23 Fev 2012, 10:35

Texto de

Opinião

Um prenúncio de Norte

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Há um rumor de Norte no ar. A palavra ''Norte'' parece ter ecos de generosa defesa de qualquer coisa que sobreviva à derrocada geral.

Há um rumor de Norte no ar. Não é só a campanha dos meios de comunicação a apelarem à identidade como marca diferenciadora. A palavra “Norte”, no meio da desilusão do país, parece ter ecos de generosa defesa de qualquer coisa que sobreviva à derrocada geral. Um refúgio, no meio deste inexorável abandono de tanto que tínhamos por adquirido.

É certo que o Norte também não é nada completamente adquirido, preso na total falta de representatividade política própria, a base da democracia, preso na litoralização excessiva, preso nas suas próprias contradições. Mas quando se fica a ser o único a pagar portagens, nem que seja durante algum tempo, quando se vê desaparecer investimento, quando a nossa ligação ferroviária mais direta a Espanha tem tempos de museu, fica difícil de engolir que 2 casos claros de sucesso, o porto de Leixões e o aeroporto Sá Carneiro, tenham de se diluir na mediocridade nacional.

Por isso o Norte falou, mesmo que com pronúncia do Porto, quando a Assembleia Municipal da cidade se juntou, unânime, em torno da defesa da autonomia de Leixões, por isso têm falado de Norte os muitos que têm escrito na defesa da mesma autonomia para o aeroporto.

Às vezes é preciso um clique como este, para nos lembrarmos do mais óbvio: que o princípio da subsidiariedade é virtuoso, que a proximidade na gestão dos interesses próprios gera eficácia, como está provado nos casos apontados, ou também, muito claramente, na gestão das nossas universidades.

O óbvio é que o centralismo tem sido empobrecedor. Veja-se o que a capacidade de decisão a nível nacional nos trouxe e olhe-se para os exemplos de organização política descentralizada dos países mais ricos, mais capazes. E, mesmo que estejamos cansados de o repetir, fale-se de Norte, porque, depois de um governo socialista que mais uma vez empurrou cinicamente para a frente qualquer reorganização territorial que trouxesse equilíbrio a este país inclinado, agora são os sociais-democratas que, a coberto da crise, se preparam para mais uma vaga centralista.

Não é só Leixões e o Sá Carneiro. Vão fechar mais estruturas do Governo, vão extinguir direções regionais, tribunais, universidades, menos ainda do já pouco que temos, pois até mesmo as CCDR podem ver limitadas as suas competências, sem que sejam substituídas por estruturas capazes de pensar em termos regionais. Até a armadilha da organização administrativa pelas comunidades intermunicipais, enunciada a favor de uma descentralização, parece mais feita para dividir do que para unir.

Por isso soa bem este prenúncio de Norte e sabe bem ouvir o “Jornal de Notícias” ou o Porto Canal a falar da região, mesmo que por vezes ela pareça tão distante dos próprios habitantes. Eles escavam a identidade, constroem uma narrativa e, se ela for suficientemente persistente, é sobre ela que amanhã os políticos terão que discorrer.

Pode até ser que isto tudo seja mais desejo do que realidade, que eu ande a ouvir coisas. Mas se alguns políticos e líderes de opinião têm tido a capacidade de levantar a sua voz, mesmo contra a subserviência dos habituais oficiantes partidários, pode ser que estejamos mais perto do dia em que os cidadãos exijam falar em nome da terra que habitam.

David Pontes escreve segundo o novo acordo ortográfico

  1. Liseta Silva says:

    Não podia estar mais de acordo com tudo o que escreve neste artigo. Há muitos políticos que deveriam defender mais a região, mas que, depois de chegarem a Lisboa, ficam um pouco esquecidos. Restam as pessoas bem conceituadas e de certa maneira influentes, com as suas origens e raízes no Norte, para defenderem a região, na cultura, economia e muito mais! Não somos nem nunca aceitaremos ser, como nos apelidam no Algarve, “arrogantes” e muito menos nos deixaremos apelidarem lá por Lisboa de “arrogantemente rústicos”. Temos é que ter muitos como Fernando Gomes, Artur Santos Silva, Pinto da Costa (política, cultura e desporto), para não falar em tantos nomes que aqui e ali vão defendendo esta gente genuína, que fala terra a terra e não gosta de salamaleques, que trabalha que se farta e recebe em média menos 8o a 100 € do se trabalhasse em Lisboa. Bem-haja por defenter este cantinho. Obrigada.

  2. David Pontes. Acho a sua opinião interessante. Apesar de um País pequeno,por vezes questiona-se a necessidade e a importancia de dividir o País em regiões…Ser ou não ser regionalista, tem mais a ver com um estado de descriminação dos orgãos de decisão do que com a distribuição da riqueza produzida, face à questão administrativa. Muitos são os exemplos daqueles regionalistas convictos(?) completamente incapazes de descentralizar competencias…veja-se o caso das autarquias locais Camaras versos Freguesias. Todavia julgo que a regionalização poderia resolver(?) alguns dos problemas assimétricos do País apesar de eu pessoalmente considerar que existe uma tremenda falta de lideres que encabecem o movimento pelas regiões…Recordo apenas o exemplo de um grande lider pela região do Norte, Dr Fernando Gomes derrotado nas eleições Municipais pela mesquinhez partidária de um povo que na verdade “chora,critica,mas na hora da decisão não sabe o que quer” E por isso apesar de regionalista lamento o comportamento e as opções que tomamos ao longo destes ultimos 30 anos.

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