30 Nov 2012, 16:14

Texto de

Opinião

Cocó financiamento

''Cocó?'', disse a minha mãe. Mas, contrariamente ao embaraço que caracterizava antes o meu estado de gaguez, desta vez tal situação não me levou a retificar.

Por vezes sou um pouco gago. É algo que me vem da infância mas quem me conhece desde essa altura sabe que tenho feito longos progressos, que só gaguejo de vez em quando, que o disco apenas fica encravado cá dentro pontualmente e que não tarda desencrava e desato a falar como uma pessoa normal. Para sorte minha, não se trata de uma gaguez persistente, algo que me leve a ser sempre assim quando falo. Por vezes, gaguejo quando estou nervoso ou quando quero argumentar o contrário daquilo que acabo de ouvir. Tal situação já me deixou várias vezes embaraçado, denotada pela minha face ruborizada ante o escárnio dos que me ouvem.

Mas o último episódio de gaguez de que fui vítima levou-me a não ficar tão embaraçado como antes. Constituiu mesmo algo de bastante revelador para mim. Era como se o encravar das palavras me permitisse chegar a grandes conclusões, como se a gaguez que sempre me embaraçou me permitisse ver agora uma luz que ilumina factos obscuros.

Aconteceu-me quando ouvia a entrevista de Passos Coelho a Judite de Sousa na TVI, mais concretamente quando aquele declarava, a dado momento, que deveria existir um sistema repartido de contribuições no sistema de ensino em Portugal, em que o Estado entra com parte do financiamento e o cidadão entra com a outra parte (isto depois de dizer que a Carta Constitucional protege mais a área da saúde e menos a do ensino e, portanto, isto leva a que se ataque preferencialmente o ensino).

Familiares meus, que ouviam comigo aquilo que hesito em descrever como “as palavras do primeiro-ministro de Portugal”, perguntavam-me se eu entendia o que ele dizia e eu, que já estava a ficar enervado com tudo aquilo, que já fico desorientado quando ouço a palavra “coelho” em qualquer contexto, disse que o amigo Passos estava a estudar um sistema de financiamento duplo ao sistema de ensino, um sistema onde o cidadão paga para ter acesso ao 12.º ano por exemplo, que isso se vai traduzir num afastamento dos mais desfavorecidos da esfera escolar, as consequências que tal facto terá na diminuição da escolarização dos nossos jovens, etc., etc., etc. e, já no pico da minha efusão, digo à minha mãe que se trata basicamente de um sistema de “cocó financiamento”.

Paramos todos. “Cocó?”, disse a minha mãe atónita. Mas, contrariamente ao embaraço que caracterizava antes o meu estado de gaguez, desta vez tal situação não me levou a retificar o conteúdo gagado (passe o termo) e a reiterar que sim, que afinal se trata mesmo de um financiamento cocó.

Afinal o que Passos Coelho ameaça é criar um cofinanciamento entre famílias e Estado no sistema de ensino em Portugal através de um financiamento cocó ao último. Além de criar uma lógica de utilizador-pagador semelhante ao que já temos no Serviço Nacional de Saúde. E sabemos bem, aliás, do financiamento cocó que tal sistema representou para o Estado, retirando progressivamente a sua alçada ao SNS e a uma entrada sem precedentes dos grandes grupos económicos a financiarem (sem cocó) a saúde em Portugal. Sem cocó, sem medo, sem reservas, investindo com dinheiro, money, money, money, sujeitos empreendedores que se preocupam verdadeiramente com a saúde dos portugueses, nomeadamente através do desenvolvimento de novos antitússicos, isto é, basicamente, tirando a tosse (e o dinheiro) aos cidadãos portugueses.

Mas eu safei-me bem do meu episódio de gaguez. E é isso que me leva a escrever esta crónica, mais nada me move a não ser destacar a felicidade que sinto em ter superado esta minha limitação na linguagem. Dizia que se tratava de um financiamento “cocó” com especial orgulho, não do Passos Coelho, mas de mim. E tal orgulho não foi só correspondente às conclusões que acabava de tirar daquele meu episódio de gaguez mas fundamentalmente porque aquilo representava um momento épico na minha vida: afinal eu entendia que aquele encravar de determinadas palavras me revelava coisas do mundo, era como se andasse toda a minha vida desatento desta qualidade superior. E acreditem que depois disto vou andar atento à minha gaguez pontual. Talvez ela me revele coisas que estes tempos cocó não me permitem ainda compreender.

Simão Mata é psicólogo e escreve segundo o novo acordo ortográfico. O texto foi enviado para a Opinião Porto24. Pode enviar também os seus artigos.

  1. joão habitualmente says:

    Cocó? Citemos os nossos poetas: Jorge Sousa Braga, Epístola da Merda – a merda é a única coisa que não pode ser conspurcada.

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