2 Jul 2012, 16:19

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Opinião

As saudades, mais coisa menos coisa

No Porto, temos um coração antigo, da cor do vinho do Porto tawny, que vai envelhecendo a sua fragilidade nas caves húmidas, em garrafas de superfície dura. Por isso parecemos tão rijos. Mas não somos.

Foi mais ou menos 5 metros antes de começar a passar a ponte do metro. Sim. Foi aproximadamente nessa altura, mais coisa menos coisa, tirando e pondo um ou outro ponto, quando o morro se acaba, abrupto, e o rio se anuncia, emaranhando-se clandestino nos fios de ar que nos são condicionados. Foi por essa altura que senti a tua falta. Ou “as saudades”, aquela coisa que se tem quase sempre no plural, para agravar ainda mais a situação.

Os portugueses gostam de agravar as situações, dar-lhes um desnorte de quem se abriga de um sismo à porta de um prédio. E atenção: fica à porta, não vá a autoridade andar por ali a passear as digestões e decidir que se está a ocupar a tão estimada propriedade pública.

Ainda não se via a cascata sanjoanina da Ribeira quando senti a tua falta. Deve ter sido mais ou menos nesse momento que a senhora loira de cabelo armado (acima de tudo em forte) hesitou em sentar-se ao lado da senhora morena de cabelo cansado. A senhora loira acabou por seguir o instinto que, de alguma forma, a alertava para um qualquer perigo naquele lugar vazio e azul como os outros. Apesar de o rio ser bastante mais apreciável quando se viaja de pé, a senhora loira acabaria por lamentar a hesitação nas pernas frágeis (ao contrário do cabelo, armado em forte). Os lugares depressa se esgotaram. Mas isso foi só depois de S. Bento.

As caras frescas dos turistas, intrépidos inseguros na vibração da ponte, lembraram-me a tua visão do mundo. Pois. Colocando-o assim, parece mais limpo, mais correto, mais elogioso do que chamando-lhe “a mania de ser turista em todo o lado”, aquela tua atitude de quem está sempre de passagem, recusando ligar-se por mais do que um cabo de fibra ótica. Sabes, no Porto não somos assim. Temos um coração antigo, da cor do vinho do Porto tawny, que vai envelhecendo a sua fragilidade nas caves húmidas, em garrafas de superfície dura. Por isso parecemos tão rijos. Mas não somos.

A passagem da ponte é um segundo bom, um instante que apenas dura em fotografia. É um choque térmico, um mergulho na essência concentrada desta cidade. Ainda agora deixei Gaia e já o escuro do túnel se enuncia. Este rio não é o Tejo, que é mais mar. É estreito o Douro, mas fundo. Mais do que as suas próprias raízes.

Foi na estação de S. Bento, creio, mais centímetro menos centilitro, que a senhora morena de cabelo cansado quase não saiu. Provavelmente, devido ao cansaço dos cabelos que se habituaram ao encosto quase confortável do vidro duplo. Foi por essa altura que julguei ver-te a entrar no metro, mas afinal era apenas um reflexo preguiçoso do rio (nunca para) que se recusava a ficar para trás.

Carlos Luís Ramalhão escreve segundo o novo acordo ortográfico

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