20 Out 2012, 13:55

Texto de

Opinião

A inundação

Na minha mente, imagens soltas da Ribeira, no Porto, lá para baixo, no meu país. Marcas nos muros e nas paredes, indicando recordes antigos.

Lembro-me com nitidez do caminho até ao pequeno café da beira-rio. De ouvidos postos nos auscultadores, a música ditava o ritmo dos meus passos. Confiava na aleatoriedade dos sons para regular a pressa. Num dia de azar podia ter de correr. Num dia de ainda mais azar podia não sair do sítio.

Esperava passar pelo velhinho na sua nave espacial, o acenar ligeiro do seu boné no momento de nos encontrarmos. Esperava encontrar a senhora da bilheteira do velho cinema, uma antiga cantora convertida em ama voluntária do espaço vetusto. Outra senhora vendia gelados no intervalo dos filmes. Mas a essa eu não contava encontrar.

Ao chegar à beira-rio, descendo até às suas margens sonolentas, à esquerda da ponte, esperava encontrar 2 ou 3 pescadores de conversa, um ou outro amante da literatura embalada pela corrente, os caiaques e os barcos a remos aguardando braços sedentos de exercício, a adolescente bonita que os guarda e os limpa de vez em quando…

Da multidão que povoava as minhas esperanças, encontrei apenas os barcos, os únicos capazes de sobreviver na devastação de uma manhã ressacada de chuva. Não dei por ela batendo nos vidros da minha janela, talvez a tenha confundido com as palmas de um teatro no fim de uma apresentação bem-sucedida. Não contava que os bancos tivessem os pés nus dentro de água. Que o pequeno rio tivesse crescido tanto na escuridão. Os próprios patos pareciam perdidos no meio de tanto líquido, não sabendo se, depois de mergulhar as cabeças engraçadas, não se arriscariam a voltar à superfície e não reconhecer o espaço circundante.

Da ponte, alguns curiosos de boca aberta tiravam fotografias ao cenário moderadamente dantesco. Era apenas água quase parada. Não havia ondas nem maremotos nem tubarões que levantassem os olhos ao Roy Scheider no filme do Spielberg. A água em excesso não nos chegava aos joelhos, a não ser que nos aventurássemos num improviso de hidroginástica.

Na minha mente, imagens soltas da Ribeira, no Porto, lá para baixo, no meu país. Marcas nos muros e nas paredes, indicando recordes antigos. O cheiro húmido das ameaças de inundação em invernos repetitivos. A tentação de puxar de um maço de metáforas e atirá-las como barro à parede, para apimentar o dia com piadas sobre o estado a que o país chegou.

Ali, naquele tempo e naquele sítio, ainda não se falava a sério do estado a que aquele país chegara, quanto mais do meu Portugal dos pequeninos, entregue à bicharada dos grandes. Por ali, lia-se nos jornais que a Grécia é que as vai pagar, mesmo que não haja dinheiro. Que o Jimmy Savile, que parecia uma personagem excêntrica de uma britcom, afinal era uma personalidade real de uma história de terror. Há-de chegar ao cinema esta história.

Entrando pela porta das traseiras, cheguei ao pequeno café ribeirinho, onde a empregada, que já sabia de cor o meu pedido, me pediu que me sentasse noutra mesa. A do costume tinha sido vítima da inundação.

Carlos Luís Ramalhão escreve segundo o novo acordo ortográfico

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