26 Ago 2011, 9:03

Texto de

Opinião

Como se constrói uma faculdade

A Faculdade de Desporto da Universidade do Porto é a materialização de um projecto bem conseguido que tem a honra de se ver reconhecido, nacional e internacionalmente, como fautor de excelência pedagógica e científica.

Poderia ter utilizado os conceitos edificar ou levantar para definir a criação da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP) mas, ao optar pelo termo construir, relevo a força das coisas que dão trabalho erguer. Há algo de físico no conceito de construir que bate certo com a alma da nossa escola.

É difícil despir as roupas da emoção quando falo da FADEUP, porque faço parte dela há mais de 35 anos. Tem sido uma imensa viagem que me permitiu descobrir horizontes fora de mim mas essencialmente as paisagens internas que eu jamais tinha tocado.

Quando olho para trás, sem saudosismos ou revivalismos adulterados (quase sempre a memória distorce-nos o passado), sinto a gratificante sensação de ter contribuído com a minha ínfima quota para a construção de algo importante e de profunda pregnância social.

Mas lembremos. Em Outubro de 1974 rumei a Lisboa, eleito pelos meus pares estudantes, para os representar na Comissão Instaladora que viria a elaborar o decreto-lei 675/75 que criou os Institutos Superiores de Educação Física de Lisboa e Porto. Fui para Lisboa ávido de sentir o pulsar mais forte da revolução iniciada com o 25 de Abril. Embora todo o país estivesse “em fogo”, era em Lisboa que as acontecimentos mais ardiam. Embrenhei-me neles até ao tutano.

Por influência do José Manuel Constantino, aderi ao M.R.P.P., e passei a acreditar (não muito) que a solução revolucionária para o país passava por dar o poder político aos camponeses e operários. Até escrevi poemas em que exaltava as virtudes do fato-macaco manchado de óleo e as mãos nodosas dos camponeses encardidas pelas jornadas de trabalho debaixo do sol inclemente. Deste meu fervor revolucionário ficaram-me algumas vergastadas no lombo cirurgicamente perpetradas pela polícia de choque quando rumámos ao cinema S. Luís para “revolucionariamente” boicotar o comício dos “saudosos salazarentos” do CDS.

A minha militância política terminou 6 meses depois, ao verificar que enquanto eu, e outros pacóvios como eu, passavam as noites na Lisboa profunda a colar cartazes, os condottieri revolucionários iam dormir (ou seja iam, com a ajuda de Morfeu, definir as linhas estratégias da política a seguir; o chefe nunca dorme, pensa profundamente).

Desse tempo ficaram-me alguns amargos de alma pois contribuí com a minha “estupidez revolucionária” para perpetrar algumas acções nefandas comandadas por agentes sediciosos propagandistas dos amanhãs que cantam: foram os saneamentos selvagens de professores válidos e bondosos só porque tinham dado aulas na Mocidade Portuguesa; foram as passagens administrativas com notas elevadas a cadeiras para as quais não tínhamos lido uma letra; foram os oportunismos vários das várias corporações profissionais que procuravam pela via da reivindicação política aquilo que não tinham conseguido pela via académica, etc. Se tenho alguma desculpa para os erros desse tempo, ela radica na acrisolada crença na bondade da revolução. Só mais tarde dei pelo logro e descobri que homo homini lupus, por muita fé na humanidade que alguns apregoam. Desse tempo ficou-me a aversão à política e a descrença nos grandes desígnios da humanidade.

No meio de todos os excessos revolucionários alguns tentaram construir um Portugal melhor. Tive a felicidade de integrar um grupo apostado em elevar socialmente a Educação Física e o Desporto. Nenhum oportunismo conseguiu estragar a via de excelência formativa e profissional que encetamos nessa altura e que passava por construir uma Faculdade de Desporto respeitada no seio da Universidade do Porto. Conseguimo-lo.

O que é hoje a Faculdade de Desporto da Universidade do Porto? 

É a materialização de um projecto bem conseguido que tem a honra de se ver reconhecido, nacional e internacionalmente, como fautor de excelência pedagógica e científica.

Mas o caminho não tem estado isento de escolhos. Muitos derivados de constrangimentos exógenos outros criados por nós próprios. No nosso desejo de afirmação individual temos sabido recusar a indiferença. Nietzsche afirmava que o oposto do amor não é o ódio mas sim a indiferença. Nesse pecado nunca caímos porque temos tido a coragem de lutar por aquilo em que acreditamos olhando os “inimigos” nos olhos. Uma das razões da força da nossa escola tem-se prendido com a coragem de assumir dissidências, de valorizar a disjunção como factor transformador, de ir fazendo as depurações necessárias mantendo incólume o desígnio colectivo fundamental – manter e acrescentar a excelência.

A luta, a guerrilha sub-reptícia inter-individual, é usual em qualquer área de manifestação humana onde existe competição por posições de chefia ou influência. Temos sabido assumir essa competição que nos tem exigido a reformação qualitativa. Somos um grupo vivo e intelectualmente fervilhante em que o pensamento não é determinado por qualquer guru iluminado. O pensamento autónomo embora nos tenha trazido esporádicos conflitos relacionais tem sido, quase sempre, o lastro para as melhores navegações que temos conseguido. Pensar é difícil, mas temos tido a coragem de colocar o pensamento e por arrasto a reflexão filosófica como cimento agregador de uma escola singular que descobriu sem tibiezas o seu rumo. O pensamento disjuntor tem sido benéfico para a saúde do corpo que somos pois tem-nos aberto perspectivas de renovação. O pensamento divergente raramente foi visto como ameaça e, quando o foi, determinou ou a sua assimilação ou um patamar mais elevado de realização.

Tenho honra em fazer parte desta faculdade. Tenho orgulho nos meus pares que são reconhecidos no país e no mundo. A escola de excelência que partilhamos e que ajudamos a construir não pode fenecer nos leitos do comodismo. Temos de ser incómodos uns para os outros pois essa condição erradica de nós a letargia que acontece a seguir à obra feita. Deus descansou ao sétimo dia mas nós não o podemos fazer. Falíveis e frágeis mortais, temos de porfiar quotidianamente pois aquilo que tanto custou a erguer pode soçobrar na demissão de um instante. A nossa obra estará sempre incompleta e por isso cada dia nos coloca desafios de renovação que até ao momento temos sabido, com coragem, assumir.

Opinião

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