5 Dez 2011, 11:31

Texto de

Opinião

Por quem os sinos dobram

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O lado negro do centro histórico do Porto continua a ensombrar as potencialidades que residem numa marca como é o Património da Humanidade e a fazer do Porto uma cidade mais triste.

Foi há 15 anos, numa manhã fria do dia 5 de Dezembro, que os sinos das igrejas do Porto tocaram a rebate como há muito certamente não o faziam. O centro histórico do Porto acabava de ser classificado Património da Humanidade pela Unesco, distinção que naquela altura só cerca de 40 outras cidades do mundo ostentavam.

Hoje não há muitas razões para chamar o sineiro, porque o centro histórico ainda não é muito diferente daquele que nos encheu de orgulho há 15 anos. Temos mais hotéis, melhores restaurantes, alguns edifícios (poucos) recuperados e os 95 imóveis com interesse patrimonial mantêm-se em condições razoáveis de conservação. Mas os principais problemas, a desertificação, o envelhecimento da população, o encerramento do comércio tradicional, o abandono de muitos edifícios, continua a espalhar-se como maré negra, num território onde se acumulam 3000 mil anos de história.

O Porto Património da Humanidade continua aí para ser celebrado, aplaudido como o é pelos milhares que os voos low cost ajudam a trazer à cidade. Mas uma medalha não serve só para lhe puxar o lustro nas datas certas. Com ela, vem a responsabilidade de preservar e tornar vivo aquilo que é nosso, mas que a todos pertence.

Só que o lado negro do centro histórico do Porto continua a ensombrar as potencialidades que residem numa marca como é o Património da Humanidade e a fazer do Porto uma cidade mais triste. Numa qualquer gaveta, está hoje esquecido o Plano de Gestão do Centro Histórico do Porto Património Mundial, elaborado em 2008, pela Câmara do Porto, porque a isso a obrigou a Unesco.

Basta ler um pouco do Plano de Ação do documento para perceber que temos o plano mas falta ainda muita ação:

“Atualmente, assiste-se ainda a uma situação que sugere preocupação: 32% do edificado encontra-se em mau estado de conservação e 4% em ruína. Se a este número, juntarmos os 649 edifícios em estado médio de conservação, concluímos que existem 1302 edifícios a necessitar de uma intervenção de reabilitação e conservação.

Pretende-se, perante este cenário, e no âmbito deste eixo, prosseguir um processo de intervenção, reabilitação e conservação urbana do carácter único e distintivo deste conjunto.

Este objetivo passa por reforçar e dar continuidade a uma grande operação de planeamento e intervenção urbanística em curso, que visa promover a conservação e restauro de 83 quarteirões, reabilitando 1302 edifícios, promovendo paralelamente ações que permitam um maior e melhor panorama de estímulos ao investimento privado e incentivos fiscais, discriminando positivamente quem pretenda investir no Centro Histórico do Porto.”

E “a criação de serviços de proteção, conservação e valorização do Património Cultural, com equipas técnicas especializadas”, a “tomada de medidas jurídicas, científicas, técnicas, administrativas e financeiras adequadas para a identificação, proteção, conservação, valorização e restauro do referido património” ou mesmo a mobilização de residentes, trabalhadores, investidores e visitantes para a defesa e promoção do valor patrimonial do património histórico parecem estar longe de estar cumpridas.

Somos o que somos e, por isso, se um dia acabarmos à procura da nossa identidade, da nossa história, nos corredores de um centro comercial, não vale a pena perguntar por quem os sinos dobram. Já sabíamos a resposta, não estivemos foi lá para a dar.

  1. Gi says:

    Não podia estar mais de acordo. Aliás o seu comentário vem de encontro ao comentário que aqui fiz, no “Porto24”.
    Subscrevo na integra!!!!!!!!!!!!

    Georgina Pinto

Opinião

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