26 Nov 2012, 15:06

Texto de

Opinião

Os subúrbios

O carro foi comprado a crédito, tal como a casa e a viagem às Maldivas. Porque não podiam ficar mal perante os vizinhos.

Os meus subúrbios – este espaço público com vida emprestada pela cidade no horizonte – não são os mesmos que Win Butler e companheiros (desen)cantam no álbum de 2010 dos Arcade Fire. Mas podiam ser. Estes subúrbios de que me apoderei para este texto de forma ainda mais subtil do que os Estados Unidos colonizaram 2 terços do mundo.

Se Portugal fosse um colosso nas vizinhanças do Pólo Norte, mastigando o ar fresco dos glaciares sobreviventes como Halls em domingos de Inverno, talvez estes subúrbios pudessem ser os da banda de Montreal. Por cá não se revezam o francês reivindicativo e o inglês conformado. De facto, se em termos linguísticos o máximo que se pode esperar destes subúrbios é um twist de sotaque, em relação aos temas, nem isso se espera. Por isso não vou falar da crise. Vou falar antes dos que falam dela.

Na padaria – tipicamente suburbana – onde me encontrei, hoje de manhã, com o mundo que se passeia como quem corre de e para o trabalho, a paisagem é a da monotonia, da modorra queirosiana. Os próprios croissants observam sonolentos, com ar de quem já não é fresco para assar. Na verdade, nunca foram. Frescos para cozer, sim, não para assar, isso é com os frangos.

Um cão de 3 patas parece ler o menu do dia colado ao vidro desta montra onde somos todos manequins. Parece. Não lê nem finge ler, que os cães são genuínos, não tentam disfarçar as intenções. O cão tem fome e quer festas. Nos meus subúrbios, há cães abandonados. E nos teus, Win?

O senhor que se levanta para (cor)responder ao apelo do cão destapa-me a vista e concentra-me as atenções no casal de meia idade que se entretém com um galão – para ele, – uma meia de leite – para ela – e meia torrada para partilhar. Olham sombrios a estrada que passa lá fora como um riacho calmo. Ele pega no jornal desportivo – também se leem jornais desportivos nos teus subúrbios, Win? – e vê as figurinhas. Ela entretém-se a ver funcionários públicos a fazer ginástica e a encher os bolsos na Praça da Alegria. Há que respeitar a agenda do dia. Portanto, começam a falar – frases soltas – da dita cuja.

– Há tanta gente com fome, Artur.

– Pois há. Deus os ajude.

– Mas também há muita gente a fazer-se passar por pobre.

– Sempre houve, Maria Adelaide, sempre houve. É uma cambada de preguiçosos.

– A gente tem mesmo que poupar, que isto está muito mal. Olha, já pagaste ao Rogério?

– Ele espera. Ele sabe que as coisas estão difíceis.

A conversa continua. Oca e portanto desinteressante para ser transcrita palavra por palavra. Como as conversas dos subúrbios de Montreal, Xangai, Basileia e Buenos Aires. Queixam-se da sorte, dizem mal do governo, criticam o conformismo, visto daqui, do confortável canudo suburbano. Depois levantam-se, deixam metade da meia torrada, ignoram o cão que não lhes pede mais do que um afago, e dirigem-se ao BMW estacionado à porta.

Daqui em diante é especulação. O carro foi comprado a crédito, tal como a casa e a viagem às Maldivas. Porque não podiam ficar mal perante os vizinhos. O Rogério, que vive na cidade, espera que lhe paguem. Que remédio. É a crise (ups).

Carlos Luís Ramalhão escreve segundo o novo acordo ortográfico

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