27 Nov 2011, 16:51

Texto de

Opinião

As calças eram do meu pai

Logo no dia em que me aventurei a aparecer de calças na Faculdade de Letras, a funcionária D. Júlia disse-me baixinho que o director me chamava ao gabinete.

Quando os fios da memória começam a puxar pelas vivências passadas, vêm-me à lembrança muitos episódios de um tempo, anos 60, em que fui aluna na FLUP.

Alguns acontecimentos saltam dessa amálgama de recordações e remoem-me o pensamento, como que a pedirem que fiquem registados para a posteridade, num sinal que mostre aos jovens de hoje como foi o Portugal desse tempo: cinzento, preconceituoso, repressivo, carregado de dificuldades económicas, …

A ida para a universidade representava para grande parte das famílias, geralmente mais numerosas do que as de hoje, uma série de sacrifícios, talvez até de privações. As muitas facilidades dos dias de hoje não existiam nesse tempo e tudo era completamente diferente da actualidade. A classe média vivia com o indispensável e nada de muitos luxos, pois a política de “apertar o cinto” era mesmo dura. Só uma vida muito regrada permitia a algumas famílias terem os filhos a estudar no ensino superior, quase sempre longe de casa, por isso, havia muitas contas, muitos cálculos, muita contenção de gastos para poder dar tudo certo.

Como ter um passe de transporte com várias viagens era caro, as minhas deslocações de casa para a Faculdade de Letras, então a funcionar onde hoje é o ICBAS, eram feitas de manhã cedo, de eléctrico e, ao fim da manhã ou à tarde, tinha que regressar a pé, até à zona oriental da cidade, onde então morava, dado que o meu passe era apenas de uma viagem por dia.

Assim, esse grande percurso que tinha de fazer de regresso a casa levava-me a subir a rua de Santo António (31 de Janeiro), onde um extraordinário centro de interesse me atraía sempre e me transmitia um deslumbramento enorme: a Livraria Bertrand.

Carregada de livros e revistas, estas, sobretudo as francesas, enchiam-me de curiosidade e admiração, pelas muitas imagens de uma outra realidade que aqui, em Portugal, não tínhamos ainda alcançado. A moda atraía-nos, a mim e a outras colegas, o que, por hábito, nos levava a folhear as revistas que encontrávamos na livraria, as poucas que cá conseguiam chegar em tempos de censura actuante.

O uso de calças, por parte das mulheres, não estava ainda generalizado entre nós, tão pouco o pronto-a-vestir, pois as famílias conservavam ainda o hábito de ter costureira periodicamente, em casa, para os “arranjos” que eram feitos na roupa que se usava durante bastante tempo e que chegava a passar dos filhos mais velhos para os mais novos.

As imagens de mulheres com calças, apresentadas nas revistas francesas, fascinavam-me e faziam-me sonhar em experimentar também, não sei se só por ser moda “lá fora”, se, com toda a certeza, por uma questão de afirmação e pelo desejo de assumir uma posição de igualdade, numa sociedade ainda muito talhada pelo homem.

Um dia, enchi-me de coragem e pedi a minha mãe para ter umas calças. Entre o ar meio escandalizado e reprovador dela e a minha longa insistência com argumentos de peso, lá a consegui convencer. Minha mãe, não encontrando outra solução, respondeu-me como que para me calar:

– Só se forem umas do teu pai!

Passados uns dias, a nossa habitual costureira, a menina Ilda, transformou habilmente umas calças do meu pai num belíssimo modelo para mim.

Agora, só me faltava a coragem de ir para a faculdade de calças!

Logo no dia em que me aventurei a aparecer de calças na Faculdade de Letras, entre a estupefacção de uns e a incredulidade de outros, apareceu, a meio da manhã, a funcionária D. Júlia, com ar um tanto atemorizado, transmitindo-me baixinho, para ninguém se aperceber, que o senhor director, o professor doutor António Cruz, me chamava ao seu gabinete. Atónita e amedrontada, imediatamente compareci à sua presença, adivinhando desde logo que a causa poderia ser… as calças que vestia!

Ao entrar no gabinete, os olhos do director percorreram-me de alto a baixo, chispando de crítica e reprovação pelo meu vestuário. Do alto da sua autoridade, descarregou logo 2 perguntas que me arrasaram.

– Já viu a “triste” figura em que se apresenta? O seu pai sabe como vem vestida para a faculdade?

Intimidada e reduzida à minha insignificância, apenas respondi com o ar mais ingénuo do mundo:

– Senhor professor, as calças eram do meu pai!

Artigo de Maximina Girão, enviado para a Rede Porto24. O texto foi previamente publicado na Alumni, Revista dos Antigos Estudantes da Universidade do Porto, no número de Março de 2010.

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