16 Out 2011, 16:49

Texto de

Opinião

Convém avisar os ingleses

O Porto tem vindo a registar um número crescente de estudantes estrangeiros. São os beneficiários do programa Erasmus, uma espécie de rendimento mínimo garantido da excursão.

Descobri! Uma crónica num jornal digital deve ser interativa. As minhas, até agora, não eram. Os assuntos não suscitavam o leitor à reação, não buliam no seu interior, não o dispunham ao combate. E eis que encontrei a receita: falar dum assunto que não tenha assunto. Aí sim, o povo reage!

Os responsáveis por programas desportivos há muito que sabem disto: promovem imensos debates em torno duma patada num túnel num estádio de que não me lembro o nome, dum penálti que foi ou aliás foi e não foi marcado, dum telefonema que metia fruta e afinal eram e não eram mas ai isso é que eram prostitutas.

Ora aí está! Para quem não leu, o assunto era o vegetarianismo. Decidi-me pelo tema à última da hora – mas, como digo, em boa hora. A primeira opção era a sameirinha em pista coberta, mas não encontrei um número suficiente de praticantes que justificasse o esforço. E hoje, de que vou falar hoje? Da invasão do inglês. Se Orson Welles celebrizou a invasão dos marcianos, se John Carpenter celebrizou a das baratas, eu posso perfeitamente tornar-me aquele que profetizou a invasão do inglês. E o que vem a ser isso? Já explico – vamos a isso:

O Porto tem vindo, desde sensivelmente há uma década, a registar um número crescente de estudantes universitários estrangeiros. São os beneficiários do programa de mobilidade Erasmus. Para os menos familiarizados com isto, explique-se que se trata duma espécie de rendimento mínimo garantido da excursão, e de tal modo se têm vindo a tornar notórios que já originaram um novo vocábulo: os erasmus.

Não posso, no espaço limitado que aqui tenho, ir à natureza profunda das razões que levam as autoridades académicas a acarinhar tanto os erasmus. Construção dum espaço universitário europeu? Europa do conhecimento como concorrente dos EUA à escala global? E os erasmus, por que aderem crescentemente à proposta? Indómita curiosidade por saber como se ensina noutro país? Vontade de conhecer os nossos talentos académicos? Turismo científico? Deambulação pós-moderna, espécie de reemergência da nossa ancestral vontade nómada? Talvez tudo isto em conjunto e ao mesmo tempo.

Quem não puder vê-los saltitando nas nossas faculdades, entrando e saindo e entrando de sala de aula em sala de aula, sem entenderem patavina do que ouviram, quem não puder assim vê-los pode, pelo menos, ir ali para a zona do Piolho, Galerias de Paris ou Ribeira, e verá como expandem a alegria e matam a sede.

Uma cidade que perde habitantes há décadas, que tirou as faculdades da baixa, que deixa arruinar muito do seu edificado convertendo a traça antiga em coisa velha, tem de animar-se com esta renovação que os erasmus trazem. Com eles, o Porto macambúzio cede lugar ao “conheça-o e use-o”. E o portuense, depois das pragas habituais nos primeiros contactos, acaba por saber receber com fraternidade, sendo transportado no coração desta rapaziada para os seus países de origem. Aqui chegados passarão a palavra, o rastilho está aceso, novos entusiastas vêm já a caminho na esperança de que Piolho e companhia ainda não tenham sucumbido à crise. Ah, e claro, que o fulgor das aulas da nossa universidade ainda seja o mesmo!

Mas o que queria de facto fazer notar ao pegar no exemplo dos erasmus era a tal coisa da invasão do inglês. Até agora só tínhamos o inglês de doca, trazido pelos marujos que aportavam a Leixões. Melhora agora de nível, espraiando-se pelos campus – pois, com u – e bares, restaurantes e esplanadas.

É verdade que já tínhamos o inglês cricket club da comunidade britânica que cá vive desde os tempos em que deitou mão ao vinho fino – outra vez o vinho, meu Deus! –,  mas a verdade é que a essa, dadas as minhas origens na pequena burguesia dessa classe em extinção que são os funcionários públicos, a essa só me foi dado vê-la de longe.

Voltemos aos erasmus. Ele há os que, na primeira aula, dizem que não percebem o português e perguntam se será possível fazer a disciplina em casa e virem só no dia do exame; ele há os que solicitam – com educação, é preciso dizê-lo – aulas em inglês, resumos da aula idem, powerpoints idem idem. E até os que dizem que não podem reprovar à disciplina, no seu país não aceitariam isso e obrigá-los-iam a repor uma pipa de massa. Ora, pipas temos nós de sobra (embora não se possa dizer o mesmo da massa) e estou em crer que é por isso que mais e mais erasmus empreendem esta nova rota do oriente agora a ocidente.

Tudo isto seria engraçado se não se desse o caso de não poucos dos meus camaradas de universidade olharem para a invasão erásmica soletrada em inglês como um sinal inescapável do destino. Qual destino? O de que o mundo afinal, no seu tão longo trajeto histórico, mais não tinha para cumprir senão o de ir desaguar à hegemonia do eixo EUA-GB. Da babilónia original, com a sua profusão de línguas, passaríamos à imensa planície uniformizadora do inglês, para podermos entender cabalmente quem nos comanda. Num planeta assim, qual é o primeiro passo? Qual é o primeiro passo que dá uma criança depois dos primeiros passos? O de aprender a língua nativa, claro. E é por isso que agora, em qualquer lado de Portugal onde haja uma universidade, fazemos conferências em inglês para uma centena de portugueses e cinco estrangeiros, é por isso que concorremos a financiamentos de investigação em inglês: o júri é estrangeiro, um francês, um belga, um espanhol, um polaco – por isso há que escrever na língua de nenhum deles.

Agora que temos dado passos largos para proteger a biodiversidade, podemos dar-nos ao luxo de matar a diversidade linguística, que é muito mais do que a profusão incómoda de dialetos – é a essência identitária de cada povo, a ferramenta com que pensa e age. E isto não é pouco, e é por isso que quem domina quer que todos falem no seu dialeto: está certo de ser entendido, não precisa de entender ninguém. Avisei-vos a vós, mandam as regras do combate que avise o adversário. Por isso convém avisar os ingleses – título que o meu falecido amigo Joaquim Castro Caldas deu a um dos seus livros de poesia. E diz-nos a história que são os poetas quem primeiro avisa.

  1. Tenho conhecimento de pelo menos um caso em que houve um motivo objectivo para o interesse em vir passar uma temporada em Portugal no âmbito do programa Erasmus: aprender o surf, lá está. Isto foi dito por um gajo austríaco – encantei-me com tamanha sinceridade.

  2. rpedrot says:

    o mark diz algumas coisas ao lado… uma delas é que os chimpazés não têm aprendizagem social… há culturas diferentes conforme o grupo de chimpazés. mas uma língua é também uma forma de ver o mundo e nesse sentido o inglês, sendo uma língua culta como muitas outras, serve um propósito uniformizador. ou será que estou enganado?

  3. Ex - Erasmus says:

    “Para os menos familiarizados com isto, explique-se que se trata duma espécie de rendimento mínimo garantido da excursão, e de tal modo se têm vindo a tornar notórios que já originaram um novo vocábulo: os erasmus.”

    Aposto que o Professor também critica os alunos que sem conhecerem o trabalho a fundo dos seus docentes, os chamam de “desocupados” vá!

    Curiosamente, não teve pudor em criticar não só erasmus que vêm para o Porto, estrangeiros portanto, mas também os que da UP se aventuram na Europa, com as mais diversas motivações é certo, para “ver mundo”! Este ver mundo significa conhecer novas culturas, novos métodos de ensino, novas formas de relacionamento e comunicação e, no meu caso, CONHECIMENTO!

    Mas sabe Professor, é muito Português criticar generalizando… Tem outro impacte…

    Para perceber o tamanho insulto que foi feito a uma geração em que erasmus é o 1o passo para introduzir avanços tecnológicos no país de origem vou cair no seu erro de análise…

    Com uma análise breve e superficial à infomação que acompanha o seu texto:
    “Tem dedicado os seus trabalhos de investigação à expressão do fenómeno droga em contexto urbano”
    Poderia afirmar que cada um dedica o seu tempo e esforço aquilo em que melhor se expressa? Comentário inútil, insignificante e mesquinho… Leia o seu artigo agora… Vai ver do que estou a falar…

    Cumprimentos Professor
    Continue a escrever… Melhor que errar é aprender com os erros dos outros

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