4 Mai 2012, 16:31

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Opinião

Crisis? What crisis?

A afirmação dos poderes de tendência neoliberal tem avivado os mecanismos estruturais produtores de desigualdades.

Crisis? What Crisis?

A capa de "Crisis? What Crisis?"

Corria o ano de 1975 e nas montras das lojas de discos aparecia, rutilante, um LP com uma capa sugestiva: um indivíduo de calções e óculos de sol refastelava-se numa cadeira gozando as delícias do verão à sombra dum guarda-sol. Coisa banal? Não. É que o que o rodeava não era a praia, mas uma lixeira. Uma bela lixeira, uma lixeira bem surtida, e ele impávido em cima dos escombros do consumismo como quem está na esplanada. Assim era a capa do Crisis? What crisis?, dos Supertramp.

Sobre o cenário da atual crise já se pronunciaram inúmeras personalidades e entidades. Cruzam-se e atropelam-se análises e opiniões, variando no grau em que são capazes de influenciar a nossa percepção do que se está a passar, daquilo que o causou ou daquilo que nos encaminhará para uma saída. E tantas coisas já se disseram, tantas e às vezes tão contrárias entre si, que já deixei de me preocupar, porque já estou incapaz de realizar uma síntese de tanto elemento disperso. Criei a minha própria versão da crise, acredito nela como um escritor acredita na sua ficção – e assim levo os dias adiante, sentado nas pequenas certezas que me tranquilizam.

De onde saem tantos opinion makers? De vários lados. Consideremos o caso dos bastonários das ordens profissionais. A relevância social de algumas profissões torna os bastonários das respetivas Ordens influentes vozes públicas. Quem não conhece Marinho Pinto? Ou José Manuel Silva? Advocacia e medicina são ofícios antigos, com o papel e a imagem mais do que consolidados.

E os psicólogos? Constituem um corpo profissional ainda jovem no panorama português. Há 30 anos, o cidadão comum sabia apenas dum modo muito vago para que serviam, e foi com a demonstração do valor da psicologia nos mais diversos contextos da vida social que os psicólogos, pouco a pouco, foram complexificando a imagem que deles hoje se tem e se foram afirmando como construtores dum saber e duma prática importantes na nossa sociedade.

Foram aumentando em número à medida que crescia – aliás exageradamente – a oferta universitária de cursos de psicologia. E, num mundo marcado pela desregulação, foram capazes da ordem – da Ordem, que finalmente, ao fim de anos de espera, se tornou realidade.

O grande público sabe quem são Marinho Pinto ou José Manuel Silva, mas poucos ainda saberão quem é Telmo Baptista. Está na hora de saberem que também o bastonário da Ordem dos Psicólogos se pronunciou sobre a crise. Ora vejamos 2 passagens do seu editorial no n.º 2 da revista da Ordem dos Psicólogos portugueses, acabada de dar à estampa em Abril: “A sociedade como um todo tem de lidar com as consequências da crise, o aumento da depressão, do suicídio, das perturbações ansiosas e do stress, o impacto generalizado na qualidade do trabalho, e talvez o pior de tudo, um sentimento de desesperança, que é prenunciador de uma falta de vontade para agir e confrontar a situação em que nos encontramos.”

Não sou capaz de desmentir as suas palavras. Nem de as reiterar, posto que não creio que se baseie em algum estudo sobre as consequências psicológicas da crise. Seja como for, o que diz é verosímil, e cada um de nós no seu contexto próximo encontrará exemplos que o ilustram. Mas há sempre o outro lado. No meio do panorama desanimador que a crise instalou, os psicólogos, pelos vistos, hão de ser dos poucos que têm razões para sorrir: atente-se na esplêndida clientela que a nefanda crise se arrisca a produzir! Atenção malta da comportamental-cognitiva, da centrada no cliente, da psicanálise (a longa e a breve), atenção malta do psicodrama (o moreniano e o psicanalítico), dos grupos de encontro, dos grupos balint, da grupanálise, da musicoterapia, da respiração holotrópica, da bioenergética – atenção, especialmente, malta da terapia pelo grito!

Não basta, porém, enunciar os problemas, é preciso apontar saídas. E é o que faz Telmo Baptista quando alerta: “Por isso temos de ser mais claros na afirmação da psicologia como um conhecimento válido e importante para sair da crise. Nós sabemos muito bem o que são crises, e o que fazer para sair delas.”

Eis aquilo que nunca me tinha ocorrido: que os psicólogos fossem o contrário dos políticos. A vocação destes para empurrarem países inteiros para o sofrimento da crise é simétrica da capacidade dos psicólogos para abrirem o caminho da saída. E, enquanto durar o período da troika, em que os psicólogos pouco poderão fazer pela crise geral, possa ao menos a Ordem tornar realidade para aqueles que representa a excelente frase “nós sabemos muito bem o que são crises e o que fazer para sair delas”.

Mais a sério agora: não ignoro nem discuto as virtualidades da intervenção psicológica perante cenários de crise, sejam pessoais, conjugais, familiares ou organizacionais. Mas tenho às vezes receio de que o fervor na afirmação do poder dos psis (psicólogos, psiquiatras e outros especialistas daquilo a que já alguém chamou sociedade terapêutica) circunscreva os problemas à sua dimensão individual, mascarando involuntariamente as suas raízes sociais.

O reducionismo individualizante tem um problema de focagem: recortando com grande nitidez o indivíduo, desfoca as razões supraindividuais daquilo que ele experimenta como problema aparentemente pessoal. E isto corresponde a esvaziar o conteúdo de denúncia política que pode conter o sofrimento individual, como é bem o exemplo da figura do desempregado de longa duração, agora coagido à “procura ativa de emprego”, como se resultasse da indolência ou duma espécie de desafeção pelo trabalho o estar na situação em que está.

A afirmação dos poderes de tendência neoliberal tem avivado os mecanismos estruturais produtores de desigualdades e dificultado a garantia pelo respeito, pela dignidade e pelos direitos dos cidadãos – porque é nessa dificuldade que reside a grande fonte do mal-estar nas sociedades ditas do bem-estar. O que esta crise tem mostrado é que a atual maneira de governar, na subjugação aos poderes financeiros e a esferas de interesses dificilmente escrutinadas pelos fragilizados mecanismos dos poderes democráticos (eis uma palavra a necessitar de ser repetida), o que esta crise tem mostrado, dizia, é que as aparentes saídas para a sua resolução estão afinal a aprofundar tais mecanismos.

A psicologização dos problemas pactua, embora involuntariamente, bem sei, com o inimigo: porque ajuda à desfocagem das razões e dos agentes que nos trouxeram até este ponto. O advento dos psicofármacos, cujo valor terapêutico não está em causa, também serviu para docilizar as massas castigadas pelo trabalho intensivo, pela rotina e pela insónia – e os que nos tiravam o sono contavam as notas enquanto engolíamos a pastilha.

Luís Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico

  1. Angela Maria Lopes says:

    A crise diabolizada enquanto rotura de um pseudo equilibrio que nunca existiu, o sofrimento individual escamoteado numa sociedade que se quer terapêutica para “normalizar”, tirânica nas suas exigências de “agitação proativa” quando os sistemas reguladores deixam de funcionar, quando já não há espaço nem tempo para pensar. Sem dúvida uma das responsabilidades dos psicólogos, das ordens profissionais é de criar dinâmicas reflexivas sobre os fenómenos de crise e processos de mudança par além das ideias e ideais dominantes, bem haja por preservar tal possibilidade…

  2. Simão says:

    Podemos afirmar que, sem dúvida, existe uma “persuasão clandestina” para que vejamos problemas com forte raiz social pelo prisma individual. A Ciência caminha nesse sentido, assentando cada vez mais numa elaboração discursiva da “objetivação”, isto é, do recorte pronunciado e rigoroso do objeto de estudo a que se propõem estudar, descurando objetos que, pela sua dimensão, inunde e confunda a capacidade de controlo e mestria do cientista.
    A tentação da psicologia pelo individuo é antiga, provavelmente tão antiga como a sua própria história. E sempre que existiram impulsos no sentido da sua deriva para campos alternativos que viessem inverter a tónica do individuo para os contextos – falo aqui, por exemplo, da Psicologia Ambiental – tal desfecho traduzir-se-ia na sua diluição no manto discursivo dominante.
    Gostei muito da crónica e vai no sentido do seu exímio Trabalho!

    Um Abraço,
    Simão

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