9 Nov 2012, 12:33

Texto de

Opinião

Aqui não há bifes

Proponho que nas campanhas do Banco Alimentar não se aceitem as contribuições de quem ofereça bifes porque já não há disso em Portugal.

“Aqui não há bifes”. Era isto que nos diziam na escola, que dizemos nos encontros com os amigos e nas conversas correntes do senso comum quando estamos a abusar nos limites da confiança, quando estamos a ultrapassar a barreira do abuso, do respeito, da integridade de alguém. “Ele vem com isto e com aquilo?! Aqui não há bifes”. É com isto que levamos a todo o tempo nas expressões do senso comum quando estamos a “passar as marcas”, levando-nos a compreender os limites com essa pessoa.

Esta expressão do “não há bifes” conhece nos tempos de hoje formas mutantes em relação ao seu sentido ancestral. E a mãe dessa forma mutante, que evoca o intrínseco sentido de não haver mesmo bifes, é a presidente do Banco Alimentar contra a Fome, a drª Isabel Jonet.

Acordei hoje com a notícia das recentes declarações desta economista onde afirma, entre outras coisas, que os portugueses continuam consumistas (ignorando, por exemplo, os números divulgados ontem nos meios de comunicação social de que o consumo das família portuguesas para o Natal deste ano desceu relativamente ao ano transato), quase que afirma que a miséria em Portugal não existe (ela afirmaria mesmo uma coisa destas?!) e que se não existirem bifes, não se pode comer bifes.

Tais conclusões e opiniões convocam-me pensamentos de uma determinada forma antiga de consideração da pobreza (será tão ancestral assim?), traduzida nos relatos da minha avó, de um certo tempo onde nos era vedada, enquanto povo, a possibilidade de sonharmos com um mundo melhor, isto é, entenda-se, um mundo com bifes para todos.

Esse tempo não foi longínquo, durou cerca de 40 anos em Portugal, tendo como término o 25 de Abril de 1974. Esta data deveria permitir-nos sonhar com muitos e muitos bifes nas mesas portuguesas. Ainda permanecem, contudo, estas declarações que me levam a crer que o tempo funciona muitas vezes de forma independente das mentalidades, estas sim, bem estáticas e pouco dinâmicas, que esganam o sonho e trituram a dignidade.

Mas não esqueçamos que “não há bifes”. Proponho que nas campanhas do Banco Alimentar contra a Fome nas redes de hipermercados distribuídas pelo país não se aceitem as contribuições das pessoas que ofereçam bifes a esta instituição, porque já não há disso em Portugal. E, claro, que bifes não são para todos, e existem pessoas que não podem ousar comer um bife.

“Temos que viver de acordo com as nossas possibilidades” – frase dita pela drª Isabel Jonet – e como as nossas possibilidades não são muitas, não se comprem bifes, nem carne em geral, nem cadeiras para nos sentarmos, nem canetas para escrevermos, nem livros para lermos, nem luzes para nos movimentarmos de noite em casa, nem tachos para cozinharmos, nem sapatos para calçarmos, nem roupa para vestirmos, nem água para bebermos.

Só tenho medo que, com tudo isto, venha mais algum filantropo e nos diga que se não existir algum dia oxigénio que tenhamos que aprender a respirar com dióxido de carbono. É que viver sem bifes acho que até sou capaz de conseguir, sem oxigénio é que acho que não. Acho que me passava mesmo ou, como se diz correntemente, “aqui não há bifes!”.

Simão Mata é psicólogo e escreve segundo o novo acordo ortográfico. O texto foi enviado para a Opinião Porto24. Pode enviar também os seus artigos.

  1. Sara says:

    Gostei muito, concordo plenamente.

    Vamos a ver o que o futuro nos reserva, espero que com muitos bifes, carne de porco à alentejana e muitas outras iguarias tão ricas de portugal que essa senhora não conhece a riquesa da rua história.

    Tenho pena de quem nos comanda, e nos “alimenta” não conheça as reais necessidades da população que pretende ajudar. E é da boca de quem trabalha em intituições que eu ouço o bom trabalho do banco alimentar mas também as burradas inormes que eles fazer. E eu acrito que é por não saberem o que se passa, estão lá nos poleiros a comer caviar e dão a quem não tem dinheiro para a luz fajão cru!

    Enfim… Minha senhora informe-se!

    P.S: E deixo aqui o meu comentário uma vez que este espaço existe e se este texto aqui está publicado aqui que eu tenho do o comentar e não outra rede social.

  2. Maria Manuela says:

    Há 10.000 crianças (por agora), sinalizadas nas escolas, como passando FOME. Estas crianças são iguais aos filhos da Drª Isabel Jonet, só que os pais, não têm comida para lhes dar. Não desperdiçam água a lavar os dentes porque provavelmente já nem água há em casa e muito menos escova de dentes… É a triste realidade da austeridade e da miséria em que o país se encontra. A Drª foi condecorada e… rendeu-se. É pena!

  3. Cristina says:

    Eu estava a ler essa e a achá-la um pouco infeliz!!!acho um escândalo o valor que deram às declarações da Sra. … que foram palavras infelizes, algumas foram mas muito retiradas no contexto e sem perceber as muitas horas que ela dedica pro bono à causa do banco alimentar e as campanhas que crescem de ano para ano com a orinetação dela!!!

    ‘..um mundo melhor, isto é, entenda-se, um mundo com bifes para todos…’ se eu tirar isto do contexto — um mundo melhor com um brutalíssimo consumo de outros animais é melhor!?!?

    Eu até acho que todos deveríamos diminuir o consumo dos ‘bifes’ e preservar mais o nosso corpo, a nossa carteira e o nosso ambiente!!!pois a produção animal responsável por uma fatia demasiado grande no consumo dos recursos naturais no mundo!!!

    Mas quando ouvi repetidamente as sanções às declarações da Sra. chocou-me muito!!!havia notícias a por em causa o banco alimentar que alimenta imensa gente em portugal

    e até gostava de perceber como alguém acha que esta frase não tem sentido!!!porque o banco alimentar actualmente não alimenta só os pobres mas os novos pobres que já foram bem ricos e não se souberam governar!!!«“Temos que viver de acordo com as nossas possibilidades” – frase dita pela drª Isabel Jonet»

    E não quero com isto colocar qualquer fundo discriminatório mas acho que mais infelizes que a forma de expressão da Sra. é as pessoas acharem que não têm de fazer sacrifícios e que haverá sempre alguém que as sustente!!!

    Que Deus nos ilumine a todos para termos sempre a capacidade de nos ajudar uns aos outros mas ajudar não é culpar quem tenta fazer boas obras!!!e eu já fiz campanhas do banco alimentar cerca de 9 anos (nos escuteiros) … sei que há muito boa gente até a precisar, que olhava para o carrinho remediado que levavam para se alimentar, mas ainda assim sempre contribuíram com o melhor que conseguiam!!!

    Humilhar a imagem da sra só por declarações infelizes e não saudar o trabalho dela até então parece muito pouco solidário!!!

    E hás-de colocar também que o banco alimentar não aceita géneros alimentares deterioráveis como carne fresca ou outros produtos frescas…uma super gralha nesse artigo!!!

    A Sra. foi infeliz a expressar-se mas é um atentado colocar em causa um trabalho tão condigno como ela tem desenvolvido!!!tenho a certeza que ela será a primeira pessoa a demitir-se quando achar que não está a ser útil ou a fazer um bom trabalho!!!

  4. José Nogueira says:

    Pois é…quando se mete Deus ao barulho, é um sarilho! Voltar ao tempo da caridadezinha? Não, obrigado! Temos é que construir uma sociedade sem opressores nem oprimidos, com trabalho, pão, educação, saúde, alimentação e habitação para todos… Sounds familiar? Sociedade de Consumo? Desperdício? Também não! Com dignidade, repeito, solidariedade, isso sim. Depende de quem? vamos saber av resposta nos próximos tempos…

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