21 Fev 2013, 18:56

Texto de

Opinião

CDUP – o complemento cultural da Universidade do Porto

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Ao dar saúde e hábitos saudáveis desportivos aos estudantes da Universidade do Porto, o CDUP é agente de cultura regressando à matriz que lhe deu substância.

CDUP é o acrónimo que significa Centro Desportivo Universitário do Porto. O título em epígrafe introduz o adjetivo cultural. Algumas mentes mais tocadas pelas efervescências emocionais e redutoras que o extraordinário mundo do futebol por vezes despoleta poderão questionar a legitimidade da assimilação do desporto a cultura. Para alguns, cultura é romance, ensaio, poesia, biografia, pintura, música, escultura, fotografia, história, geografia e outros tantos saberes que elevam o homem da sua condição biológica.

Como o desporto, expressa de forma ímpar a biologia humana, tem sido marcado com o estigma de menoridade pois manifesta-se através do corpo, esse invólucro traiçoeiro que mancha a alma ou espírito com as pulsões pecaminosas que arrasta o ser para o mais fundo e castigador dos infernos.

Mas não, o corpo é unicamente o ser na sua totalidade e tudo o que se relaciona com ele pode estar marcado ou com o ferrete da alienação ou com a elevação da cultura.

Vivi, desde muito cedo, no CDUP, o desporto na sua dimensão cultural mais conseguida. E sei do que falo porque fui um “penetra”, passe o plebeísmo, num mundo que me deveria estar vedado à partida.

Com 13 anos de idade, frequentando a Escola Comercial de Oliveira Martins, sita à rua do Sol, em plena freguesia da Sé, local genésico da invicta cidade, iniciei-me, impante de orgulho, no basquetebol da Mocidade Portuguesa (MP). No dia 28 de Maio de 1962, todos os lusitos da escola rumaram à praça do Infante para comemorar lustrosa efeméride pátria. Estive para não ir porque a escola não tinha calças para mim (os calções já estavam todos esgotados) já que eu era pró espigadote. Comecei a chorar e lá desfizeram as bainhas de umas calças e aí fui eu com uns fiapos ao dependuro cantar com fervor patriótico o “Lá vamos cantando e rindo…”. Que felizes que éramos na altura. Foi assim que começou a minha aventura desportiva que ainda não terminou.

Um ano mais tarde fui experimentar o Remo nas instalações do Sport Clube do Porto e a Canoagem no Centro de Canoagem da MP. Nos balneários do Sport conviviam os remadores desse clube, os remadores do CDUP e os miúdos proto-remadores da MP. Mais tarde, de forma natural, ainda júnior, passei a integrar as equipas do CDUP, começando a conviver com doutores e estudantes universitários que me receberam no seu convívio sem a mínima
demonstração de superioridade ou espírito de segregação. Eu olhava-os com aquela reverência especial que se outorga a quem convive com os deuses da sabedoria. Como já afirmei noutros escritos a Universidade do Porto sempre me atraiu como um Eldorado distante, pois eu partia de uma base social que tinha o ensino universitário quase como impossível.

Com aquele instinto de compensação que nos permite a sobrevivência da autoestima, sempre que me sentia pequenino na comparação com os meus colegas universitários refugiava-me na minha superior valia desportiva que me levou, em 1966, com 18 anos a praticar Remo, Basquetebol e Atletismo no CDUP, prática que completei com a Canoagem na MP e Andebol nos juniores do Sport Comércio e Salgueiros. Cinco modalidades desportivas praticadas num ano, enquanto estudava (mal) à noite para tentar entrar no Instituto Comercial, desiderato que não consegui.

Como o estudo não me corria de feição dediquei-me em absoluto ao desporto quando, pelo regimento do clube, tal me estaria impossibilitado pela minha condição de não universitário. O CDUP nunca me escorraçou e permitiu-me ser um deles sem o ser e desenvolver em mim o desejo de o vir a ser em plenitude o que só se concretizou depois de 4 anos de serviço militar, incluindo 25 meses nas matas da Guiné.

O CDUP foi sempre um cadinho de experiências culturalmente enriquecedoras. Vi os meus colegas e amigos a conseguir ser, engenheiros, médicos, advogados, juízes, economistas, professores, etc. Soube, através do saudoso Ribeiro da Silva, professor emérito da Faculdade de Ciências, o que era um doutoramento quando o vi rumar a Inglaterra e regressar prestigiado com publicações científicas nas revistas mais exigentes do mundo. O CDUP era
desporto mas sempre envolvido por um manto seguro de cultura e dignidade relacional. Nas viagens que fiz com os meus amigos do CDUP fui sempre um ouvinte militante. Aprendi o que era a tolerância política, o que era a amizade por cima das divergências, fui respeitado mesmo nas minhas falhas e, através do Professor Armelino Bentes, reconheci a dignidade profissional que definiu os caminhos da minha realização existencial.

O CDUP passou por momentos revoltosos que quase o destruíam. Choques de perspetivas gestionárias entre o CDUP antigo do meu crescimento e o CDUP moderno que tem de se adaptar aos novos tempos. O romantismo dos tempos idílicos que tinham o Doutor Jaime Rios de Sousa como patrono que tudo resolvia perante o Reitor terminou. Hoje, a Universidade cresceu muito e impõe outras regras ao CDUP porque são outros os estudantes que lhe aportam. A esmagadora maioria dos estudantes não se revê nos quadros competitivos estreitos impostos pelo desporto de competição. Contudo, o desporto de competição poderá ser sempre a cereja em cima do bolo do desporto para todos que deve ser apanágio do CDUP.

Ao cumprir a sua missão de dar saúde e hábitos saudáveis desportivos aos estudantes da Universidade do Porto, o CDUP eleva-se como agente de cultura regressando à matriz que lhe deu substância. Que o desporto federado de competição possa ter um lugar acarinhado no seio deste magnífico clube é sonho de quem ao CDUP e à Universidade do Porto deve o essencial do seu ser.

José Augusto Rodrigues dos Santos escreve segundo o novo acordo ortográfico.

  1. Ricardo Fernandes says:

    Parabéns, Prof, por mais uma crónica plena de emoção e gosto pela nossa cidade e região. Embora só tenha um breve passagem (5 anos) pelo CDUP como nadador Master e como treinador de natação, considero-o um icone do Desporto Universitário (e Federado, porque não?) Português. Pena seja que as autoridades que nos governam estejam mais preocupadas com ralis e que outros, com responsabilidades acrescidas, confundam o “fio dental” e a prática assistemática com Desporto. De Desporto isso não tem nada, servindo apenas para a estatistica e para animar a malta.

  2. João Tiago Guimarães says:

    Caro
    Gostei muito desta sua crónica. Temos de recuperar o lugar do CDUP na UP e na nossa cidade. Das boas ideias e das boas causas nunca se deve desistir!

  3. Caros Srs.

    Tenho 63 anos, contabilista / auditor e colecciono pins desportivos desde 1967, de associações, federações, clubes, eventos, congressos e olimpicos, tendo 32.500.

    Gostaria de ter alguns pins do CDUP e principalmente do CDUP Rugby, pois já vi um pin com uma bola de rugby e o vosso inconfundível”U”, pois tenho um correspondente italiano, ex árbitro internacional de rugby, com quem faço trocas que também, como eu gostaria de ter os vossos modelos em pin ou de alfinete.

    Cândido Santos Barros
    Rua Nossa Senhora Amparo, 342-1º Dtº- Bloco 2
    4435-350 RIO TINTO

    Tm: 969087638

    Cumprimenta e agradece

    Cândido Barros

  4. José Vaz says:

    Embora não tento conseguido qualquer doutoramento, passados uns anos palmilhei os mesmos caminhos do Professor José Augusto, nasci em 1953, também andei na Oliveira Martins, remei no Sport (era treinador o Garrido de Miragaia), convivi com os atletas (vizinhos) do CDUP que vinham tomar banho nas nossas instalações (ao primeiro andar) e nos deixavam dar uma voltas nos caiaques que, tal como as nossas embarcações, ainda eram em madeira, simultaneamente jogava basquete no Vasco da Gama.
    Ainda hoje (quando quero relaxar) vou para a beira-rio, falta-me a paz da água, e entristeço porque vejo o rio morto de gente, o rugido dos motores dos barcos de turismo veio abafar os comandos quase inexistentes dos timoneiros que, de verão e inverno, davam vida ao rio, à semana ao fim de tarde (no inverno pela noite dentro), e aos sábados e domingos de manhã.
    Bons tempos.
    Entristeceu-me ver o estado a que chegou o parque desportivo doCDUP junta à Ponte da Arrábida, ninguém “bota” a mão àquilo?

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