Image de Carta de “Gomes Leal” ao Porto

26 Fev 2014, 11:59

Texto de

Opinião

Carta de “Gomes Leal” ao Porto

PsicoPorto#1. A rua onde cresci é especial. Porque é a única no mundo que me trata por “menino”. E porque continua a ser lá que nasce o Porto, todos os dias. Mas ela está velha. Triste. Abandonada há décadas. Farta das caravanas de mágicos com promessas na manga…

Antes de começar a escrever esta carta gostava de ter sido capaz de contar quantas ruas há no mundo. Sei que são muitas. Mas não descobri arte nem engenho para as contar todas. Queria fazê-lo para te explicar melhor – permites-me que te trate por tu? – como a minha rua é especial para mim.

Eu sei que não é bonita. Longe disso. Também sei que, mesmo assim, já teve melhores dias. É certo. Mas, por mais ruas que conheça, por mais belas que elas sejam, a rua onde cresci é a única que me trata por “menino”.

Desconheço quem a baptizou, mas sei que foi no tempo em que ser poeta nascido em Lisboa não era (felizmente) impeditivo de dar o nome a rua do Porto. Coisas… E assim se tornou Rua de Gomes Leal, ali paredes-meias com o Bonfim. Na zona das Eirinhas, estás ver?

Regressar à minha rua é fazer aos fins-de-semana a viagem do emigrante em Agosto. Vou lá rever a família, matar saudades de outros tempos, observar à janela caras que sempre por ali passaram e outras tantas – cada vez mais – de quem desconheço os traços.

E recordar. O olhar longínquo da “vó Tilde” e do “vô Quim” na janela que habita o prédio da frente, os jogos da bola dos putos da rua (e os estouros que aos meus ouvidos continuam a ecoar nas paredes), a Aldinha a chamar pelo Viiiittttooor!, as alcunhas que brindavam as vizinhas (será que elas sabiam?), os galos e as galinhas a passearem-se por entre carros, o “olá menino” que ainda hoje, 44 anos depois da primeira vez, continua a repetir-se.

Nestes momentos, quando olho para ela, sinto que muita coisa mudou na minha rua. A “vó” e o “vô” partiram há muito. Os rapazes da rua cresceram. Grande parte deles deixou de dar notícias. Muitos desceram à droga e ao álcool. Alguns conseguiram subir e fugir de lá. Outros continuam a envelhecer décadas a cada dia que passa. Um ou outro morreu. Uns quantos vieram de longe, ou de perto, mas esses não jogam à bola.

A Rua de Gomes Leal está uma velha doente. Cansada e barbaramente abandonada há décadas numa cama de hospital. Como tantas outras irmãs da zona oriental da cidade, foi varrida para debaixo de um daqueles tapetes de alcatrão que transformaram as jovens primas da Boavista – bonitas, ricas e casadoiras – em pistas de automóveis para VIP encantar.

De quatro em quatro anos, a minha rua lá recebe as visitas do costume. Caravanas de mágicos em campanha eleitoral, mestres da ilusão com promessas escondidas na manga, saltimbancos histriónicos, larápios de votos sem vergonha de regressar nas eleições seguintes para repetir tudo de novo.

À volta da Rua de Gomes Leal o tempo parou. A vegetação selvagem cresce livremente. Ruínas de casas e fábricas amontoam-se. Lixo de outras paragens é ilegalmente despejado, entre pneus que se queimam e promessas que se adiam eternamente.

Aos meus olhos (aos nossos olhos?) a cidade nasce todos os dias na minha rua. O Porto que eu adoro tem o seu berço na rua de cada um de nós. E é por isso que não há rua mais importante do que aquela que nos trata por “menino”.

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.