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4 Abr 2018, 16:55

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Opinião

Ó Centeno, vai dar um “turn to the big snooker”

Foste para o Eurogrupo e já te julgas alguém importante? Foste para lá, não por seres o Lionel Messi das finanças portuguesas, mas porque assim obrigavas os portugueses a continuar a bater a bola baixo. O elogio do Schäuble inchou-te o ego e elevou-te à categoria de velho avarento. Só dás uma chouriça a quem te der um porco. Ora assim não vale e tens de saber que o Vitor Gaspar já nos roubou os porcos todos.

Imagem de perfil de José Augusto Rodrigues dos Santos

Nasceu no Porto, em 1948. Professor associado com agregação da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Tem dirigido trabalhos de investigação em várias áreas científicas (Nutrição, Bioquímica, Imunologia e Fisiologia) relacionadas com o desporto. Foi treinador de remo, canoagem e futebol e atleta internacional de canoagem e basquetebol.

Desculpe sôr ministro da massa pelo meu atrevimento, mas hoje a revolta faz-me ferver o sistema límbico, pois custa-me a aceitar que não me paguem o que emprestei ao país, enquanto os dinheiros públicos são dissipados nos sorvedouros vários que os nepotismos da tríade PS, PSD, CDS criaram como cogumelos venenosos.

Hoje vou parecer um fulano interesseiro e mesquinho que critica o governo só por causa do dinheiro. Não é assim, e a minha vida é farta em exemplos em que o dinheiro foi sempre coisa secundária ou mesmo despicienda. Para verem que não estou a mandar foguetes para o ar vou contar dois episódios que expressam bem a minha secundarização do vil metal. Há uns longos anos atrás, estava eu metido nas minhas tamanquinhas universitárias, quando recebo uma chamada do Joaquim Teixeira, treinador de futebol, que diz que precisa de mim para o ajudar com a preparação dos jogadores do Leça. Agradeci, mas declinei o convite esclarecendo-o que para o peditório do futebol já tinha dado o meu contributo. O Quim Teixeira, com toda a sagacidade que o futebol promove, atacou: – Ó Prof., quando foi para lhe dar os meus jogadores para o seu doutoramento não hesitei, agora que preciso de si você faz-me manguitos. Não podia ter atacado de melhor forma e de imediato me coloquei à sua disposição, mas com as seguintes condições: faria o início de época completo, mas depois com o início do campeonato eu só iria ao clube 3 vezes por semana e nada de jogos. Ele aceitou de imediato e toca a marcar a reunião com o presidente para discutir honorários.

Presidente: quanto quer ganhar Professor?
Eu: bem, como é uma coisa em part-time que diz 200 contos?
Presidente: não, isso é pouco, fica em 300 contos.

Fiquei a ganhar bem, só que nos vários meses que estive no Leça nunca recebi um tostão. Ganhava bem, mas não recebia. Mesmo assim, nunca descurei a preparação da equipa e, depois das minhas aulas na faculdade, ia todos os dias ao clube para tratar dos jogadores lesionados. Não eram 3 dias como contratualizei oralmente, mas quase todos os dias da semana pois não conseguia deixar de ajudar os jogadores que vinham de lesões. Apesar de ter encontrado alguns bons cabrões, de uma forma geral, os jogadores são o melhor que o futebol tem; os jogadores e as meninas dos bombeiros que dão assistência nos dias dos jogos. E já agora os cães-polícia.

Um dia, as coisas não iam bem, o presidente veio-me dizer que eu tinha de ir aos jogos para fazer os aquecimentos. Disse-lhe: – Sendo assim, temos de repensar os meus honorários. Tem de me pagar 5.000 contos? Ele atónito: – Cinco mil contos? Sim, respondi. Para tratar da preparação da equipa e da recuperação dos jogadores eu até trabalho de borla, agora para o aturar a si e aos índios ao domingo são 5.000 contos. Levantou-se e nunca mais me falou no assunto e levou à letra a minha asserção de que até trabalhava de borla. Nunca me pagou um simples tostão, nem as despesas de transporte que eu tinha todos os dias.

Querem mais um exemplo? Então, aí vai. Quando entrei na faculdade, por concurso, em 1981, eu já era professor efetivo no ensino secundário. Entrei na faculdade como assistente-estagiário e, até à realização do doutoramento em 1995, estive sempre a receber muito menos na faculdade do que se estivesse na escola. Poucos fariam uma opção como esta; eu fi-lo porque o desafio de ser professor na universidade sobrelevou qualquer análise de dinheiros. Fui à procura do meu lugar ao sol e encontrei-o.

Isto vem a propósito de quê?

Das malfeitorias que o Vitor Gaspar e o Centeno fizeram a todos os professores e principalmente aos professores universitários. Sempre aceitei que todos tínhamos de contribuir para a salvação do país (salvação não vai entre aspas pois foi mesmo salvação), mas rapidamente verifiquei que o esforço pedido aos portugueses não tocava a todos por igual. Com certeza, também não se justificava igualdade no momento de sacrifício, mas houve graves entorses na lógica austeritária. Não me entra no neocórtex que algumas classes profissionais no funcionalismo público tenham tido tratamento diferenciado em relação aos professores do ensino universitário. Quando era estudante, os professores catedráticos estavam equiparados, em termos de proventos, aos generais de 3 estrelas e aos juízes conselheiros. Vejam como estão hoje as coisas.

Porque berro agora se sempre aceitei as curvas da vida sem considerações dinheirísticas? Porque estou a meses de me jubilar e, após 53 anos de serviço, considero uma afronta que o que o Passos Coelho me retirou para salvar o país não seja agora reposto. Como é possível que esteja, agora, a ganhar várias centenas de euros menos que em 2010? Continuam os bancos a ser vazadouros patológicos do erário e não há atitude mental para o país pagar a quem o que deve a quem teve de aguentar a canga mais dura da nora austeritária.

O ensino universitário e a investigação científica foram, na retórica dos candidatos a governo, as flores de excelência que urgia preservar e potenciar. Esqueceram-se disso senhores Costa e Centeno?

Opinião

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