18 Jul 2011, 15:09

Texto de

Opinião

Breves reflexões sobre lixo

As agências de rating classificam o próprio resultado que produzem. Se algum de nós fizesse isso na vida corrente era olhado como ignorante.

Tinha planeado escrever um conjunto de crónicas sobre religião. Não me debruço sobre o tema desde os tempos da catequese, mas esteve sempre em agenda e só agora senti realmente o sino da vocação repicar por todo o meu ser. Foi assim que soube que tinha de ser, e por isso as minhas primeiras crónicas foram de facto sobre religião. Mas eis que tenho de adiar mais umas semanas a urgência vocacional, pois o tema das agências de rating não me larga. De tal modo se tem instalado que ameaça destronar a minha reencontrada tendência, suspensa desde a segunda infância, para me aconchegar aos temas espirituais. Já gasto quase integralmente metade do meu quotidiano a não sucumbir aos impostos, agora tenho de somar a isso o esforço de compreender o que são as tais agências. Que tempo me sobra? Vejo já a minha relação conjugal ameaçada – exatamente  como nos primeiros tempos da toxicodependência que me acometeu quando fiquei agarrado, primeiro ao Tetris, e depois  às salas de chats na net. Portanto, aí vai – aí vai o meu grito, lançado ao mundo: “I’ll send an SOS to the world”, para citar os Polícias.

Há poucos dias, alojei neste mesmo espaço a crónica “Portugal vai fechar?“, um grito de revolta em que condenava com veemência as tais agências. Eu sei que parecia que estava a gozar, mas é esse o estado em que fico quando uma coisa me irrita muito. E continuo irritado: agora não por causa delas, mas por dois outros motivos. Primeiro: quase ninguém comentou, mostrando o quanto o problema português é o da inércia. Segundo: nenhum economista sentiu, depois dos disparates que escrevi, necessidade de vir realmente explicar o que são as tais agências e que papel fundamental têm hoje no (dês)equilíbrio do capital, do mundo em geral e do meu espírito em particular. Sim, somos uns canastrões (uso aqui o plural de modéstia); sim, somos uns sentados, gostamos de apanhar no corpo, merecemos levar com agências de rating na cabeça e no acrómio da omoplata. Sim, somos fracos, mais fracos que o fraco, mais moles que o mole, mais descaídos do que o ombro quando a cabeça do úmero desenculatra da cavidade glenóide da escápula (continuo no plural de modéstia).

Enquanto aguardo que os entendidos façam luz nisto, retirando povo como eu da nebulosa confusional em que o economês nos lançou, quero partilhar um desabafo. Há muitos anos, ao estudar para uns exames já não me lembro de quê, fiquei fascinado com o facto de a causalidade poder ser circular. Podia explicar aqui o que vem isso a ser, para evitar confusões com a segunda circular. Mas sei que os que me lêem sabem o que é a causalidade circular, outros sabem pelo menos o que é a segunda circular e por isso vamos ao que interessa: as agências de rating classificam-nos como lixo, no dia seguinte a bolsa acorda um lixo (a nossa bolsa, essa,  já era lixo na véspera), na semana seguinte o juro que pagamos ao colocar dívida pública é um susto, o Governo assusta-se e carrega mais nas medidas de austeridade, o consumo desacelera, a competitividade desacelera, o desemprego acelera, o pessoal descrê e desespera. E então vem outra agência de rating e zás!, diz que estamos ainda mais lixo, no dia seguinte a bolsa acorda ainda mais lixo e assim sucessivamente. Em suma, as agências de rating classificam o próprio resultado que produzem. Se algum de nós fizesse isso na vida corrente era olhado como ignorante. Por exemplo, dizer ao filho que é lixo, pôr no jornal da escola que ele é lixo, os colegas gritarem que ele é um saco de legumes estragados, os professores olharem desconfiados para o aluno que vem no jornal, vem então o dia do teste e o miúdo tira negativa e nós dizemos-lhe estás a ver como és lixo? E vai nova notícia para o jornal da escola, e o miúdo ainda acredita que não é e estuda afanosamente para o teste seguinte, os colegas dizem-lhe não passas dum saco de beterrabas podres, e… Detenho-me, estou com pena do miúdo. Se fosse eu que mandasse, acabava com as agências de rating e com os restaurantes vegetarianos.

Luís Fernandes escreve de acordo com o novo Acordo Ortográfico

  1. Simão says:

    Concordo plenamente consigo sobre a necessidade de acabar com as agências de rating. Não porque tenha medo da especulação, ou não fosse ela um ato intrinsecamente humano: ora especulamos sobre se vale a pena investirmos numa dada atividade no nosso trabalho quando temos a certeza que o chefe nem vai olhar para nós, ora especulamos se vale a pena ver um jogo de futebol quando a nossa equipa está que nem se aguenta das canetas. No entanto, a sua crónica demonstra bem as consequências nefastas da especulação exagerada e na causalidade circular que lhe está inerente.
    O que assistimos hoje na Europa, e que tem como causa e consequência a Crise das Dívidas, reside num emaranhado de conceitos e chavões propagandeados por um regime subtil e dos mais opressivos da História: o neo-liberalismo.
    Na minha opinião, a ascenção do neo-liberalismo tornou os mecanismos de opressão subtis e difusos contribuindo para a sua amplificação e agudização. Essas agências de rating são desconhecidas. Sabemos que é a Moody’s, a Standard & Poors, a Fitch entre outras, mas os seus nomes atravessam um anonimato profundo, traduzidas no desconhecimento e alheamento do cidadão comum relativamente à sua estrutura e funcionamento.
    E é por isto que me filio no grupo daqueles que consideram que o problema da Europa é um problema de perda de soberania política. E não adianta reuniões dos diferentes chefes de Estado, não adianta baixarem os juros e alargarem o prazo de pagamento das dívidas dos países periféricos. E quando as potências europeias, desejosas, por um lado, de agradarem aos mercados e, por outro, de impedirem a propagação da crise para outras economias, promovem injecções de Capital, sou tentado a chamar ao terreno dos vivos o nosso José Saramago quando se interrogava sobre a origem deste dinheiro todo que agora é utilizado para ajudar Bancos e Países com medo dos Mercados e que nunca foi utilizado para o combate à pobreza e à fome no Mundo.

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