5 Dez 2011, 12:53

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Opinião

Beleza e melancolia: o que conta no centro histórico do Porto

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Um primeiro olhar leva-nos a retomar uma antinomia muito modernista: por um lado, é inelutável a sua beleza; por outro, são indiscutíveis o abandono e a degradação

Habitante do centro histórico do Porto

Foto: Filipa Rodrigues

Um primeiro olhar para o centro histórico do Porto leva-nos a retomar uma antinomia muito modernista: por um lado, é inelutável a sua beleza concretizada no casario, nas ruelas, nos pequenos pormenores de gente e paisagem que nos fazem apaixonar por ele sempre que o vemos e percorremos; por outro, são indiscutíveis o abandono imobiliário, a degradação do edificado, o lixo pelas ruas, os semblantes de desespero de algumas mulheres e as posturas de abandono de outros tantos idosos.

Num segundo olhar, podemos também perceber que existem poucos casos como o do centro histórico em que foram ensaiadas políticas de intervenção e de integração social, tendo em vista a superação desta oposição. No pós-25 de Abril, e seguindo um impulso revolucionário, foi defendida a participação popular e a intervenção social e o “direito à cidade. Assim, e através do CRUARB e das intervenções do SAAL, pugnou-se pela defesa do património edificado, da história e das identidades locais.

Na década de 1990, viveu-se o dilema da “museificação” vs. reconversão urbanística (precisamente na altura da sua classificação como Património Mundial da Humanidade) , assistindo-se a estratégias de patrimonialização e internacionalização que pugnavam pela reconfiguração de imagem da cidade assente na promoção do turismo, da cultura e de grandes eventos.

O novo século inaugurou uma lógica interventiva de urbanismo competitivo assente em grandes projectos de reconversão urbanística, na gentrificação e no turismo, cultura e actividades de elevado valor acrescentado, mobilizados pela Porto Vivo, Sociedade de Reabilitação Urbana.

Mas a antinomia permanece. Afinal o que conta? Detenhamo-nos nos residentes.

Vivenciam contraditoriamente o espaço habitado ainda como território de estigmatização (da droga, da pobreza, do abandono), não obstante valorizem as redes sociais (cada vez mais escassas) de entreajuda com que têm sido capazes de enfrentar as dificuldades materiais e emocionais do quotidiano, não trocando a sua residência por nada deste mundo.

Materializam os estrangulamentos associados às intervenções de tipo curativo, privilegiando a utilidade do desenvolvimento de respostas preventivas no campo do planeamento urbano e das políticas habitacionais, não esquecendo que já se viram muitas vezes obrigados a desagregar o seu universo de vivência quando se viram obrigados a dizer um adeus forçado a muitos familiares e vizinhos e a viver numa espécie de resistência.

Também conta o reconhecimento de diagnósticos da natureza multidimensional, mas defendem a natureza eminentemente sectorial ou com uma ênfase específica em poucos domínios de intervenção, o que se repercutiu numa exígua capacidade de transformação e de reversão dos ciclos de desvantagem destas áreas.

Repercutem-se da falta de diálogo e do deficit de disponibilização de informação básica acerca dos projectos previstos para a transformação da zona e sobre o modo como essa implementação os poderia afectar.

Mostram-se inseguros e incertos face ao futuro questionando a presunção de um consenso alargado nas comunidades acerca das suas principais prioridades.

Enfim, reclamam a persistência de vários preconceitos e estereótipos e assumem a importância da diversidade social e cultural que caracteriza esta zona, teimam (com cada vez menos forças) em não ser um mero objecto ou número. É aqui que reside o cerne da antinomia, mas também o código para a sua resolução.

Opinião

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