3 Dez 2011, 19:46

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Opinião

Bankrut

Foi com ela, com aquela cadelinha meiga e grande, de olhos enormes e profundos, que também soube o que é o amor.

A cadelinha de Bankrut

Foto: Ana Cancela

Um dos maiores perigos da Tailândia são os cães.

Desde a urbana capital à aldeia mais recôndita, eles estão lá, donos e senhores das ruas e dos lugares que habitam.

A noção de animal abandonado é inexistente em todo o sudeste asiático, se um cão ou um gato vive na rua, então a rua é a sua casa. A alimentação e a roupa são assegurados pelos moradores. Sim, a roupa (todos os animais ostentam, orgulhosos, casacos, capas, lenços, pulseiras nas patitas; os menos privilegiados usam panos mais modestos).

Foi, por isso, com perplexidade, que escutei de um casal tailandês a afirmação de saberem da existência de um país europeu que “apanha os seus animais e os executam em casas específicas para tal fim”. Perplexa porque não soube o que responder, nem sequer acrescentar que esse mesmo país instaurou recentemente, a nível camarário, uma lei que proíbe alimentar os seus animais errantes.

Na Tailândia, eles estão por todo o lado, nas infinitas estações de comboio, nas avenidas, à porta de casas e de lojas e é precisamente este último caso aquele que constitui o maior perigo tailandês. Bem superior aos de tubarões, os ataques de cães são extremamente frequentes, ataques esses motivados pela pertença e sempre lealdade aos lugares que habitam.

Em Chiang Mai, no norte do país, o meu companheiro comprou, no Night Market, um saco de pano da tailandesa sociedade protectora dos animais e, durante os 1.600 quilómetros restantes, até ao sul, descendo de comboio pelo país abaixo, esse mesmo saco carregado de livros serviu como única arma de arremesso e protecção contra esses mafarricos dentuços.

A meio da viagem, uma paragem em Bankrut, uma isolada e tranquila estância balnear, para longos passeios pela praia fora. O mar azul transparente, o vento suave nas palmeiras nessa doce cadência de ver os seus ramos a sorrir para as ondas e sorrir também apenas por se estar num sítio assim.

Numa certa manhã, saí silenciosa do bangaló e procurei refúgio no silêncio das ondas nessa vã tentativa de esquecer o som das pessoas e dos carros. Levava apenas a roupa no corpo e a minha ousadia de desafiar os peludos habitantes da praia.

O nevoeiro cobria as ondas, o mar mostrava-se irrequieto, cinzento e caminhei lentamente durante horas, até me ter afastado o suficiente para já não ouvir vozes, só eu e a praia deserta. Foi por isso, com um medo paralisante, que parei subitamente na areia ao sentir uma boca quente encostada à minha mão. Parei e esperei. Aguardei 2, 3 segundos que os dentes se cravassem na minha carne, nessa trágica consequência de ter desafiado a minha sorte.

Cinco segundos depois, com uns olhos de eminente abandono que provocou em mim uma enorme surpresa, uma cadelinha lambeu-me.

Talvez fosse o seu olhar suave, ou a confiança que dela irradiava, sei que caminhámos juntas durante horas que me pareceram dias. A luz do Sol forte cegava-nos às duas e, sem água ou comida, ambas começámos a abrandar, exaustas de fugir das ondas mais fortes e das corridas rápidas como modo de fuga dos outros cães. Sempre que uma nova matilha se aproximava, ela colocava-se à minha frente a proteger-me.

Durante os dias seguintes repetimos as caminhadas e foi com lágrimas que me despedi dela. O tuk tuk a afastar-se devagarinho e ela, orgulhosamente nobre, digna e muito atenta, numa altivez que raras vezes encontrei, olhava-me terna na distância que cada vez mais entre nós aumentava.

Foi com ela, com aquela cadelinha meiga e grande, de olhos enormes e profundos, que também soube o que é o amor.

Opinião

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