15 Fev 2012, 21:34

Texto de

Opinião

Confissões íntimas de um infodifuso

Bastava-me a décima parte dos mails que recebo, um centésimo da informação que me chega. Com tanta abundância tudo se torna irrisório, as pessoas e os acontecimentos atropelam-se uns aos outros.

Sai da frente, Guedes

Foto: YouTube

A sociedade da informação informa demais. A sociedade da comunicação comunica demais. A consequência mais direta é a de que perco muito tempo para pôr o mundo em ordem. E pôr o mundo em ordem não é mais do que uma maneira de pôr o mundo interior em ordem. A geração que já convive desde o jardim-de-infância com esta sociedade que informa e comunica demais construiu defesas, de modo a não sucumbir ao turbilhão. Teve de desenvolver um estilo de sobrevivência que é os antípodas do que, durante milénios, limitou o ser humano ao perímetro acanhado das imediações do povoado.

A aldeia é agora a aldeia global, e o aldeão planetário desdobra-se em encontros, lugares, sítios (sítios-sítios e sítios-www), vivendo na espuma desta dispersão como num ambiente natural, em que fosse óbvio estar sempre a correr de mensagem em mensagem, a combinar e descombinar encontros, a fluir e refluir ao sabor da comunicação eletrónica via telemóvel, via mail, via última inovação tecnológica, que tem sempre menos tamanho e mais rapidez, menos fios e mais imagem, menos custo e mais canais simultâneos, mais parafernália multimédia.

Como não há tempo para ler, os livros tornaram-se mais abreviados, de lombadas mais finas, com propostas light e atropelam-se uns aos outros de modo a fazerem parte desta euforia comunicante em que há tanto para dizer que cada mensagem não pode durar mais do que breves momentos. Paradoxo: nunca tanta gente tentou escrever, como o prova a profusão de literatura linha zero à procura de ser romance, tanto blog de comentário à procura de ser Pacheco Pereira ou professor Marcelo, tanto blog de artes, de culinária, de coisas várias e disto e daquilo – no final, é do umbigo que se trata.

Ainda o paradoxo: na geração sem tempo para ler vive-se no hipertexto. É possível que o hábito milenar de pensar com vagar esteja em vias de ser considerado um defeito, uma falta de competências numa sociedade que produz máquinas cada vez mais rápidas, ligando através da rede tudo com tudo. Num estado destes conta mais estar ligado do que o conteúdo das ligações. Quem não está sempre ligado arrisca-se a ser um infoexcluído e isso, numa cultura quotidiana que vem glorificando a imersão na rede, é mau por definição. De modo que ser um agitado, correndo frenético de solicitação em solicitação e de evento em evento virtual ou real, é um estilo consonante com a sociedade da informação e da comunicação.

Vem daqui a sensação, muito repetida por todos os interlocutores com quem nos vamos cruzando, de que não têm tempo para nada, de que andam sempre a correr, de que não percebem o que se passa mas o certo é que já nem para si têm tempo –  quanto mais  parar com sossego no café, entrar e ficar sem ser de passagem. Corre-se porque a hipercomunicação gera uma profusão de idas, de encontros, de pressas. O mundo assemelha-se a um palco permanente, à medida que se anuncia sem cessar no ecrã do nosso computador, e a jornada parece uma fina película para cobrir tanta espessura de pequenos e grandes acontecimentos de que podíamos ser atores.

Ainda outro paradoxo: a vertigem do acontecer erige o banal em epopeia. O YouTube é o armazém das epopeias baratas, como o tombo do Guedes, um bebé a fumar charuto ou uma pomba a cagar na Estátua da Liberdade. Antigamente, um palerma dificilmente se destacava – hoje é difícil consegui-lo sem alardear uma palermice. A hipercomunicação, sugando-se a si própria, puxa pela estupidez e promove o irrisório, como é fácil de comprovar vendo o tempo que os canais televisivos dedicam a exibir gags de trambolhões e de partidas pregadas a transeuntes na via pública.

Perco muito tempo a pôr o mundo em ordem, já disse. Bastava-me a décima parte dos mails que recebo, bastava-me um centésimo da informação que me chega. Com tanta abundância tudo se torna irrisório, as pessoas e os acontecimentos atropelam-se uns aos outros. Antigamente, fazíamos coisas. Hoje, comunicamos aos outros que as vamos fazer. Nos congressos, por exemplo, comunicavam-se resultados solidamente estabelecidos, hoje comunica-se a propósito dum projeto em que ainda há só parte teórica e não raro cheia de alinhavos de principiante. Este é o sentido não-pensado e mais profundo da expressão “mundo virtual”.

Todos os dias recebo no meu computador propostas de iniciativas que vão decorrer aqui e ali, artísticas, científicas, de recreio, excursionistas, culturais, ecologistas, feministas, de adesão a causas várias, de denúncia de vítimas de regimes, de guerras, de doenças, dos americanos, dos terroristas. E depois há os blogs. Ah, os blogs! Uma imensa esfera, uma esfera que é a última emanação da biosfera, uma esfera que é o mundo privado de cada um a irromper até aos confins da estratosfera. Por hoje chega, começo a sentir-me exausto, num estado interior talvez infodifuso, talvez webinfuso – à beira de entrar em parafuso. Tirem-me deste blogofilme!

Luís Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico

  1. Sergio Alves says:

    Curioso estar a ler isto e a meio ficar com vontade de largar o facebook, percebendo de imediato que se já o tivesse feito não tinha descoberto este texto.

  2. João Pedro da Costa says:

    O Luís Fernandes sofre de iliteracia digital. É muito comum e trata-se com facilidade. A condição não merece cuidados especiais, mas torna-se mais gravosa quando o paciente é um investigador académica na área das ciências humanas e sociais.

  3. luís says:

    Organize-se, meu caro, estabeleça prioridades, deite fora aquilo que não presta e verá que lhe sobrará tempo para tudo o mais de que gosta.

Opinião

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