20 Dez 2011, 22:54

Texto de

Opinião

(Des)aleixo no Porto

Rui Rio viu o ''desfile'' da demolição da miséria num barco no meio do rio Douro, o que diz tudo acerca de um autarca insensível e maquiavélico.

Demolição da Torre 5

Foto: Filipa Rodrigues

“O Aleixo vai abaixo”. Eis uma frase que muito oiço nos média ultimamente, bem como nas conversas que vou captando durante o meu quotidiano no bairro. Durante o trabalho numa das equipas de intervenção no Bairro do Aleixo, tenho procurado aproximar-me deste Mundo Novo que irrompe no virar da Rua das Condominhas.

Não me é estranho constatar de como nos tempos do apogeu do neoliberalismo se opte claramente por uma perspectiva ética na resolução dos problemas sociais, em detrimento de uma perspectiva émica da resolução desses mesmos problemas. A demolição da Torre 5 do Aleixo, com a espetacularização mediática que suscitou, traduz bem esse modo ético da resolução dos problemas. A postura émica por seu turno é morosa, pouco prática. Desenvolve-se em contacto de proximidade com as pessoas. Que chatice!

Mas o que é ser próximo de uma realidade? Nos tempos que correm, muito se fala da importância da proximidade: amor ao próximo, aquele fulano é-me próximo, intervenção de proximidade… Nada melhor do que mergulhar numa realidade para se estar próximo dela, apanhar-lhe as particularidades, os singularismos, as vozes dos atores. E nada melhor do que se relacionar com a comunidade do Aleixo para “entrar no bairro”, conhecer-lhe os becos, as entranhas.

Diria mesmo: respirar o Aleixo. “Grounded attitude”, como lhe chamaram um dia os antropólogos Barney Glaser e Anselm Strauss no final da década de 60. Nada melhor do que parar no café do bairro, criar ligações, estabelecer olhares, marcar presença. Porque as pessoas do Aleixo, antes de serem moradoras de um bairro cunhado como “problemático”, também são pessoas, e transportam consigo formas de ver e de resolver os problemas em que muitas vezes estão mergulhadas.

Sempre fui daqueles que acreditei (e ainda continuo a acreditar) que o bairro do Aleixo não é só droga. “Txi, no Aleixo estás lixado”, diziam-me conhecidos, amigos e familiares na altura em que lhes comuniquei a vontade de trabalhar para um local considerado por todos como um local a evitar na cidade do Porto.

As teorias construcionistas do Desvio, que fui aprendendo na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, falavam-me nessas alturas ao ouvido e sussurravam-me de que um comportamento se é definido como real, ele é real nas suas consequências…

Mas e que é o Aleixo afinal? Um bairro problemático ou, pelo contrário, um bairro caloroso e fraterno? Um nicho de criminosos ou um conjunto de pessoas que foram sempre arredadas de estruturas de oportunidades legais?

Miguel Chaves, o sociólogo que caracterizou o bairro Casal Ventoso em Lisboa (bairro, aliás, já demolido), chegou a conclusões que corroboram a ideia de que as famílias desse bairro representavam, na sua maioria, estilos de vida assentes na instabilidade laboral: aquilo que o autor designou como “estilos de vida instáveis”. A relação dos sujeitos com o mercado de trabalho cinge-se a contactos meramente tangenciais, esporádicos, temporários.

O autor vai mais longe e diz-nos que é nas alturas de crises cíclicas do capitalismo que as famílias dos bairros sociais são mais lesadas, com taxas de desemprego sempre em maior volume do que a média da população geral.

Como se controlarão, então, sujeitos com baixa escolarização e, portanto, “desinscritos” do mercado de trabalho terciarizado como o nosso? A resposta tem sido o reforço do contingente policial, algo que o Governo de Passos Coelho e companhia, que em tudo vê gordura para cortar, não se atreve a meter a faca…

O Aleixo, para mim, é um prisma. Como toda a realidade o é, por natureza. E um prisma ilumina zonas diferentes consoante o ângulo de visão e o posicionamento da fonte de luz.

Tenho tido a sorte de ver o Aleixo pelo prisma humano, onde conheci gente num bairro de gente. A toxicodependência, ainda que omnipresente em todas as faces desse prisma, não reduz o bairro a isso. Porque a associação Aleixo=Droga=Crime é perigosa e falaciosa, levando à mobilização de dispositivos de intervenção que se perfilham no sentido da “problematização constante” como forma de controlo social sobre populações pobres e marginalizadas, que é, aliás, uma tendência pós-moderna, como nos ensina Foucault.

Antes de se falar da demolição do Aleixo, devem ser trazidas para a discussão algumas reflexões sobre determinados pontos. Muitos moradores apresentam médias de 20 anos de afastamento da rede de cuidados primários, nomeadamente os centros de saúde. Isto não deveria deixar-nos perplexos? Como é que uma sociedade que tanto ampliou os cuidados de saúde primários em 37 anos de democracia consegue, simultaneamente, ter sujeitos afastados deles tanto tempo?

A minha pouca experiência de terreno parece levar-me a uma conclusão: não se trata apenas de uma distância física, mas também simbólica. O estigma, o baixo auto-conceito, a baixa auto-estima e o “estatuto de bairro”, como apelida devidamente a antropóloga Manuela Ivone Cunha, explicam largamente a interiorização da ineficácia nestes sujeitos. Sujeitos que procuram muitas vezes, em discursos inflamados comigo, apresentar um leque de competências, desde logo laborais, que visam a desconstrução dessa identidade virtualizada pelos média e por outras estruturas de poder.

Como resolve então a sociedade do século XXI os problemas destas periferias urbanas, atingidas severamente pelo desemprego e pela baixa escolarização? Como poderemos nós combater o estigma da toxicodependência quando um toxicodependente chega a uma urgência de um hospital e o rótulo de “drogado” pesa mais na balança e leva a uma assistência frouxa, rápida e desrespeitante? A resposta tem sido a de demolir os problemas, ignorando a sua existência perturbadora.

Rui Rio viu o “desfile” da demolição da miséria num barco no meio do rio Douro, o que diz tudo acerca de um autarca insensível e maquiavélico. Milhares de pessoas viram também em direto o espectáculo estapafúrdio da demolição da Torre 5. Nesta sociedadezinha “big-brotheresca”, atenta ao espectáculo supérfluo, que faz dele o entretimento soft do espírito, procura-se incessantemente a imagem em detrimento do texto, a explicação rápida em vez da compreensão densa.

Tenho a sensação que muito se fala no Aleixo ultimamente, mas nunca se procurou ver o bairro por dentro. Sempre se procuraram os rótulos em vez da compreensão. Os moradores foram chamados a interpretar o que iria acontecer. Mas sempre se procurou ouvi-los quando o quadro de destruição para o Aleixo estava já técnica, mediática e politicamente controlado. Isto não é nada bonito. Ainda assim, a demolição da Torre 5 foi um espectáculo de massas. Boommm! E era uma vez uma das Torres do Aleixo.

Simão Mata é psicólogo e escreve segundo o novo acordo ortográfico. O texto foi enviado para a Opinião Porto24. Pode enviar também os seus artigos.

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