11 Mai 2013, 11:57

Texto de

Opinião

As subtilezas do pensamento único

O direito à língua é o direito à expressão própria, porque a língua não é um mero veículo, é constitutiva do próprio pensamento – e do pensamento próprio.

No início deste ano, no âmbito da minha atividade profissional, enviei para um congresso internacional de antropologia a realizar em Espanha uma proposta de comunicação. Foi aceite – o que não diz grande coisa acerca das minhas qualidades como investigador, é antes  um resultado expectável desde que aceitar comunicações em congressos se tornou uma atividade comercial por parte dos organizadores, traduzindo-se por consequência numa baixa taxa de rejeições das propostas. Os congressos, que eram os lugares da comunicação pública da ciência avançada, têm assim alegremente resvalado para a comunicação do banal, regidos pela mercantilização do produto científico – uns pagam para falar, os outros debitam diplomas para colocar no curriculum de quem fala.

Passado algum tempo, fui informado de que deveria apresentar a comunicação em língua inglesa. Estranhei. Não ia falar em Inglaterra, não ia falar em nenhum país de língua inglesa. Pedi explicações. O comité organizador respondeu-me que, tratando-se dum congresso internacional, era natural que se falasse em inglês. Também achei: era natural, como era natural que se falasse noutras línguas, uma vez que era internacional. Insistiram na tese, que me fez saber portanto que inglês e internacional são uma e a mesma coisa.

Entretanto, um colega catalão que integra o comité científico do congresso fez eco da minha estranheza, ele também incomodado com a obediência a uma ordem de poder por via da língua – a mesma ordem que tem hoje nos primeiros lugares dos rankings  das universidades as do mundo anglosaxónico e dita regras para todo o sistema científico global. O resultado valeu a pena, como pode constatar-se na decisão do comité científico: “Language Flexibility.  We are now giving the Stream Leaders the authority/flexibility to allow a few non-English presentations, if these seem necessary or highly desirable to promote inclusiveness and respect”.

Não é isto uma revolução, não é um bravo feito  que vá contar aos meus netos. É apenas a prova de que não somos meros peões num mundo agido de cima para baixo, de que há espaço para a ação de cada um, de que não temos de ser meros executores abdicando sistematicamente de ser atores.

Voltando à regra que impunha o inglês numa reunião de especialistas em Espanha, fiquei ainda mais surpreendido por saber, por sabermos todos, o quanto a luta pelo direito ao uso das línguas fez parte da reivindicação autonómica de bascos, galegos ou catalães. Tratava-se de afirmar o direito às raízes, à identidade, à diferença. Como fez parte da luta de muitos povos pela libertação em relação aos poderes coloniais. O direito à língua é o direito à expressão própria, porque a língua não é um mero veículo, é constitutiva do próprio pensamento – e do pensamento próprio, vale aqui o jogo de palavras. Não será por acaso que os países com mais força geoestratégica, entre eles as antigas potências coloniais, fazem tanta questão em continuar com as suas línguas espalhadas e vivas pelo mundo – porque  sabem que a língua é instrumento de dominação política

Que nos dizem palavras como racismo ou  feminismo? Contraímos nelas décadas de luta pelo reconhecimento da diferença, da igualdade e dos direitos. São formas de luta contra o pensamento único, que impõe hegemonias a partir de categorias arbitrárias que se tornaram naturais e aceites sem contestação durante muito tempo. Há, porém, formas de pensamento único mais subtis e que não foram ainda suficientemente consciencializadas. Uma delas é a imposição duma língua em relação a todas as outras. Falar exprime pensamento, falar dum modo único exprime pensamento único.

O próprio das hegemonias é o não serem notadas no seu labor de dominação, porque o fazem mais pela sedução do que pela imposição. Hoje não passa pela cabeça do viver democrático pôr em causa a igualdade de raça ou de género. Virá o tempo em que será assim com o falar. Que nós aprendamos e falemos línguas, como modo de descoberta e abertura ao Outro. Mas que o Outro aprenda e fale também as nossas, para falarmos todos de igual para igual.

Luís Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico.

 

 

 

  1. Rafael Tormenta says:

    A importância da Língua materna é exatamente essa em que assentamos o nosso pensamento. E é isso que muitos governantes não percebem, meu caro Luís. Não se trata de “ensinar” as regras da Língua Portuguesa que foram despejadas num manual ou numa gramática por alguém que acha que existe uma norma ou falando de uma forma “mais moderna” em termos linguísticos, mais ou menos “norma”. No ensino regular o que há a fazer é tomar consciência dos discursos da língua que se usa em cada momento: na aula de ciências, na aula de matemática, nas brincadeiras, nas relações amorosas, nas relações secretas, em tudo o que quisermos. É aí que está a Língua Materna. No que por vezes é difícil de traduzir; para inglês ou para outra língua qualquer. No que nem sempre se consegue transmitir numa comunicação tradicional num congresso na Catalunha ou na Conchichina,
    Abraço.

  2. António Alberto Silva says:

    Excelente texto de Luís Fernandes. Obrigado!
    Também gostei do comentário do Rafael Tormenta.
    Saudações amigas.

  3. Xana Sá Pinto says:

    A principal função de um congresso cientifico é que os participantes comuniquem e discutam as suas descobertas e hipóteses. Para isso é necessario que todos se entendam e compreendam.

    Aqui só se falou na expressão da apresentação e não se disse nada sobre a compreensão da mesma por parte dos restantes participantes. Se esta compreensão não existir então não faz qualquer sentido a participação no congresso.
    Um congresso onde todos possam falar a sua língua materna, embora me pareça uma ideia lindíssima, implicará uma de duas coisas:
    – que todos os participantes sejam capazes de compreender todas as línguas dos restantes (o que seria lindo mas utópico se tivermos em conta a quantidade de línguas e dialectos existentes no mundo);

    – que existisse um tradutor a traduzir cada comunicação oral e poster apresentados (o que também me parece lindo mas que creio que encareceria de tal forma os congressos que deixariam de ser suportáveis pela maioria dos potenciais participantes; já para não falar dos mal-entendidos que de certeza se geraria, dado que a ciência tem uma linguagem própria que não é dominada por qualquer tradutor).

    Assim, mais do que saber que alguém pode fazer uma comunicação numa língua que não inglês, o que eu gostaria de ouvir era ideias para ultrapassar a necessidade de usar nos congressos e nas publicações cientificas uma língua que seja compreensível para todos os cientistas (e que, não tendo obviamente que ser o inglês, será sempre uma língua que obtém supremacia em relação as restantes). Isso sim seria uma grande contribuição para a diversidade cultural.

    Xana Sá Pinto

  4. Ana Cristina MArtins says:

    Muito bom. Totalmente apoiado. Vou fazer circular, ó agitador de consciências!;)Não há machado que corte a raíz ao pensamento, nem língua que o afunile, se nós não deixarmos. Um abraço (dos portugueses, que o abraço dos ingleses é muito fraquinho, e o dos americanos muito prudente, com medo das acusações de assédio)

  5. João Maroco says:

    … pois eu cá, SONHO com o dia em que o Planeta terra seja um unico país, em que todos sejamos cidadões do mundo, sem fronteiras nem barreiras ideologicas, culturais ou linguisticas; iguais sobre o livre pensamento, desenvolvimento social e económico, onde a riqueza seja de todos e para todos, e que nimguem se sinta excluido, sobre o mesmo sol e sobre a mesma língua!…

  6. filomena says:

    Apoiado Prof! Embora a língua inglesa seja a mais divulgada e, como tal, a mais vulgar, aqui a questão é o “levantamento de rancho” do Prof contra o politicamente (in)correto

    – Por que não em língua portuguesa?

    Realmente, já chega de nós, portugueses, estarmos sempre prontos a decifrar qualquer língua, até mesmo quando somos abordados por turistas. Chiça! Até os nuestros hermanos não percebem o que dizemos e, para nós, é tão fácil compreendê-los… Que aprendam! Bem que precisamos de mais postos de trabalho! Boa ideia! Tradutores precisam-se!!! Aprendamos nós, também, a preservar e a divulgar a nossa língua e cultura e a não estar sistematicamente imbuídos do paradigma do português típico “pau para toda a colher”.

  7. vitor santos says:

    È um exemplo de vida, um homem que não pára , as limitações dele é quando morrer,não vai sair do caixão, mas mesmo assim nunca será esquecido pela ajuda preciosa que dá aos utilizadores de droga , mesmo eu como utilizador e tecnico psicossocial , devo muito do que aprendi ao ouvi-lo dizer algumas coisas , imaginem se eu trabalhasse do seu lado, obrigado por ser o que é continue a ajudar, abraço

  8. José Nogueira says:

    Fantástico texto, mais uma vez. Só uma pequena ressalva: odeio a palavra “expectável”!

  9. Victor Moita says:

    Mais um extraordinário e incontornável texto na sequência de um marcante ato de cidadania …

    A defesa da diversidade da expressão linguística é indissociável da defesa da diversidade de pensamento, e uma expressão maior de um espírito livre. … “A minha pátria é a língua portuguesa”!

    Inspirado e incentivado pelo que aqui escreves, meu caro Luís, sinto-me encorajado, se não a corrigir – quem sou eu para ousar fazê-lo! – pelo menos a parafrasear o célebre aforismo de Fernando Pessoa. “ A minha pátria é a língua materna”

    No pensamento e na cultura – tal como na biologia! – a diversidade é seguramente um óptimo preventivo, quando não uma exigência, contra a gestação e a proliferação de aberrações e monstruosidades (teratos) ideológicas e sociais.

    Com certeza! … Ser poliglota não faz mal a ninguém! Antes pelo contrário. Mas nunca lá chegaremos se perdermos a(s) referência(s) à(s) nossa(s) língua(s) de origem.

  10. Excelente. E subtilmente, com sedução, tudo se vai formatando (mesmo tudo, até a foprma de reagir, sentir, exprimir afectos, desenvolver sensibilidades). Quem é que, sendo adolescente, hoje em dia, aprende (mesmo) ou utiliza outra língua que não o inglês? A começar pelo mundo cibernético (a imposição, com sedução irresistível, suprema).

    Escelente artigo

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Opinião

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