20 Mai 2011, 8:06

Texto de

Opinião

A cidadania saiu à rua

Seria a situação da Escola da Fontinha justificável da brutal intervenção policial? Mas nada está acabado: é preciso manter a cidadania na rua.

Escola da Fontinha

A vida diligente de uma cidade leva a que muitas vezes o abandono se infiltre nas vielas, se inunde nas fachadas e que a progressiva degradação se propague aos edifícios completos.

Assiste-se há muitos anos a uma morte anunciada e lenta da cidade do Porto. As persianas caem, os vidros são partidos, as telhas voam nessa triste cadência dos edifícios se desintegrarem aos pedaços. O mesmo acontece às escolas. O mesmo aconteceu à escola da Fontinha.

Cinco anos de abandono em escalada visível, os alunos foram substituídos por um incómodo vazio, o mobiliário partido, as paredes estragadas, tudo vandalizado num ímpeto destrutivo perto do inqualificável.

No dia 10 de Abril, um conjunto de pessoas ocuparam a escola. O mobiliário foi reparado, as paredes pintadas e um novo sentido, o antigo e primordial, foi dado à escola, e a renovação foi estendida ao próprio nome. Os habitantes do bairro viram surpresos a Es.COL.A – Espaço Colectivo Autogestionado do Alto da Fontinha de novo de portas abertas, agora a toda a comunidade.

De entre o rol de actividades e diferentes valências desenvolvidas destacam-se o jardim de infância, as oficinas de leitura e a criação de uma biblioteca, as aulas de guitarra, o ensino de matemática, o estudo do meio e geografia, xadrez, yoga, actividades exercidas num exemplo claro de democracia popular apoiada incondicionalmente pelo bairro.

Apesar do inegável papel de formação desenvolvido em prol da comunidade, e alegando uma ocupação ilegal do espaço (sim, uma ocupação foi feita, mas o colectivo suporta-se na própria lei, a qual estipula que a  apropriação de um espaço público é de 90 dias, tempo legal de permanência após notificação camarária), a câmara decidiu intervir exactamente um mês após o início das actividades.

Seria a situação justificável da brutal intervenção policial? Seriam necessárias tantas shotguns, tantos polícias e carrinhas, tanta violência gratuita? Clara Campos foi vítima de abuso e de violência física. Menina-mulher activista, foi obrigada a deitar-se no chão, algemada por um polícia, enquanto outro a calcava nas pernas e um terceiro a esmurrou no rosto com um cobarde e infame punho fechado.

As vergonhosas nódoas negras que exibe no corpo são testemunho de uma violência abjecta, desnecessária, desproporcionada e absolutamente desmesurada. A resistência mostrada pelos 7 activistas foi pacífica e, apesar de todos os esforços desenvolvidos, a escola foi emparedada e os ocupantes agredidos e posteriormente detidos.

Mas a história não termina aqui. Pode até ter começado. Enquanto a decisão final não é conhecida, as actividades educacionais e lúdicas decorrerão no Largo da Fontinha. O caso foi levado à Assembleia Municipal do dia 16 de Maio e enquanto representantes do bairro e da escola estavam no interior da câmara, mais de 300 pessoas manifestavam-se fora.

Da reunião saiu o veredicto que, embora dúbio, poderá ser promissor de algo: é necessária a apresentação de uma proposta de acção. Nada está acabado, portanto. Resta uma esperança à educação livre e aos movimentos populares em prol da comunidade. Resta manter a cidadania na rua.

  1. eu says:

    A dita violencia que Ana Cancela diz verifica-se pale não cidadania, não cumprimento da lei, e mais pela falta de respeito pelas Autoridades deste país.
    A Ana Cancela, que tenha respeito ou que conheça os factos da situação, e quando as suas palavras se dirigirem a algo ou alguem deverá faze-las de modo profissional, é isso que se espera de alguem que é ou sonha ser jornalista, e não escrever aquilo que os outros querem ler.
    Obrigado.

  2. Milé Sardera says:

    Sobre o não cumprimento da lei…

    Há uma escola pública, aberta por anos de vandalismo, antro de seringas e abandono. Alguém lá entra, repara, cuida, anima.

    Vem a polícia, com shotguns mas sem dístico identificativo, com a força das algemas mas sem mandado de despejo, que salta alguns parágrafos nos livros legais e se esquece de notificar e dar 90 dias para a desocupação e leva máquinas fotográficas e discos externos sem auto de apreensão.

    Distribuem alegremente uns murros, retiram gente do telhado sem o mínimo de segurança, para que, depois, os trabalhadores da Câmara tentem emparedar o local com material dos ocupas.

    O “eu”, que tenha respeito ou que conheça os factos da situação, e quando as suas palavras se dirigirem a algo ou alguém deverá fazê-las de modo profissional, é isso que se espera de alguém que é ou sonha ser polícia, e não escrever aquilo que os seus superiores querem ler.

Opinião

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