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Foto: Arq/Miguel Oliveira

21 Set 2015, 15:02

Texto de

Opinião

Conversas de uma geração perdida

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Estou certo que no silêncio que se gerava entre nós durante a viagem, e no intervalo das palavras que proferíamos, ficava uma pergunta por responder: “Porquê a nossa geração?”.

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Simão Mata é psicólogo, mestre em Psicologia do Comportamento Desviante e da Justiça pela Universidade do Porto e estudante de doutoramento em Psicologia na mesma instituição. Os seus interesses profissionais e de investigação situam-se entre o fenómeno droga, a marginalidade urbana e a exclusão social. Vive na Maia, mas passa a grande parte do seu quotidiano no Porto. Gosta de cultivar uma atitude “flâneur” pela cidade, palmilhando becos, ruas e avenidas. Por vezes, tem a mania que é poeta e aparece mascarado com o pseudónimo “Pedro da Silva”.

Ficção e Realidade. Eis duas dimensões que marcam este período pré-eleitoral. Ficção a dos políticos. Realidade a do povo. Ficção daqueles que estão no Governo e daqueles que querem vir a estar porque a sua sede de Poder é infinita. Dos primeiros emana uma demagogia grotesca. Pedem uma maioria absoluta mas parece-me que estão carregados de uma demagogia absoluta. Proferem um discurso sem sentido, repetitivo e oco; dos segundos, vemos sempre uma agenda de “vale tudo e qualquer coisa” para matar a sua sede imensa. Mostro agora com dois exemplos de duas conversas trazidas da minha vida quotidiana de como esta ficção dos políticos está tão distante do país real em que vivemos:

1. Conversa com um amigo na faculdade. Combinamos um café e ele falava-me de uma empresa para a qual trabalha desde início deste ano e que não lhe paga o “ordenado” (não tenhamos medo das aspas). Qual o valor do “ordenado”? Cerca de 200/300 euros mensais. Após tanta humilhação a que foi sujeito, depois de tanta carga psicológica a que foi submetido para ganhar aquela mísera quantia, o meu amigo, que andou na mesma faculdade que eu, que frequentou muitas disciplinas comigo do curso de psicologia, decidiu iniciar uma nova vida no estrangeiro. Dizia-me entre os dentes que está farto deste país. Mexia várias vezes a colher no café enquanto fixava os olhos nesse movimento repetitivo. Eu observava-o, calado. Percebi que queria chorar. Não conseguiu.

2. Conversa com um amigo no metro. Mandou a ocasionalidade de uma viagem de metro que me encontrasse com um amigo com quem já não estava há muito tempo. Falava-me da não renovação do contrato num escritório no Porto, após um estágio profissional. Tirou um curso superior com o auxílio de um empréstimo bancário que ainda está a pagar e não sabe como vai fazer agora para continuar a pagar as prestações. Mas este, ao contrário do meu amigo anterior, não tinha vontade de chorar. Ou talvez a sua face disfarçasse bem a nódoa negra que lhe ia na alma. Mas, estou certo que no silêncio que se gerava entre nós durante a viagem, e no intervalo das palavras que proferíamos, ficava uma pergunta por responder: “Porquê a nossa geração?”.

Estes são apenas dois resumos de duas conversas de uma geração perdida e que ocorreram no país real ao qual o nosso Governo e os nossos políticos com sede de poder parecem fazer ouvidos moucos. Somos de uma geração que sofreu as consequências destes quatro anos de políticas desastrosas e que nos tornaram ainda mais pobres do que aquilo que já éramos. Somos de uma geração que quer romper com as políticas deste Governo e temos agora de ser aquela geração que em outubro mostrará nas urnas que não quer mais estes senhores à frente do País. Rua com eles.

Opinião

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