15 Jul 2012, 18:50

Texto de

Opinião

Aracnofobia

O mundo continua a parecer-me um lugar cheio de coisas que o Criador podia perfeitamente ter limado: os líderes neoliberais, as agências de "rating" e Merkel.

Em criança, vivendo numa casa antiga, dessas com bons e maus cheiros das casas que têm história como dizia Régio, fui apanhando alguns sustos ao topar de chofre com aranhas gordas e lentas. De aranha em aranha desenvolvi aracnofobia, muito antes que isso fosse um êxito de Hollywood. Mas tal como adoeci, assim me curei: a sós comigo. A cura foi um livro do fundador da entomologia moderna, Jean Henri Fabre. Chamava-se “Aranhas, aranhiços e aranhões”, que é um título esconso e improvável. Ora teve o esconso livro o condão de me mostrar o lado belo dum animal que eu pensava feio.

Foi assim que saí de 4 paredes e vim cá para fora à conquista dos recantos vegetais do quintal, descobrindo as moradas onde viviam de cabeça para baixo os seres misteriosos, subtis, geométricos e multicores que as aranhas são. Belo, aquele mundo. Mas logo o crescimento me levou para outras leituras e esqueci a vocação nascente de entomólogo. A aracnofobia não demorou a perceber que voltava a ter espaço, Fabre não me tinha curado completamente – e instalou-se outra vez. Andei de novo a fugir de aranhas e a pôr pele de galinha ao vislumbrar, mesmo de longe, o seu evoluir de máquinas de guerra.

Deu-se então novo facto marcante, entrado já bem nos 20 anos. O amigo Moita emprestou-me o seu apartamento devoluto num rés-do-chão dum prédio em Cascais envolto em vegetação. A casa tinha sido ocupada por alguma bicharada dada à amplidão dos silêncios das casas em repouso. A vegetação em redor transmitia o elo biológico ao interior, de modo que essa estadia depressa se revelou uma prova de fogo à minha aracnofobia.

Nos primeiros dias andei tenso, de coração nas mãos, vigilante, atento ao menor sinal e pronto à fuga. Tomado de infelicidade, perguntava-me por que tem de ter o mundo animais daqueles, animais que são braços mecânicos em corpos peludos e que fazem craaaash ao estourar, deixando um rasto húmido e amarelo ao despedir-se da vida. O mundo parecia-me um lugar cheio de pequenas imperfeições, de coisas que o Criador podia perfeitamente ter limado antes de dar a obra por concluída, e as aranhas eram a prova de que ele não tratou dos acabamentos.

Mas ao fim de pouco tempo senti a minha dignidade de mamífero aviltada: como podiam aqueles seres trazer prisioneiro um homem do meu tamanho? A rebelião foi crescendo em mim, até que o desfecho se deu: do radiador efacec da parede brotava um aracnídeo do tamanho dum caranguejo, com o ar majestoso de quem ali vive desde que há musgo no planeta. Enruguei-me em pele de galinha, vomitei. E nesse momento senti que esse torpor fóbico se transformava noutra coisa. Era a raiva. Impelido por ela, desferi um pontapé certeiro. Abri então os olhos. E só o silêncio ali reinava. O silêncio e uma grande mancha amarela na parede do quarto do meu amigo.

Por que conto todo este lado repugnante da minha existência? Porque apresenta uma sequência que é provavelmente uma matriz psicológica, organizando-me as respostas que dou às situações que a vida traz. E o que tem trazido a vida de ultimamente é, já todos o sabemos, a crise. Foi assim também que me relacionei com ela. Primeiro as más notícias, em 2008. Vieram como as aranhas, foram trepando e crescendo e instalando-se nas paredes, trazidas pelo ecrã da televisão. Uma avalanche de notícias que nos anunciavam que o mundo vivia uma situação grave. Como se sairia dela? Uma teia nos envolvia. Comecei a ter algum medo, depois medo, depois muito medo.

Ver os comentários dos especialistas nas televisões começou a provocar-me a pele de galinha que me haviam trazido as primeiras aranhas, comecei a andar inquieto, a achar que talvez a minha pacata vida de cidadão cumpridor de classe média estivesse à beira do precipício. E todos os dias as notícias eram as dos que iam caindo nele, como que a anunciar a inexorabilidade da nossa trajetória. Dia após dia, noite após noite, lá vinham eles – os que sabiam onde se acoitava o perigo e nos diziam que, mais dia menos dia, todas estas mordomias consumistas em que nos rebolávamos iriam dar lugar a um tempo de expiação e lágrimas.

Tomei finalmente consciência da minha doença: estava crisofóbico. Comparada com esta nova entidade clínica, a aracnofobia parecia uma brincadeira de aranhas de trazer por casa. A questão é ainda a mesma que trago desde esse tempo: pergunto-me por que tem de ter o mundo animais destes. O mundo continua a parecer-me um lugar cheio de pequenas imperfeições, de coisas que o Criador podia perfeitamente ter limado antes de dar a obra por concluída. Os líderes neoliberais, as agências de rating e Angela Merkel eram a prova de que ele não tratou dos acabamentos.

Decidi reagir. Questionei-me sobre que coisas sabiam esses que sabem, que coisas são essas que eu não sabia. E parti então à descoberta. Não foi já o entomólogo Fabre, não foi o “Aranhas, aranhiços e aranhões. Foram especialistas de várias áreas que explicavam as raízes e os fundamentos do que se estava a passar – foi por exemplo David Harvey e o seu “O neoliberalismo: história e implicações”. Foi por exemplo, para a realidade nacional, um conjunto de autores em “Os donos de Portugal”.

Pude então ir percebendo os contornos da crise para lá da poeira dos noticiários, descortinar o que nos andavam a fazer mascarados naquele discurso da dívida pública, do despesismo do Estado, da preguiça dos portugueses, do mau comportamento dos gregos. Comecei a interessar-me pela economia política e a perceber que há em tudo isto muito mais política do que economia. E política da baixa, que é feita de manipulações, de discursos pseudotécnicos cujo hermetismo oco visa apenas que nos sintamos ignorantes e impotentes e entregues nas mãos de instâncias transnacionais que não elegemos nem sabemos como interpelar. E comecei a irritar-me, como quando estava no apartamento de Cascais do meu amigo e percebi que não valia a pena querer continuar a fugir das aranhas.

Tinha de reagir então à patada – matá-las. Foi assim que matei os que afundaram o Lehman Brothers  e deram o pontapé de saída da crise de 2008 e agora voltam a ter cargos importantes na banca e em pontos-chave das decisões financeiras mundiais; foi assim que matei os Oliveiras Costas, o pessoal das off-shores e das agências de rating; foi assim que matei todos quantos nos querem convencer que fomos nós que arranjámos o problema e por isso agora o pagamos com o desemprego e o confisco das nossas casas e dos nossos salários; foi assim que matei os Medinas Carreiras, os pessimistas todos que se comprazem em destilar coisas más quando vão à televisão agredindo a nossa autoestima e taxando-nos de medíocres do alto da sua sabedoria.

Estou agora muito melhor: as aranhas continuam a aparecer, mas esmago-as mal as vejo. Economicamente, a minha vida tem piorado. Prospetivamente, o futuro está pior. Mas psicologicamente tenho vindo a desenvolver alívio e a confirmar a máxima nietcheziana de que tudo o que não me mata torna-me mais forte.

Luís Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico

  1. Olá Prof.

    Delicioso como sempre.

    Não fora a malfada aracnídea crise, já me tinha candidatado ao doutoramento. Mas, nunca é tarde… quem sabe para o ano…

    Agradecida pela sua contribuição preciosa, no papel de arguente na minha tese de mestrado: Discursos de Reclusos, temática que quero continuar a investigar no meu doutoramento.

    Bem haja por existir

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