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Foto: André Soares

20 Abr 2017, 14:05

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Opinião

Autárquicas no Porto: a primeira impressão

A pouco mais de 5 meses, já são conhecidos os 4 principais protagonistas da próxima eleição para os órgãos autárquicos da cidade. Depois de há 4 anos, termos tido uma eleição bastante disputada e com nomes sonantes, desta vez temos menos candidatos: o atual presidente, dois “velhos” conhecidos da esquerda e um estreante em eleições (o candidato do PSD).

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Natural do Porto, formado em Marketing pela Porto Business School é gestor, fotógrafo e viajante. É um dos dinamizadores da plataforma I Love Foz.

Começo por referir aquilo que para mim é a maior surpresa: a falta de figuras de proa do PS e do PSD.

O PS é um partido com uma marca forte na cidade do Porto: o arranque do projeto do metro do Porto, a Porto 2001, a candidatura do Porto património da Humanidade e até o Parque da Cidade como o conhecemos atualmente. Além disso, também é surpreendente como é que um partido responsável por duas pastas chave (Habitação Social e Urbanismo) depois não leve o seu legado a votos de forma autónoma. O PS Porto tem hoje falta de protagonistas e o seu principal homem do leme (Manuel Pizarro), averbou a maior derrota autárquica do PS no concelho do Porto desde 1974.

Se o PS marcou a década de 90, o PSD marcou toda a década seguinte. Todavia escolheu, em 2013, um sucessor que fez um trabalho marcante em Gaia, mas contrastante com o estilo de Rui Rio e daquilo a que o eleitorado do PSD no Porto se foi acostumando. Em 2017, o PSD volta a reposicionar-se agora com um candidato com caraterísticas mais na linha do estilo de Rui Rio. Porém, esse espaço ideológico foi sendo ocupado nos últimos 4 anos por Rui Moreira. A dificuldade deste reposicionamento do PSD é notória sobretudo se tivermos em linha de conta que não houve um fio condutor coerente na atuação dos seus 3 vereadores. Na atual Assembleia Municipal foi muito mais notória a oposição da CDU. Concordando-se ou não com o ideário comunista, o que é facto é teve uma voz crítica e ativa em desacordo com a atual maioria em diversas matérias (ex: concessão do estacionamento, gestão dos bairros sociais, política de rendas, manutenção da via pública, etc…)

E o que esperar dos atuais/putativos candidatos?

A CDU irá certamente capitalizar 3 fatores: A oposição acutilante que fez nos últimos 4 anos, a ausência de uma candidatura socialista (indo chamar a si, o eleitorado de esquerda que não concorda com a suposta subalternização do PS à lista de Rui Moreira) e o carisma/experiência de Ilda Figueiredo como vereadora e deputada. Inclusivamente a candidata já está em ações de rua, o que atesta a organização e empenho dos comunistas nesta batalha eleitoral. Eleger 2 vereadores poderá ser o objetivo da candidatura.

O BE tenta novamente eleger um vereador. Parte com a dificuldade acrescida de não estar representado na vereação. Apesar de ter sido líder do partido, João Semedo não tem a mesma frescura e carisma de Catarina Martins. A estratégia parece passar por tentar alavancar a notoriedade do candidato, para fazer passar as mensagens e disputar o eleitorado de esquerda que não se revê em Rui Moreira. Não obstante, a estratégia é arriscada tanto mais que o candidato ainda se está a restabelecer dos seus problemas de saúde. Terá por isso capacidade para se fazer ouvir e levar por diante uma campanha combativa e enérgica?

O candidato do PSD é a maior das incógnitas. Possui uma notoriedade muito reduzida e terá muito pouco tempo para recuperar essa (enorme) desvantagem. O cartão de visita de Álvaro Almeida é o seu curriculum profissional, querendo agora colocar-se novamente ao serviço da causa pública. Mas terá um verdadeiro ‘caminho das pedras’: terá primeiro de unir as fações de Rio/Menezes, dar-se a conhecer, ‘vender’ a sua credibilidade, posicionar-se como o verdadeiro herdeiro do legado da gestão de Rio e, talvez não menos importante, fazer em meia dúzia de meses aquilo que o PSD (pouco) fez em 4 anos: identificar as diferenças que o separam da governação de Rui Moreira e apontar alternativas.

Finalmente o putativo e mais que esperado recandidato Rui Moreira. Creio que a sua campanha vai se centrar mais nos estados de alma do que na obra feita/promessas futuras, ou seja explicar, em que medida as suas políticas contribuíram para o desenvolvimento da cidade: a pujança do turismo, a atração de empresas como eixo estratégico para melhorar a empregabilidade do concelho, a reabilitação urbana, a municipalização da gestão dos STCP, a coesão social e a política cultural e de animação da cidade.

Tentará certamente defender-se das críticas da oposição sobre a forma como está a ser gerida a concessão dos parquímetros, o alargamento da rede de metro que ficou muito aquém das expectativas, dos preços galopantes do mercado de compra/arrendamento de casa no Porto, do reduzido investimento nos bairros sociais, na gestão/manutenção da via pública e nos problemas crescentes do trânsito e da insegurança de pessoas e bens. E depois temos o caso Selminho: surgirão novos factos? De que forma vão os candidatos abordar o assunto? Será o Presidente capaz de rebater os argumentos de forma clara e inequívoca ou ficarão dúvidas no ar sobre a sua conduta?

Esperemos que esta seja uma campanha que não se circunscreva na discussão da honorabilidade dos candidatos, ou ‘casos’ de justiça, mas sim que se discutam ideias e que se assumam compromissos. É que há muito para fazer no Porto.

Opinião

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