28 Jul 2011, 10:05

Texto de

Opinião

Chama o António

Valeu-me António Jorge Branco (1937-2011) para aprender a ouvir rádio e perceber o que deve ser o jornalismo para "as pessoas", e não para nós próprios ou o nosso grupo de amigos.

António Jorge Branco

António Jorge Branco (1937-2011), um dos mestres da rádio portuguesa. Foto: DR

Foi um dos meus principais professores. Valeu-me António Jorge Branco para aprender a ouvir rádio e perceber o que deve ser o jornalismo para “as pessoas”, e não para nós próprios ou o nosso grupo de amigos.

Lembro-me quando uma vez um colega de turma escreveu que o “ministro dos negócios estrangeiros” se tinha encontrado com um seu “homólogo”, e logo o professor se prontificou a encontrar o senhor “homólogo”, procurou-o entre nós, se conhecíamos alguém com esse nome, depois gritando pela janela (em plena Avenida da Boavista) pelo “ho-mó-logo”, ninguém respondeu, claro. Percebemos o que ele queria dizer, tal como aconteceu quando, numa teatralização idêntica, perguntou quem era o “Oriundo”, saltando para as portadas, abrindo a janela e vociferando lá para fora “Ó Oriuuundo”. Claro que ninguém lhe respondeu.

Além de várias peculiaridades, de um rigor quase insuportável e de um profissionalismo desarmante , enquanto professor, António Jorge Branco também ficou na memória de muitos dos seus alunos pelo método absolutamente único de fazer uma “revista de imprensa”.

A revista de imprensa é aquele momento, na rádio ou nos jornais online, em que se faz uma síntese das primeiras páginas dos jornais – que não deve ser confundido com o que nas televisões se devia chamar “ocupar espaço televisivo com conteúdos que outras empresas pagaram para ter” mas que tem, de fato, o mesmo nome (não vou escrever que têm uma rubrica homónima senão os leitores saltam para a janela chamando a homónima).

A melhor forma de o fazer é, citando António Jorge Branco, “espalhar os jornais sobre a mesa, depois subir no helicóptero e começar a pairar sobre as primeiras páginas; recolher os destaques, as notícias comuns e tentar apanhar mais algumas que saltem à vista. Depois pousar o helicóptero e fazer a revista de imprensa!”, conforme conta um ex-colega.

Na terça-feira fiz uma “revista de imprensa” para mim, uma vez que não consegui ouvir o Pedro Malaquias na Antena 2, nem o João Paulo Guerra na 1. Quando estava de helicóptero no ar, percebi logo o “Correio da Manhã”, talvez pelo vermelho, talvez pelo tamanho da fonte, da letra. Lançava um “bitaite” sobre uma eventual conta mal feita na sobretaxa de IRS e um braço de ferro entre banqueiros, que, no fundo, era apenas uma tentativa do diretor do Banco de Portugal de pôr na ordem os banqueiros privados.

Na capa do “Diário Económico”, os 5 banqueiros principais, bastante próximos, refastelados com mesas de vidro à frente (pouco convidativas para braços de ferro). Em cima da foto o título: “Banca pressiona Estado a pagar dívidas para poder financiar a economia”. No jornal salmão, o título principal é “Preço dos transportes com subidas de 25%”.

No jornal “i”, os bancos também aparecem, com uma mancha amarela forte, sobre os tachos da Caixa Geral de Depósitos. No JN, não havia notícias de banqueiros na primeira página, é certo que se escrevia que o “dinheiro sujo duplica em 6 meses” – mas não se referiam ao dinheiro versão lixo tóxico que os bancos portugueses detinham (têm?).

Quarta-feira, o heli voltou a sobrevoar os jornais e o primeiro olhar foi de novo para o “Correio da Manhã”, para uma dupla mensagem idêntica à do “Diário Económico” de terça-feira. Uma foto da cara do ministro das Finanças  faz pano de fundo ao título “Banca força orçamento retificativo”, para em manchete surgir o outro lado da mensagem dessa moeda: “Remédios mais caros em Outubro”,  por causa dos cortes do Estado.

O “Público” continua a trazer a banca para o título principal da primeira página: “Governo justifica orçamento retificativo com o apoio à banca”. E ainda na banca: “Nogueira Leite: Executivo ultrapassou CGD”, onde o jornal conta como o liberal “Governo garantiu a Nogueira Leite o lugar de vice-presidente da Caixa Geral de Depósitos, fazendo tábua rasa dos regulamentos de boa governação”, que demandava decisão do conselho de administração.

Uma notícia do DN dá a machadada na tenaz liberalizadora deste Governo que se intromete na gestão de um banco privado:  “Imposto extraordinário serve para pagar salários dos ministérios” (a “sobretaxa” que o professor Cavaco tão bem compreende é “para pagar salários dos ministérios”…). Antes de fazer descer o helicóptero, que o gasóleo prepara-se para subir de novo em Agosto, ainda vi uma outra nota: “Estaleiros de Viana do Castelo – Gestores ‘proibidos’ de sorrir e de almoçar no refeitório”, segundo ordem interna (será que também veio do Governo?).

De vez em quando, mesmo depois de ter lido os jornais, de ter visto os meus blogues preferidos e de ter lido as mensagens das contas que sigo no Twitter e no Facebook, gosto de (re)ver as primeiras páginas dos jornais, como que chamo o António Jorge Branco e passeio nas capas com o meu helicopterozinho. Basta pôr em perspetiva uma dúzia, 20 notícias, escolhidas pelas direções dos jornais para perceber o que se passa. E o que se passa… bem, bastar rever as capas, uns pagam, outros recebem e uns terceiros exigem.

Até quando?

Filinto Melo escreve de acordo com o novo Acordo Ortográfico

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