8 Dez 2012, 18:40

Texto de

Opinião

As coisas que a troika estranha

Digam-nos todos os dias as coisas que a troika estranha. Só assim podemos também nós estranhar e dizer bem alto que estranhamos as coisas que a troika estranha.

Ouvi hoje no noticiário da rádio que a troika estranha que, em Portugal, 40% dos reformados da função pública tenham pensões superiores a 1300 euros, enquanto só 2% dos pensionistas do regime geral terão montantes acima desse valor. Ou seja, a troika estranha que ainda não estejamos todos pobres. A troika é muito apressada. Afinal, só entrou há ano e meio em Portugal e já queria ter o trabalho todo feito!

É certo que tem contado com uma ajuda que talvez não esperasse tão competente vinda do nosso inenarrável governo. Mesmo assim, ano e meio é demasiado pouco para estarmos já todos pobres. A prova disso é a Grécia, que começou o calvário antes de nós e tem ainda várias pessoas que dão sinais exteriores de normalidade. Eu também ainda dou sinais exteriores de normalidade, mas estou com medo que a troika descubra onde moro. E que sou beneficiário da ADSE, que também está na sua mira. E que ao sábado almoço com a família num café perto de casa – estranho luxo. E que sou funcionário público, que é um animal caro e cheio de vícios.

Se continuarem assim a perseguir os funcionários públicos, pondero pedir a exoneração (é assim que se diz?). Perguntaram-me os meus – os primeiros a quem comuniquei a intenção – como iríamos viver. Tenho planos: ir trabalhar para a troika. Ou para a Standard & Poor’s a fazer traduções – começava logo por lhe traduzir o nome, o que só por si dava uma boa anedota. Ou para o governo. Gaspar é capaz dum gesto digno do presépio e admite-me como seu assessor. Sei fazer coisas, apesar de ser funcionário público, posso perfeitamente ser assessor num ministério. Por exemplo, tenho artes de terapeuta da fala e era capaz de pôr Gaspar a falar ainda mais devagar. E se me deixassem punha-o mesmo a falar sozinho, que é o que já faz o primeiro-ministro Coelho.

Voltando à notícia da rádio: deu a informação, disse aquilo, e ponto final. Sem um comentário que nos ajude a enquadrar, a perceber, a interpretar. A troika estranha, pronto. Salazar também estranhava os comunistas, Hitler os judeus. É natural, são caprichos. Qual é a conclusão a tirar? Tirei a minha: se só 2% dos pensionistas do regime geral têm pensões acima de 1300 euros, temos de evoluir para nos aproximarmos dos 40% dos da função pública. A quantia em causa é o montante do salário mínimo por exemplo no Luxemburgo. Mas, para os guardiões do capitalismo financeiro global, a regra é ao contrário: para assegurar a rentabilidade das suas aplicações, é preciso que os Estados a que chamam vulneráveis não gastem dinheiro com os que já não produzem. E se qualquer dia aparece alguém a lembrar-se daquela história antiga de levar os velhos para um monte para lhes dar uma injeção atrás da orelha?

Digam-nos, digam-nos todos os dias, as coisas que a troika estranha. Precisamos de saber, só assim podemos também nós estranhar e dizer bem alto que estranhamos as coisas que a troika estranha.

Luís Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico

  1. Filomena says:

    De estranhar, era não chorar a rir.. mais uma vez… Eu sei que era só para chorar, mas também continuo a mostrar sinais da minha (a)normalidade…

    • Logros Consentidos says:

      “No meu país não acontece nada” dizia o Ruy Belo. Os tempos eram outros a justificarem acontecimentos de monta. Actualmente os tempos justificam que aconteçam coisas que façam cair o pus deste abcesso a que se chama sistema político. Se só lá vai com grande cirurgia, pois que seja.

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