5 Dez 2011, 16:51

Texto de

Opinião

Porque está a cidade tão suja e descuidada?

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Talvez seja tempo de admitir que já nem tudo se salva: já visitaram as ruínas nas Escadas do Codeçal? Conservá-las porquê, para quê e para quem?

Centro histórico do Porto

Foto: Ana Natálio

O turismo está aí, cada vez com maior força e menos sazonalidade, graças a um aeroporto de qualidade e bem localizado e ao serviço das low cost. Mas não só, porque as caraterísticas do destino são essenciais em turismo e a notoriedade da cidade ajuda, seja pelo fato de o seu nome se associar a vinho (que é do Douro e está em Gaia); seja a clube de futebol de renome; seja ainda pela qualificação como Património da Humanidade que hoje se celebra e que dá garantia à partida do interesse na visita.

Está forte também um certo tipo de retorno ao “centro”, o da noite na cidade (mais na parte alta do que junto ao Douro ou nos morros da Sé e da Vitória), mas são infelizmente poucos os novos habitantes permanentes e os novos estabelecimentos de comércio ou serviços.

O metro também ajuda a chegar ao centro e colocar o centro de novo mais acessível.

Mas de que centro se fala? Começa a confusão, porque se o “histórico” está espalhado pela cidade (e por todas as cidades que a rodeiam), a verdade é que baixa e centro histórico muralhado são “bons vizinhos”, mas coisa diferente.

A segunda área é a que nos interessa aqui – e está mal servida de metro e de noite –, para propor a reflexão a propósito do porquê, no Porto mais antigo mais que em muitas outras cidades europeias, de tantos prédios vazios de gente. E porque continuam também a fechar os estabelecimentos de comércio? Porque regressa e aumenta a insegurança e algumas ruas se tornam quase inacessíveis (Viela do Anjo, Rua de Pelames,…) à maioria? E porque está a cidade tão suja e descuidada fora das ruas e praças mais visíveis para quem passa de automóvel?

Tem faltado investimento público no edificado? Talvez! Mas houve muito com o CRUARB e FDZHP. Lamentavelmente encerrados. E continua a haver muito: na Sé é já visível o “estaleiro” que combina dinheiro europeu (do BEI e do QREN) com o pouco que a câmara também coloca nas “Parcerias para a Regeneração Urbana” geridas pela SRU e que se estenderão em breve às ruas de Mouzinho da Silveira e Flores.

Tem faltado investimento privado? Talvez! Mas há empresas a investir (em hotelaria e construção civil sobretudo) e há também alguns proprietários a beneficiar as suas propriedades.

Então… porque continuam as ruínas e a sensação de abandono? Porque… a lei das rendas não é o que deveria ser; porque o mau estado obriga a intervenções que tornam o esforço financeiro insustentável e porque há falta de gestão, mesmo em aspetos visivelmente essenciais a quem habita e visita? Sim, claro. E então?

Então, talvez faça falta aprender com países mais ricos e mais poupados nas intervenções públicas e privadas (o low cost na construção…), seja necessário facilitar de fato os procedimentos (e pouparem-nos os rigores que incentivam o abandono) e diferenciar fiscalmente quem recupera e quem está disponível a ceder ao município a preço razoável os seus imóveis para evitar impostos.

E… talvez também seja tempo de admitir que já nem tudo se salva: já visitaram as ruínas nas Escadas do Codeçal, por exemplo? Conservá-las porquê, para quê e para quem? Porque não se criam as condições para o aparecimento de construções novas? Porque não se criam as condições para alargamento de ruas e abertura de praças?

Mas, claro, há muito mais além da dimensão física no centro histórico e da falta de limpeza e segurança (a pedir demolições, como no Aleixo? Esperemos que não!), numa urgência que está muito além das ruas por onde passam os turistas e se esconde dentro e fora das casas, num desafio permanente de “fazer cidade” (e cidadania) na cidade existente, pensando em todos, mas privilegiando os que a habitam aos que a visitam.

José Rio Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Opinião

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