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Foto: "Guia das Tascas, Tabernas e Casas de Fado de Portugal"

11 Mar 2015, 17:17

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Opinião

António Trovão, ou como fazer uma faísca

Este homem magro e de chapéu verde-musgo a condizer com a camisa, simpatia ancestral, viu-nos passar e chamou como quem ordena lei: – “Oh, não querem tomar um vinho?”.

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Já éramos vizinhos de Bairro, agora pusemo-nos a misturar a paixão pela cidade com o amor aos livros e às palavras. E já criámos novos roteiros para os nossos leitores num Porto cheio de livrarias e afectos. Todas as semanas, os bairristas encontram as deliciosas colunas de opinião dos escritores Vanessa Rodrigues, Jorge Palinhos, Marisa Oliveira e Rui Manuel Amaral – os nossos cronistas de Bairro – no Porto24. Sempre à quarta-feira, o vosso Bairro dos Livros no nosso Porto24. Boas leituras!

Conheci o Trovão, logo ao descer a reta do Desterro, depois de ter passado Brasil, pela manhã, Almagreira e Santa Bárbara, embora ele more na Graça. É a sua adega com vinho de cheiro e jaquês que o prende à baía de São Lourenço, nestes dias com mar calmo e vigília de lua cheia. Dizem que sustenta Impérios, todos os anos, esse pagamento de promessas religiosas à conta do Espírito Santo, alimentando as bocas da ilha de Santa Maria, nos Açores, que se reveza nas copas comunitárias. Há de ler-se n’”O Baluarte”, logo em janeiro, para ver se o nome dele não consta na lista anual de homens de sopas do Espírito Santo. Sopas com cozedura especial, pão e muita carne de vaca e uns segredos que apenas três a quatro famílias conhecem em toda esta ilha, espraiada nos seus 98 quilómetros quadrados.

Este homem magro e de chapéu verde-musgo a condizer com a camisa, simpatia ancestral, viu-nos passar e chamou como quem ordena lei: – “Oh, não querem tomar um vinho?“. Mal percebemos e já estamos na loja com olor a bagaço e mosto, entre barricas envelhecidas e conversas de água salgada, usada para preservar este vinho de cor cobre-salmão. Mal nos tenta sair resposta pensada na ousadia do não e já estamos encafuados, sabe-se lá como e por que magnetismo insular, na toca deste pai de duas filhas que são a fotocópia da mãe. E, afinal, como se chama este homem que não tem um pulmão, nem um rim, e que esteve de junho a outubro, para morrer, no ano em que fez meio século, naquela que foi a sua primeira viagem ao continente? Já lá vamos que ele mantém suspense no parlatório. – “A receita que os médicos lá no continente [Lisboa] me passaram é que não tinha solução. Era para ter ido embora. Estive meses sem comer e agora é isto.” Este agora são nove anos depois e isto duas horas diárias de caminhadas a pé, desde então, na companhia da pequena égua, que isto de não ter alguns órgãos é uma revolução na anatomia. Talvez tenha sido a condição insular, para o homem que vive duas vezes: uma hora a menos nos Açores é a Portugalidade a viver em mundos paralelos, um hiato de uma hora que fica suspensa. Uma vida extra, como nos jogos. E lá se lembra, enfim, da pergunta anterior, lá em cima: – Eu não me chamo, os outros é que me chamam a mim.” Diga: como é que os outros lhe chamam? – “Isso varia. Se mandar uma carta para António Moura Moreira, ela é bem capaz de não chegar até mim. Agora, se puser António da Margarida, que era minha mãe, há-de chegar-me às mãos.” E são estas mãos calejadas, de mar, de terra, de vinho, de vento, de esperança. “Há também quem me chame cachaneta, ou então António Trovão. O Trovão.” Um homem que é uma tempestade? – “É coisa muito antiga. Andei um dia na pancadaria, com o Malaquias, que tem casa lá no continente, e levei uma pancada que parecia um trovão. E como não há Trovão sem Faísca, dei -lhe o troco. E, pronto, lá ficou ele conhecido como Faísca.

Vanessa Ribeiro RodriguesVanessa Ribeiro Rodrigues é jornalista, escritora, documentarista, viajante. Nasceu no Porto, morou no Brasil e na Jordânia. O que lhe importa é reinventar a cor da linguagem, caçar histórias. É autora do livro “O Barulho do Tempo” e tem vários contos e poemas publicados em revistas literárias.

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