14 Jul 2011, 14:07

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Opinião

Coragem

Será mais corajoso o governo PS ter acabado com parte dos financiamentos públicos (de todos nós) dos colégios privados ou o governo PSD e o PR terem apoiado esses colégios e os pais beneficiados pelo Estado?

A falta de tempo e esta coisa de acumular links e notícias permite-me acompanhar, por vezes no espaço de apenas uma hora, a evolução noticiosa de 1 ou 2 dias. Reparei, por exemplo, como o Presidente da República falou do nosso sistema de saúde e da Moody’s, em 2 momentos diferentes do seu fim-de-semana no Algarve. Reparei no que tinha vestido, nas palavras que disse e no tom que usou ao fazê-lo e, ao ouvi-lo, lembrei-me de como pediu “coragem” ao Governo de Passos Coelho e de como anuiu às “medidas corajosas” tomadas pelo dito. E esta palavra, “coragem”, assim como o seu significado, rodeavam-me enquanto linkava, lia, ouvia e via o resto das notícias que tinha acumulado.

Será mais corajoso dizer na sessão solene de inauguração de um hospital (de Loulé) que o Serviço Nacional de Saúde é incompetente ou acabou – sendo facilmente desmentido – ou dizer que as agências estão “mal-informadas” sobre o que se passa em Portugal, em fato de treino, à margem de um torneio de golf não oficial?

A coragem não pode ser medida a partir da nossa simpatia para com as pessoas que tomaram esta ou aquela decisão ou atitude, muito menos se pode aceitar que alguém, analisando em causa própria, se defina “corajoso”. Não, a coragem deve ser analisada pelo ato e pela sua circunstância.

Será mais corajoso o governo PS ter acabado com parte dos financiamentos públicos (de todos nós) dos colégios privados ou o governo PSD e o Presidente da República terem apoiado esses colégios e os pais beneficiados pelo Estado?

Implica maior coragem montar uma entidade independente que avalie as contas públicas, ou seja fazer o que o Tribunal de Contas faz, ou ouvir de fato o que o Tribunal de Contas tem a dizer sobre as contas públicas – quando se percebe agora com livros e reportagens as falhas e erros grosseiros que essa “força do bloqueio” denunciou e foi olimpicamente ignorada?

Será mais corajoso vender os lucrativos CTT ou um canal da RTP, prejudicando os coitadinhos dos operadores privados de televisão (ou de média)?

Incutir medo a alguém que está inferiorizado em relação a nós não é uma atitude de coragem, ou raramente será, enquanto que desafiar alguém que claramente tem um ascendente sobre nós é um ato corajoso.

Dizer aos pais que têm de aproveitar a escola para dar refeições decentes aos filhos que o leite achocolatado vai ter IVA máximo (tal como a Coca-Cola) é uma medida mais corajosa do que dizer aos bancos que não podem fugir aos impostos e que serão, se necessário, perseguidos? O corte anunciado pelo governo de 50% no 13.º mês acima do salário mínimo pode ser considerada uma medida corajosa se entre os que a tomaram e a defendem estão os que contestaram que taxar no máximo quem ganha cinco mil euros era um ataque à classe média?

Admito que não seja sobre coragem, mas esta frase de Nelson Rodrigues – citada por Arnaldo Jabor – surgiu-me naquela hora de leitura. Dizia ele que numa desinteligência a Norte do Mundo perguntam “Quem é que tu pensas que és?” e no Sul do Mundo questionam “Mas tu sabes quem eu sou?”. Estamos cada vez mais perto do Norte do Mundo, mas quando é necessário mostrar coragem preferimos incutir medo aos mais fracos do que confrontar os mais fortes.

Filinto Melo escreve de acordo com o novo Acordo Ortográfico

  1. Paulo Maia says:

    E tirar a tributação das mais-valias do imposto extraordinário? Já não peço coragem, só que não haja covardia!

  2. Paula Ferreira says:

    Coragem deviam ter tido os portugueses se tivessem dado um murro em cima da mesa para que o País naõ ficasse como está hoje !!! (eu tb não dei)

  3. O Sr Cunha já castrou o Zé Povinho há muito tempo. Já não é Fado, Fátima e Futebol, é Facebook e… Futebol. E chega, que dá trabalho dizer três palavras seguidas.

    Bem avisou Zappa sobre os malefícios dos média!

    Mas agora a sério: coragem era tirarmos a maioria absoluta à abstenção.

Opinião

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