da família paterna, onde vive. Deambulou pelo jornalismo, mergulhou no argumento e na escrita criativa, passou pela tradução. Estudou Jornalismo e Ciências da Comunicação na Universidade do Porto e Writing for the Media na Bournemouth University, em Inglaterra. Colaborou em diversos projectos culturais, dos livros à fotografia, passando pela música e pelo cinema. É co-autor do livro de contos ''Taxicidade'', editado em 2007, e autor do conto “Antes que venha o Inverno”, publicado como e-book, em 2013. É também formador de escrita criativa e argumento.

A palavra que o processador de texto teima em querer corrigir (“desmembrar”, “deslembrar”, diz ele) ficou também ela teimando como uma folha de calendário que insiste em não rasgar, recusando render-se ao passado.

Na Islândia, talvez seja possível pôr de lado o que já foi, fixar os olhos no horizonte, ainda que gélido. Talvez. Embora não creia que o país de Björk e Sigur Ros fique a dever algo ao nosso em saudosismo e melancolia. Em Portugal, esquecer o passado é estar na cova mais funda do vale e ignorar o cume da montanha.

Chegámos então vivos, senão salvos, ao final de 2013. Entrámos portanto em janeiro, munidos de uma esperança à filme Disney de domingo à tarde, de que após a última das doze badaladas que fecham uma porta e abrem outra, tudo ficaria diferente. Um exercício que anda mais difícil. Mesmo que os fogos-de-artifício tentem puxar por nós, a única diferença evidente entre as 23:59 de dia 31 de dezembro e as 00:01 de 1 de janeiro é a que separa uma taça de espumante cheia de uma taça de espumante vazia.

Saindo à rua, na manhã (que começou por volta das 14:00) de dia 1 de janeiro de 2014, senti que andava por aí um vento de mudança, uma vontade de arejar as ideias, aclarar as gargantas e gritar por um mundo melhor. Talvez tenha sido por isso que apanhei uma valente constipação. Nada de novo, já se vê. Nem cheguei a acreditar nas frases (des)feitas dos políticos, as frases que há uns anos chegavam a ser (per)feitas. Caí na cama. Ponto.

O tempo não ajuda. Ele é a chuva que vem moer o recheio da cabeça; ele é o frio que desfaz os ossos. O português não poderia ser escandinavo. Se fosse, não sobreviveria aos longos dias disfarçados de noite. Mas o escandinavo também não poderia ser português. Na amargura do dia-a-dia (do ano-a-ano), nos lamentos e nas queixas, há sempre uma pontinha de humor. O agridoce, associado à gastronomia asiática, é uma receita a que recorremos amiúde, enquanto povo, para “dezembrar”.

Mas que interessa então, essa coisa de fechar a porta ao passado, abrir a do futuro, ver o presente como um corredor atapetado, com uma ou outra obra de arte pendulando na parede? O tempo – o dos relógios – passa depressa, seja na Miklabraut, em Reiquejavique, ou na Avenida da Boavista, no Porto. Sigridur, personagem do romance de Valter Hugo Mãe, confundia em pequena o ontem, o hoje e o amanhã. Dizia: “amanhã foi muito bonito”. Se o amanhã assim for, não me importo que ele seja pretérito perfeito.

Carlos Luís Ramalhão escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.