10 Fev 2014, 11:39

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Opinião

Chove no Graham

No último domingo de janeiro, dia de chuva intensa, passeei pelo Foco. Era manhã cedo e ainda não se tinha levantado a maioria dos moradores daquela zona rica do Porto – bem, apenas os mais velhos, que compravam o jornal ou o liam na esplanada da Chaleira.

Imagem de perfil de Filinto Pereira de Melo

Foi repórter, redactor e editor de "O Primeiro de Janeiro", repórter da revista "Ideias & Negócios" e editor do site Ideiasenegocios.com; entre outros trabalhos, mais independentes do que precários, colaborou com o "Já" e o "Ciência Hoje". Jornalista, portanto, em comissão de serviço (que é como quem diz "a ganhar a vida") no comércio de livros. Adora o Porto e quer escrever sobre ele, sobretudo.

Como era domingo, não havia também a leve azáfama dos funcionários das várias empresas que ainda se localizam nos edifícios deste projeto à época (início dos anos 1970) revolucionário e que criou uma nova centralidade na então ainda desbravada Boavista, a meio caminho entre a Rotunda e o Castelo do Queijo.

Foram os mais velhos que, em novembro passado, alertaram a reportagem da SIC para a sensação de insegurança no empreendimento. Desde o encerramento do Hotel Tivoli-Porto, há seis anos, que foi o culminar do fecho de uma série de valências de lazer do “bairro-chique” – a piscina, o cinema, o clube, o ginásio… todos com o nome de Foco –, que comerciantes e moradores que ficaram no originalmente designado “Complexo da Boavista” assistem à desertificação. A centralidade deslocou-se para a zona do Bessa, agora são ali os hotéis de 4 e 5 estrelas, e entretanto a Espírito Santo Saúde comprou o complexo que inclui o hotel, ginásio, piscinas e cinema para ter ali uma extensão do Hospital da Arrábida (o projeto ainda não arrancou).

O Foco regressava às notícias, mas já não pelo cinema ter em antestreia o “Grease” (uma loucura à época), nem por causa do desenho da sua piscina, nem pelas estadias das grandes figuras internacionais e portuguesas no Hotel – primeiro Atlântico, depois Tivoli – nem sequer pelos funerais de figuras da cidade que saíam da Igreja da Nossa Senhora da Boavista.

A igreja é o ex-libris do Parque Residencial da Boavista. A obra principal de Agostinho Ricca (discípulo de Marques da Silva e colega de Rogério de Azevedo) é uma referência na moderna arquitetura religiosa do Porto, pela forma como modelou e expôs o betão e criou aberturas para a entrada de luz natural. Ainda lá dentro, destacam-se obras de Júlio Resende e Zulmiro de Carvalho, Manuel Aguiar e Francisco Laranjo. Cá fora, esta igreja construída pela Cooperativa dos Pedreiros enquadrou-se com sucesso no parque residencial circundante. E só foi finalizada mais de 40 anos depois de o Foco ter sido impulsionado pelo grupo financeiro articulado pelo Banco Português do Atlântico e pela Sociedade de Construções William Graham – o que faz que a zona ainda seja chamada, pelos mais velhos, por exemplo, como “o Graham”.

Projetado no início dos anos 1960 e construído desde então, o Foco conseguiu uma harmonia entre o despojado desenho inicial e os melhoramentos adicionados na construção. Apesar de se encontrar entre a avenida da Boavista e a VCI, a forma como foi pensado e urbanizado ditou que se tornasse uma espécie de paraíso urbano: da área de 70 mil metros quadrados, os dez imóveis de finalidade residencial, comercial, recreativa, cultural e religiosa ocupavam apenas 25 mil metros quadrados; o restante terreno é de amplas zonas verdes e arruamentos interiores. “Trata-se, portanto, de uma zona calma e repousante, embora situada numa das grandes linhas de trânsito para o norte e o sul do país e na proximidade imediata do coração da cidade e da Foz”, refere a entrada sobre o Foco no «Guia da Arquitetura Moderna», das edições Asa.

Recordei esta memória descritiva que se encontra no site do Igespar, quando, no domingo passado, voltei ao Foco. Já de tarde, um grupo de moradores passeava os cães, não se viam comerciantes. Chovia muito sobre a relva esverdeada da área comum do bairro urbano, as árvores caducas não escondiam o betão da Igreja e do resto do complexo que foi palco da animação do Foco e hoje dita, ainda, um sentimento de insegurança. No rádio, uma publicidade anunciava a Oferta Pública de Ações do Grupo Espírito Santo Saúde.

Filinto Melo escreve segundo o novo acordo ortográfico.

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