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Foto: Nataniel Diogo

15 Mar 2017, 20:06

Texto de

Opinião

Carteirista de conversas

Já me aconteceu muitas vezes escrever em cafés, por acidente ou necessidade de me sentir no meio de pessoas e vidas que não apenas a minha. Mas há umas semanas foi diferente: a associação Mezzanine convidou-me para fazer parte do seu projeto Meia Pensão, de residências artísticas em cafés do Porto.

Imagem de perfil de Cronistas do Bairro

Já éramos vizinhos de Bairro, agora pusemo-nos a misturar a paixão pela cidade com o amor aos livros e às palavras. E já criámos novos roteiros para os nossos leitores num Porto cheio de livrarias e afectos. Todas as semanas, os bairristas encontram as deliciosas colunas de opinião dos escritores Vanessa Rodrigues, Jorge Palinhos, Marisa Oliveira e Rui Manuel Amaral – os nossos cronistas de Bairro – no Porto24. Sempre à quarta-feira, o vosso Bairro dos Livros no nosso Porto24. Boas leituras!

Assim, durante uma semana, várias horas por dia e à vista de todos, armado de caneta, papel, computador e outras ferramentas de escrita, residi no Café Progresso, em plena Baixa do Porto. E descobri que residir num café é diferente de ir a um café.

Os cafés históricos ou de bairro são lugares onde as mesmas pessoas vão com regularidade e tornam seu aquele espaço. São os idosos a ler o jornal ou a conversar, os jovens que estudam ou atualizam perfis nas redes sociais, os trabalhadores que se preparam para entrar no emprego ou fazem uma pausa dele, os artistas que procuram oportunidades ou desenvolvem projetos, as amigas idosas que tomam chá e discutem maleitas e rumores. Um café é como a sala de estar de muitas casas, onde dei por mim a surpreender-me por não ver ninguém entrar de chinelos.

Nem todos os cafés são assim: há cafés gourmet, turísticos, conceptuais, onde se vai respeitosamente como a um museu, para apreciar decorações ou menus de degustação. Deles levam-se muitas fotografias e poucas memórias, pois aquilo que nos sobra dos cafés é a energia vertiginosa das conversas e pessoas.

E foi também isso que me ficou do Progresso. As conversas sussurradas dos pares à mesma mesa, as conversas à desfilada dos grupos animados, o silêncio de homens e mulheres sós ou a sorrir para o computador ou o telemóvel.
E foram essas conversas que fui registando à socapa, como se fosse um carteirista de frases, e que acabei por transformar num dominó de conversas, que dei depois a experimentar ao público do Meia Pensão. E este, reunido nas mesas do café Progresso, foi montando estes dominós, entre o espanto e o riso, para entretecer aquelas frases como se fossem fios que ajudavam a vislumbrar a tapeçaria que é um café cheio de intimidade e de vida.

Jorge Palinhos

Jorge Palinhos tem trabalhado como escritor, dramaturgo e guionista. Os seus textos já foram publicados, encenados e apresentados em Portugal, Espanha, Brasil, Alemanha e EUA. É ainda docente do ensino superior e bolseiro da FCT. 

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.