17 Set 2012, 16:38

Texto de

Opinião

O futuro do amanhã

O hipermercado, que um dia foi gigante de barriga cheia, parece agora um prisioneiro do passado.

"Le Petit Parisien", Willy Ronis, 1952

"Le Petit Parisien", Willy Ronis, 1952

Lá vai ele, percorrendo em passadas castiças a ampla avenida que vai ter ao talho, ainda ressacada das férias que se refletem – demasiado – no pouco trânsito. No hipermercado que um dia foi a alegria do povo, com direito a festa na abertura, com sorteios chorudos por altura dos aniversários, lugar de ajuntamentos em dia de promoções e substituto de jardim para passeios dominicais.

O miúdo, com o brinquedo debaixo do braço, circula à vontade, seguro e não formado, ignorando os produtos que derretem ao sol de néon, o prenúncio do que já se diz: o hipermercado vai fechar.

O miúdo, na convicção de quem ainda não pensa, apenas sonha, carrega debaixo do braço aquilo que verdadeiramente conta, a razão para estar ali ou em qualquer outro lado. Remete-me irremediavelmente para uma célebre fotografia de Willy Ronis. O “Petit parisien” (1952), conhecido por muitos como o “miúdo da baguete”, é uma daquelas inúmeras provas de que as melhores fotografias são fruto do quotidiano.

Na imagem a preto e branco, uma criança, transportando alegremente uma baguete debaixo do braço, suspende a correria através do feitiço da lente. À semelhança de muitas outras histórias de Paris contadas em fotografia – muitas delas de Robert Doisneau, o homem que capturou o beijo de um casal à porta de um hotel mas também Pablo Picasso com mãos de pão – esta imagem tornou-se um símbolo, particularmente se tivermos em conta a sua data, na ressaca do pós-guerra, numa cidade vítima da ira dos homens.

Seria fácil especular acerca dos objetos que os 2 miúdos carregam: terá o brinquedo da criança no hipermercado o mesmo peso que o pão nas mãos do pequeno parisiense? Não vale a pena ir por aí, é proibido especular acerca das intenções infantis. Espera-se que as suas cabecinhas pequenas ainda não tenham sido corrompidas pelos vapores corrosivos dos mais crescidos. Espera-se. Porque longe de querer demonizar a televisão e a internet, especialmente, a verdade é que a sua influência nas preferências, gostos e desejos dos mais pequenos faz-se notar cada vez mais cedo.

Mas a imagem presente é o apelo da inocência daquele homenzinho em tamanho pequeno, a segurança do seu caminhar – uma novidade ainda, de certa forma – e a concentração de vida num ser minúsculo em contraste com a melancolia de uma gigantesca superfície comercial ameaçada pela sua própria ganância, espelhada na quantidade de gigantescas superfícies comerciais por todo o país.

Diz-se que as crianças são o futuro do amanhã. Uma frase estranha, porque sempre pensei que elas eram o amanhã. Que entretanto se vai tornando urgente. Pelo contrário, o hipermercado, que um dia foi gigante de barriga cheia, parece agora um prisioneiro do passado.

Carlos Luís Ramalhão escreve segundo o novo acordo ortográfico

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.