4 Jun 2011, 14:22

Texto de

Opinião

Galamba, a obra da rua e a cidade segregada

Morreu Carlos Galamba – padre Carlos, para os muitos que o conheceram. Deixou para trás uma provável carreira de engenheiro para seguir o exemplo de entrega de Pai Américo nas Casas do Gaiato.

“Veio há dias uma carta oficial, a bem da Nação, a perguntar qual o número de internados no asilo. Aqui não há internados. Aqui há a cidade livre.”

Padre Américo, “Páginas Escolhidas”

Morreu Carlos Galamba – padre Carlos, para os muitos que o conheceram. Sexta-feira Santa, pormenor que só interessa aos que não acreditam em coincidências. Passará despercebido, porque o que foi e o que fez não está na moda.

Por que o evoco? Estive consigo pela primeira vez no final dos anos 80, na Ribeira, que conhecia por dentro desde os tempos em que era a maior concentração de pobreza e miséria do Porto. Levou-me casas adentro – “então, sr. Padre Carlos?”.

Eram os simples os que melhor o conheciam. Apresentou-me aí, uma tarde, Diocleciano Monteiro e bebemos os 3 uma cerveja no muro que serve de mirante à sede do C.F. Ribeirenses. Defronte do rio, onde o Duque – assim ficou Diocleciano para a posteridade – ensinou gerações de miúdos a nadar.

Fui-me cruzando com padre Carlos depois em várias ocasiões, normalmente em eventos ligados à proteção da infância. Estive com ele pela última vez na Biblioteca Almeida Garrett em Outubro de 2008, numa bela cerimónia em que Eunice Muñoz e João Carvalho deram voz a algumas passagens de “Páginas Escolhidas”.

Esta obra, organizada por padre Carlos e pelo editor José da Cruz Santos, reúne escritos de padre Américo em que doutrina e retrato social dum país castigado pela desigualdade, pela injustiça e pela pobreza de meados do século XX são expostos com uma clareza e uma profundidade raras.

Tive o privilégio de conhecer a figura e a obra de padre Américo através do testemunho entusiasmado de padre Carlos. Raros momentos esses, aqueles em que contactamos com acontecimentos da nossa história coletiva pela viva voz de quem os viveu: a criação, nos anos 40, da Obra da Rua, com as Casas do Gaiato como lares para as crianças que os não tinham ou que só conheciam a rua e a míngua como formas de vida.

O Gaiato tornou-se uma referência, tanto no interior da ação social da Igreja Católica como na sociedade. Pai Américo – como lhe chamavam os miúdos do Gaiato – morreria brutalmente de acidente de viação em 1956, era padre Carlos um recém-chegado à Obra da Rua, deixada para trás uma provável carreira de engenheiro, curso em que se formara, para seguir o exemplo de entrega de Pai Américo.

E seguiu. Na singeleza, no rigor das ideias, na exigência da fé, na crença de que a caridade e a compaixão, no sentido etimológico do termo, transformam as pessoas – as que dão e as que recebem. E podem, assim, ser semente num mundo entretido com egoísmos e protagonismos.

A Obra da Rua nasceu para as crianças, mas o que a impeliu foi o quadro de miséria que marcava a vida dum sem-número delas num país que se preocupava em esconder pedintes e vagabundos em albergues e asilos, mas que não dava mostras de sensibilidade perante a fome ou a impossibilidade da escola que marcava para sempre a vida de inúmeras crianças.

Pois bem: aquilo que marca hoje a pobreza não é já a fome mais ou menos generalizada, não são as doenças contagiosas à solta ou a impossibilidade de acesso a cuidados hospitalares ou à educação. Mas a cidade dualizada, a que tem a um lado as elites e as classes médias e a outro os “grupos em exclusão social”, como agora se diz no refrão sociopolítico, tem vindo a aprofundar as suas clivagens.

Deixaremos por agora de lado as razões para o crescimento das desigualdades, para a proliferação da errância e da marginalidade; deixaremos também por agora a dessolidarização, que é a consequência da indiferença e da “invizibilização” a que submetemos os que são vistos como “problema social”.

E chamaremos a atenção para o modo como a resposta à dualização da cidade tem sido tímida: porque o Estado Social agora é visto como despesa; porque os pobres (que são cada vez mais idosos isolados e com pensões baixas, desempregados de longa duração, migrantes que são mão de obra flutuante e descartável, filhos dos antigos operários que já não encontram lugar nem na produção fabril nem na escola e são ditos “juventude problemática”), porque os pobres, dizíamos, foram convertidos em estatísticas que pesam no controle do défice; porque uma boa parte do discurso político reduz o problema a uma espécie de culpa dos próprios, que “não querem trabalhar” e são “parasitas do Estado social”; porque as respostas assistenciais das instâncias oficiais são tantas vezes burocratizadas e sem rosto.

É por tudo isto que custa ainda mais a morte de Carlos Galamba – porque, à míngua de justiça exercida pelos poderes, desde os que controlam a alta finança internacional à nossa política de trazer por casa, é na capacidade de organização da sociedade civil que reside a esperança de muitos dos que precisam.

A política convencional anda cansada e cansa-nos. Precisamos da vocação e da vontade, da crença em ideais e da entrega: venha ela da Igreja Católica, venha doutros credos, venha dos leigos e republicanos, mesmo dos monárquicos, dos anarquistas, da geração à rasca ou doutros especímenes que acreditem que a economia é feita para servir as pessoas e não as pessoas para servir a finança.

Luís Fernandes escreve de acordo com o novo Acordo Ortográfico

  1. Simão says:

    Na minha opinião, esta crónica é redigida em estilo de Ensaio, partindo de uma realidade concreta – a morte do Padre Carlos – para nos remeter a uma reflexão sobre os mecanismos macrossociais que, na atualidade, se vão exercendo no sentido da criação de pobreza, miséria e de marginalidade com que o Padre Carlos e o Pai Américo tanto se batiam no inicio do século XX. Corajosos estes padres que se atreviam a desafiar a Ordem instalada pela ditadura salazarista…
    É com pertinência e premência que se surge esta crónica. Além da lamentável morte dos “Padres da Rua” dos inícios do século XX também os “Técnicos da Rua” da atualidade vêm cada vez mais os seus esforços esbarrarem com modificações no tecido político-social que, através de um paternalismo assistencialista, procuram solucionar os problemas da “cidade dualizada” com que se deparava o Padre Carlos – e de que fala na sua crónica – através de “Pacotes” de Intervenção desenhados e criados sem a participação e a mobilização das “populações excluídas”. Assentes no tradicional redistribucionismo com vista a inculcar os Valores da Cidade Central, estes “Pacotes” impostos visam tornar a cidade bipolarizada apenas una. E é assim que o nosso Estado resolve o problema da Pobreza: enclausurando-a em Quartos ou Pensões pagas pelo nosso Erário Público quando a Resposta ao problema já existe na Sociedade Civil, silenciando simultaneamente a errância e invizibilizando-a aos olhares comuns.
    Termina a sua crónica de um modo lapidar, objectivo e mordaz: a Economia que cada vez mais está aos serviços das entidades do capitalismo financeiro (que nunca ninguém sabe quem são nem quantos são). Esta “financeirização da economia” tem como consequência os cortes nas “gorduras” dos Estados e nas “gorduras” dos Cidadãos, como se desse corte o País e os cidadãos beneficiassem. E é aqui que a Obra do Padre Américo ainda está por fazer apesar dos tempos serem outros. O capitalismo financeiro na altura do Padre Américo ainda não tinha a expressão que tem hoje no Mundo. Mas a Pobreza e a Exclusão continuam, como se fossem duas realidades paralelas, enquanto o olhar sobre a marginalidade se tem agudizado e acentuado.

Opinião

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