23 Fev 2013, 11:49

Texto de

Opinião

Crise e território, desde o Porto

Persiste o provincianismo paroquial dos que gastam o que têm e não têm (Menezes) ou se recusam a ter uma visão de futuro que ultrapasse a Circunvalação (Rio).

Aprendi que o papel do Estado era essencialmente orientado para a diminuição das desigualdades entre as pessoas.

Não que tenhamos de ficar todos iguais, como alguns chegaram a sonhar (ou ainda o fazem, na Coreia do Norte, por exemplo), porque as diferenças entre nós, no sentido da biodiversidade, geodiversidade e pura humanidade, são fator de riqueza e de progresso e porque afinal, se fossemos todos exatamente iguais, o mundo seria o inferno, de tão monótono e previsível… inumano, até!

Aprendi também que o planeamento e a gestão do território e o urbanismo em particular serviam essencialmente para que o espaço não nos diferenciasse e que fosse potenciada a mistura, de pessoas, funções e usos do solo.

Pois… Mas…

Afinal a política tem permitido diferenciar.

A diferenciar os emigrantes que partem sem nada no bolso senão um diploma que os nossos impostos ajudaram a pagar, daqueles que chegam ao Banco Central Europeu, ao Parlamento Europeu, ou à Iberdrola (entre tantas outras possibilidades para muito poucos) e ganham por mês o que muitos não ganharão em toda a sua vida. Ou entre os Catrogas e Relvas deste mundo, face aos tantos que têm de passar por angústias inimagináveis apenas para garantir a sua sobrevivência e dos seus filhos e netos (ou pais e avós). Não é injusto, desumano até, a diferença ser tanta?

Afinal o urbanismo tem também permitido diferenciar.

Por exemplo quando o Estado (via POLIS) gasta o nosso dinheiro (e o dos contribuintes de outros países europeus) no passeio junto à praia de Matosinhos, ajudando a vender (mais caro) os prédios que se constroem no lugar de velhas fábricas de conserva, sucessivamente demolidas mesmo que importantes na memória da cidade que tem o maior porto de pesca de Portugal, prolongando para norte da Foz o lugar de ricos, mais ou menos ricos e os muitos “armados” em ricos (com dívidas ao banco que nós pagamos com os milhões que chegam desde a Europa dos nossos impostos). O urbanismo diferencia também, quando através de um bem-intencionado Plano Especial de Realojamento “despeja” para junto do Bairro do Cerco do Porto (no Bairro do Ilhéu, designadamente), mais uns milhares de pessoas que não conseguem aceder a habitação e que, com o nosso dinheiro, vão para junto de outros, promover a criação de um espaço indesejado, onde os problemas (naturalmente) se multiplicam (dependência de drogas, prostituição, insegurança,…), também como efeito da concentração de pessoas com problemas vários (desagregação de família, desemprego, …) que não ajudamos a resolver e que infernizam a vida aos seus vizinhos.

Entretanto, prossegue o centralismo dos que desde a capital tudo sabem e de tudo desconfiam, intimidando e limitando o exercício dos autarcas, mesmo que acumulem desde o centralismo as asneiras que todos pagamos caro (já não suporto a sobranceria, pseudo não-política dos imbecis catedráticos como Gaspar, o atentado intelectual de Relvas ou a pseudo autoridade moral dos cúmplices dos BPNs e madeiras desta mundo).

Entretanto, desde o Porto e da AMP (isso ainda existe?), além do ataque do centralismo, persiste o provincianismo paroquial dos que gastam o que têm e não têm (Menezes) ou se recusam a ter uma visão de futuro que ultrapasse a Circunvalação (Rio), do que resulta um urbanismo sobretudo para lugares onde residem os opinion makers (Boavista, Foz, Matosinhos, Leça, …) ou os lugares dos turistas, num “centrocentrismo” que não para de gastar o nosso dinheiro, seja nos cubinhos onde tropeçamos e que afastam do espaço público as malas dos turistas ou os carrinhos de bebé, seja nas “recuperações” de prédios velhos-novos onde se instala ainda mais um hotel que os nossos impostos ajudam a abrir e mais uma esplanada (mesmo que ilegal como no”Piolho”) que ocupam as nossas praças e nos obrigam a pagar para usar o espaço que é nosso.

José Rio Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico

  1. mjsoares1955 says:

    Há textos que vale a pena ler (ainda que seja pelos piores motivos).
    Para que não se confunda o saber/conhecimento, com a doxa (opinião futebolística) ou com o dogma (modo mal disfarçado de passar ideias totalitárias e ditatoriais, logo, idiotas, como se de expressão da capacidade de pensar problemas sociais se tratasse).
    Poderá ter sido este o estatuto heurístico de quem redigiu este pobre texto.
    Sem estrutura, nem coerência, apresenta-se sob o manto diáfano, porém ilusório, da autoridade académica, para derrapar para o preconceito e a manipulação panfletária.
    Porque há mais que fazer, limito-me a pôr em destaque a contradição inicial, sem prejuízo de voltar para abordar outros aspectos.
    O autor confunde igualdade, diferença, diferenciação, equidade ou individuação.
    Acredita, por exemplo, que, na Coreia do Norte, haja quem sonhe com a igualdade que nos torna todos iguais… Belo truísmo, vazio de conteúdo.
    Acha que a diferença é “factor de progresso”, o que não deixa de ser comovente, se se articular esta afirmação genial com a brilhante profecia de que o mundo seria um inferno, se fôssemos todos iguais!
    Acontece que a frase inicial faz o leitor aprender que o autor terá aprendido que o papel do Estado estaria essencialmente (?) orientado para a diminuição das desigualdades entre as pessoas.
    No caos promíscuo de ideias impensadas de um senso-comum estereotipado, feito de clichés e de torpes preconceitos, só podemos concluir que, não sendo, eventualmente, a intenção do autor – e é aqui que reside a sede da sua incapacidade cognitiva -, o Estado actua no sentido de que fiquemos todos um pouco mais iguais!!!
    Obviamente tudo isto se aplica, sem admitir discussão, quando os referentes se enunciam como planeamento, gestão do território e urbanismo: que não nos diferenciem como grupos ou como pessoas! Logo agora, quando parecia que a diversidade, como factor de progresso, se poderia transformar num argumento um pouco mais convincente!
    Nota de pormenor: sabe o autor do que fala quando faz uso de noções como território e urbanismo? Pesquisei incessantemente a “Escola Doutoral de Geografia” da U.P., mas não encontrei qualquer pista…Será que existe? Sem ela, sou levado a crer que o director talvez também não exista. Hélas!
    Há quem devesse aprender a pensar antes de escrever.
    O tempora, o mores!

  2. Jorge Ricardo Pinto says:

    Há comentários que não vale a pena ler.
    E não valem porque são construídos no anonimato, onde é muito mais fácil ser agreste e cínico com quem quer que seja, mesmo quando essa agrura não tem conteúdo e assume a máscara da erudição.
    Na sombra, o anónimo erudito brinca com a semântica e esquece o fundamental. Porque aparentemente o que para ele importa é a clareza da distinção entre diferença e igualdade, ao que tudo indica, perdida nas palavras do autor.
    E atenção, o anónimo avisa que “há mais a fazer”, perdendo, no entanto e lamentavelmente, linhas e linhas a atacar uma crónica do Porto24 e, ao que ele próprio indica, procurando incessantemente uma escola doutoral de Geografia da UP.
    De facto, há mantos diáfanos e estatutos heurísticos que não chegam para cobrir invejas alheias. São mantos e estatutos demasiado pequenos para assinar um texto.
    Jorge Ricardo Pinto

  3. Li este texto/opinião como leio, quando tenho mais disponibilidade, outros textos de outros “opinadores” do Porto24. E gostei, porque penso que percebi o autor, que não conheço nem tenho particular interesse em conhecer, passe a indelicadeza.
    Indelicadeza que abunda no comentário de “mjsoares 1955”. E digo indelicadeza, porquê? Porque, escrevendo como falo, me parece, não uma crítica “normal”, mas uma chamada de atenção vinda “de cima da burra”, de alguém que se quer “armar aos cágados”, com insinuações de sapiência e de suposta erudição, como refere o segundo comentador, tentando rebater o autor, mas confundindo tudo e acabando “em grande” com uma expressão latina, que fica sempre bem, em qualquer texto que se quer apresentar como se de uma tese se tratasse. Apologista das diferenças, eu que não aprecio o estilo clássico, conservador, que até se me arrepiam os cabelos só de ouvir a palavra “fato”, tipo saia e casaco ou casaco e calças (não menciono o colete, porque gosto dele, desenfiado do resto), até adoro latim. Fui sempre a melhor aluna (Filomena Maria de Sousa e Silva, 18 valores no exame final, 2000/2001, Escola Secundária Rodrigues de Freitas, Porto – não sei se quer número de contribuinte), embora agora, claro, sem treinar a língua morta, já não tenho aquele treino que se esperaria… Então, fui ver (a neve caía) e verifiquei que O tempora, o mores! – significa: “Oh tempos! Oh costumes!, pelos vistos, foi usada por Cícero para expressar espanto e indignação por uma época decadente e uma situação escandalosa…
    Será que “mjsoares 1955” se enganou e o seu verdadeiro nickname é “mjsoares 1855”? Caramba, estamos em crise, mas não havia necessidade…

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