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Foto: Miguel Oliveira

14 Mai 2017, 14:44

Texto de

Opinião

Crónica de um desaire anunciado

Foi Gabriel Garcia Marquez, um romancista laureado, que escreveu um livro imortal intitulado ‘Crónica de uma Morte Anunciada’ em que antecipa o desaparecimento de um jovem, por mera vingança, gratuita e sem sentido.

Imagem de perfil de Manuel Luís Mendes

Manuel Luís Mendes é natural do Porto e licenciado em História. Foi professor no ensino oficial de Português e de História. E ainda docente de Comunicação no ISEF (hoje Faculdade do Desporto) e na Escola Superior de Jornalismo. Foi ainda jornalista no Jornal de Notícias, tendo chefiado a secção de Desporto. Trabalhou na área da Educação e Ensino.

Mal comparado, por certo, mas esta notável publicação e ideia fizeram-me lembrar o ocorrido com a queda e o insucesso consecutivo do FC Porto, em que, pelo pelo menos nos últimos quatro anos nada ganhou.

Era algo previsto e previsível, para a chamada maioria silenciosa portista, mas para uma denominada minoria ruidosa,tal desiderato era uma séria possibilidade.

Esta, desde o início, que acreditava que a Fé e a Esperança no Espírito Santo, era suficientemente competente para alimentar o sonho até a matemática provar o contrário.

O próprio treinador (?), fez questão de o evidenciar, de forma pomposa, aquando da sua apresentação afirmando: ” Uma equipa como a do FC Porto não pode estar tanto tempo sem ganhar nada. Sendo assim, esse será o objetivo da época “.

Como escreveu alguém, o que custa não é sonhar, mas executar. E, neste contexto, temos de evocar os quase 30 anos em que houve sempre festas no clube. Eram os famigerados “S.Joões antecipados” para gáudio dos dragões e para desespero da concorrência lisboeta. Ou através da Taça ou do campeonato (para não falar das sonantes conquistas europeias) a cidade e o país “azul e branco” rejubilava.

Agora, restará visitar o Museu do clube, onde se guardam os momentos de glória dos portistas para se ter uma ideia da grandiosidade do emblema que honra a cidade do Porto. Isso ou esperar. Quanto tempo? Uma incógnita….

Só para ilustrar a fraude das promessas feitas, no início, refira-se que, em cerca de 60 jogos, apenas por uma ou duas vezes , a equipa fez exibições de empolgar.

Muito pouco ou nada para quem prometera imprimir um novo rumo ao clube que foi pentacampeão. A comprovar a sua ineficiência, nos últimos sete jogos, com o título em ebulição, apenas somou duas vitórias, a duas jornadas do fim, nunca conseguindo chegar à liderança.

A quem atribuir culpas a tanta desilusão e tristeza? Aos adeptos jamais. Apoiaram sempre, foram pacientes e tiveram a esperança num título pelo qual se bateram, como heróis.

Porém, como é habitual, a culpa vai morrer solteira. Mas podemos diagnosticar, segundo a nossa ótica, logicamente, alguns pontos que ajudam a entender melhor mais um fracasso dos dragões, a saber:

– Escolha de um treinador novato, sem currículo e sem carisma. Nuno Espírito Santo (NES) pode ter generosos compadres e argutos padrinhos, mas não tem nem competência nem personalidade para dirigir uma equipa da grandeza do FC Porto. Como escrevemos há tempos, estar ao leme de uma traineira não é, forçosamente, o mesmo, que pilotar um transatlântico. Daí se perceber que a equipa jogava retraída, medrosa, sem afoiteza e sem ambição de vitória.

– Fez esquecer o padrão de jogo da equipa que privilegiava o aproveitameto de todo o terreno. Era um sistema com dois extremos puros, de forma a ganhar espaço no centro da área adversária. Era um modelo ganhador, mas foi substituido por um outro, confuso, irregular, prudente e sem… norte!

– Opção por um plantel mais escolhido por outros do que pelo técnico. Influências exteriores acabaram por determinar a existência de um plantel desequilibrado, descompensado e, em alguns casos, desajustado das exigências competitivas de um clube candidato ao título. Um exemplo: inscreveu-se o belga Depoitre, que mostrou ter a altura proporcional à sua valia técnica e que veio passar umas férias bem pagas a Portugal e deixou-se sair Aboubakar que foi brilhar para a Turquia. Mas isso é compreensível em quem, no Valência, dispensou Jonas para ir marcar golos para o …Benfica!!!

– Ineficácia total no treinamento de contra-ataques e de livres. Ninguém sabe – porque não se vê…- para que servem os ensaios diários, Mas, pressupõe-se que deveria servir, também, para aprimorar detalhes tático-técnicos como o agilizar das transições rápidas ou dos livres. O FCP não tem um especialista neste tipo de lances. Não tem, não os preparou e não os contratou…

– A existência de arbitragens, sectárias e incompetentes, sempre em prejuízo do FC Porto num sinal claro de que o clube perdeu o respeito dos árbitros e de quem os comanda. Até neste aspeto, os portistas cederam a hegemonia e consideração que tinham no setor. Não sejamos ingénuos, mas por alguma razão, o esvaziamento da Liga e a reformulação legislativa e administrativa do nosso futebol passou do Porto para Lisboa. Ignorantes, ainda vá que não vá, agora burros é que não… Agora, com uma goleada final, o campeão Benfica fez esquecer ou minimizar as benesses das arbitragens.

– A chamada “máquina” do FC Porto já não é a que era. Agrupada em zelosos funcionários, estes são téoricos e livrescos, sem qualquer experiência e preparação práticas. Perdem muito tempo em manobras folclóricas, ao jeito do presidente do Sporting, procurando que o acessório se transforme em essencial e vice-versa. Um exemplo: passaram o tempo a falar dos árbitros, da violência, da (in)disciplina e nem uma palavra para criticar o técnico! Foram hábeis na argumentação da conspiração, mas tal distraiu os jogadores, que são humanos, e que não se concentraram mais em suar a camisola. Elegeram o polvo, como manjar especial, mas o que os adeptos queriam era lagosta…Nas exibições e nos resultados.

Se o “erro é pedagógico” pode ser que para a próxima época tudo mude para melhor. O prestígio do clube, a grandeza da cidade e o orgulho das gentes do Porto assim o exigem. A ver vamos, pois.

Opinião

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