8 Nov 2012, 14:32

Texto de

Opinião

O que os meus olhos viram

Nos últimos tempos, os meus olhos viram muito. Provavelmente não mais do que o habitual. Ainda assim, percorreram o espetro colorido do dia-a-dia tantas vezes quantos os períodos de 24 horas por que passaram.

Nos últimos tempos, os meus olhos viram muito. Provavelmente não mais do que o habitual. Ainda assim, percorreram o espetro colorido do dia-a-dia tantas vezes quantos os períodos de 24 horas por que passaram. Isto apesar de, como escreve o Gonçalo M. Tavares, a noite não ser “uma coisa que acontece ao mundo”, mas sim “uma coisa que acontece aos olhos”. Mesmo assim, na escuridão absurda, há sempre uma ou outra nuvem no meu campo de visão, como o negativo de uma explosão.

Nos tempos anteriores aos últimos, habituei-me a ver associada a palavra “corrupção” ao seu mundo próprio, a bem da coerência: políticos, empresários, dirigentes de futebol, etc..

Nos últimos tempos, passei a associá-la também a manifestações. Os meus olhos viram ser violentamente corrompida a noção de liberdade de expressão. Vi o aproveitamento desonesto de um direito inato em proveito da arruaça, do vandalismo e de ideais cuja legitimidade já devia ter sido queimada e as suas cinzas destruídas.

Vi, em frente ao parlamento, misturando-se com pessoas honestas, um bando de pássaros negros saltando fogueiras alimentadas a mobiliário urbano, gritando adolescentemente palavras sem som, apenas ruído, atirando pedras a polícias que são, como eles, cidadãos deste país e que, diga-se, têm tido um comportamento exemplar. Vi imagens de saudações que nem por piada se admitem. Só não vi os rostos cobardes desses pássaros negros.

Nos últimos tempos, vi que a noção de amizade ganhou novos significados, cada vez mais pobres, fracos e insípidos. Publiquei na rede social obrigatória dos dias que passam um apelo ao voto num projeto cinematográfico que desenvolvi com uma amiga. Partilhei o apelo com os meus “amigos”. Destacando como é óbvio aqueles – muitos – que por serem amigos de carne e osso, frente e verso mais do que de perfil, se disponibilizaram de imediato para ajudar, não posso deixar de registar aqueles que apagaram imediatamente a mensagem ou pura e simplesmente a ignoraram. São meus “amigos”. Mas não são meus amigos.

Nos últimos tempos, os meus olhos viram, tristes, partir 2 amigos. Mesmo que com eles tenha estado poucas vezes. A minha amizade por eles, tão diferente de um perfil virtual num monitor frio e distante, alimentava-se das suas vidas, das suas letras e ideias, tentando sorver a sua sabedoria como uma bebida energética cujo benefício permanece e não traz efeitos secundários.

Estive 3 vezes com o – acima de tudo poeta – Manuel António Pina. Uniam-nos as ideias, o amor aos livros e aos animais. A última vez que o vi foi precisamente num evento organizado pelo MIDAS (Movimento Internacional em Defesa dos Animais), onde gentilmente aceitou conversar com os presentes. Recordo-o a sorrir, mesmo quando acedeu a dar uma entrevista a uma colega minha em dia de febre e cansaço. Era assim antes de receber o merecido Prémio Camões. Continuou assim depois disso. Somos todos herdeiros de uma obra inspiradora e genuína.

Genuíno era também Manuel Luciano da Silva, o fascinante doutor que da Nova Inglaterra, nos EUA, mostrou ao mundo o poder da dedicação. A pedra de Dighton, um rochedo na água, ficou órfã. A ela dedicou Luciano da Silva mais de 40 anos da sua vida, estudando e celebrizando os cortes subtis na rocha, prováveis vestígios de uma passagem madrugadora dos portugueses por aquela parte do mundo. Sempre de gorro na cabeça, defendeu Colombo como nosso compatriota. Perdemos um embaixador. Passei com ele o meu 27º aniversário, comendo pizza e falando das suas paixões.

Eis o que os meus olhos viram nos últimos tempos. Coisas que passam e outras que ficam, como um filme a que se assiste por dentro.

Carlos Luís Ramalhão escreve segundo o novo acordo ortográfico

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