25 Fev 2013, 11:23

Texto de

Opinião

Amor em tempos de crise

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Talvez a crise funde um novo amor, genuíno e fraterno, e crie as oportunidades para destruirmos a Cólera dos nossos tempos, como no romance de García Márquez.

CoraçãoFoi talvez com Gabriel García Márquez que aprendi o que é isto a que chamam Amor. Muito mais do que os beijos, os encontros, os enigmas amorosos da adolescência, e outros livros que me iam retratando esse sentimento basilar da vida, o livro de García Márquez mostrou-me, quando o li em miúdo, um continente novo. Encantou-me porque me permitia compreender levemente que o amor era algo que implicava um compromisso genuíno, independentemente das intempéries, sendo que esse trato estaria acima dos padrões sociais convencionais. Que o amor era um compromisso, era isto que o livro me abria e me propunha de novo.

Florentino Ariza e Fermina Paza eram, no livro de García Márquez, dois apaixonados no século XIX, onde a Cólera dizimava as populações e deixava muita miséria e fome no Mundo, fazendo-me acreditar que era possível tal compromisso em tempos de crise. Só García Márquez para colocar um retrato destes numa situação tão nefasta como a Cólera. Só García Márquez porque é um grande escritor e porque os grandes escritores têm o dom de elevar a beleza e o encanto em situações que o homem comum nunca enxergaria. E porque García Márquez, por ser o escritor que é, não tivesse a necessidade de escrever uma história de amor parola como as que agora se vendem por aí e que jazem vivas nas estantes acessíveis das livrarias.

Daí que me pergunto: que será feito do amor? Até que ponto ele tem sido central nas nossas vidas?

Ou então, até que ponto ele regula o nosso funcionamento social e individual num tempo de sofrimento coletivo como este que atravessamos? Poderemos enxergar além do amor visível, aparentemente real, e mergulhar na plêiade de amores que atravessam a nossa vida em Sociedade? São indagações difíceis de responder e o assunto requer especial afinco e dedicação. Tanta dedicação e afinco que talvez nem eu seja portador de respostas absolutas ou completas para questões tão enormes e gigantes como estas que são agora levantadas.

Numa coisa reparo – que as pessoas andam com medo. Não é preciso estar munido de um olhar técnico para compreender que todos andam com um quadro de desmotivação prolongada, diria mesmo com uma patologia da vontade. E essa inércia, essa desmotivação, tem como matriz principal o medo, sendo que esse medo se alimenta, retroativamente, desse quadro de abulia generalizada. Andamos subordinados, não só aos ditames neoliberais que nos fazem ter a perceção de que “somos culpados por tudo isto” e que por isso “temos que passar por isto”, mas também subordinados a nós próprios e o efeito dessa subordinação traduz-se num indivíduo neurótico, obsessivo, que quer estar em todo lado quando de facto nem na sua casa consegue estar, desejoso de ser tudo e não sendo nada, querendo ser um grande pai, uma grande mãe, um grande amigo ou amiga, um grande namorado ou namorada, quando não consegue ser, de facto, nenhuma destas coisas.

Parece-me que a crise tem também a capacidade de subordinar o amor, de instaurar nos indivíduos uma tirânica ideia do medo do compromisso, que poderá ser uma extensão do “medo de existir” que nos fala José Gil. Talvez não saibamos estabelecer amor com o Outro porque nos demitimos de nos amar a nós próprios; mas se não estabelecemos amor connosco é porque não nos deixam exprimir todas as nossas potencialidades, é porque as condições sociais nos sufocam os recursos internos. É porque nos roubaram a pessoa que existia em nós e a instrumentalizaram, tornaram-na um número no redor de muitos outros números que existem no país e no planeta, converteram-na em estatísticas frias e impessoais, elevando a nossa identidade a um patamar irreal ao ponto de não nos reconhecermos mais na existência. Não temos a capacidade de nos amar a nós mesmos, de não irmos para a cama connosco, porque virtualizaram a nossa missão no mundo, fundiram-na com uma metafísica que não é a nossa, que é a deles – os detentores do capitalismo financeiro – e o desfecho dessa virtualização é uma robotização desenfreada dos nossos corpos passivos, nos quais habitamos mas que já não conhecemos mais como nossos.

Estamos no apogeu de uma crise financeira que traduz e amplia a desregulação dos mercados, que mesmo não sendo nossos nos afligem, mas tal crise apresenta também um efeito nefasto na desregulação da nossa vida em Sociedade e na desvitalização do amor entre os seres humanos.

O Outro é visto, então, como um intruso. Sabemos, contudo, que em tempos de crise emergem algumas iniciativas que demonstram o nosso poder agregador e coletivo – o aumento das ações de solidariedade e as manifestações sociais que rebentam por vezes, dão-nos a prova de que a nossa consciência coletiva não está morta mas antes adormecida. Mas quando analisamos a realidade nas relações horizontais, no decurso da vida quotidiana, verificamos uma competição tenaz entre os Homens, uma tentativa de afastar o outro da nossa esfera privada, de o enxotarmos para debaixo do tapete da nossa mente. E, por isso, não somos dignos das palavras “meu irmão” porque aprendemos a considerar o Outro como um inimigo, como alguém que terá que ser mantido à distância, como alguém que deverá colocar-se numa posição de dominação perante aqueles que são mais dotados e munidos dos instintos de dominação no decurso da nossa vida coletiva. Aprendemos que a cooperação é nefasta, exceto quando adquire a forma de alguma benesse posterior, aí sim somos todos irmãos, somos todos companheiros e estamos todos empenhados em resolver os “problemas dos outros”.

É aqui, neste quadro de desinvestimento das relações de cooperação e na ampliação da competição entre os cidadãos, que o amor-compromisso, tal como me foi aberto com o romance de Gárcia Márquez quando era miúdo, deve ser escrutinado nas sociedades atuais, nas suas mais variadas formas. Bauman falava-nos no seu livro “Amor Líquido”, que o amor acompanha a flutuabilidade da realidade social – que para ele era também algo difusa, pouco consistente, ou na sua própria linguagem uma “Modernidade Líquida”. Os tempos de crise podem ser verdadeiros testes ao amor, aos seus limites, às suas dinâmicas, à sua força. São tempos em que, por este se encontrar ameaçado e em perigo, é tantas vezes analisada a sua consistência e resistência. E as situações quotidianas em que este amor é posto à prova são muitas: o quão abalado não ficará o amor nos casais despedidos que mergulharam numa situação de desemprego, onde se vive cada dia com a falsa esperança de que a situação melhore? Como será o amor daqueles que pretendem iniciar uma vida a dois e a Sociedade não é permeável aos trabalhos estáveis, dignos, e que inspirem confiança? Como enquadrar o amor na sociedade competitiva que falava acima, quando um companheiro ou companheira fica de repente ou sempre esteve, desde que rebentou esta crise, numa situação de desemprego permanente e sofre psíquica e fisicamente dessa condição? E, enfim, como fazer ressuscitar o amor carnal quando por vezes esta crise retira a carne que há em nós e nos tritura os corpos e as almas?

São questões a que não sei responder. Poderia colocar uma pose formal, chamar o olhar mais convicto que conseguir, escolher as palavras mais certeiras que encontrar no meu léxico, fazer imediato usufruto da minha profissão de psicólogo para tentar responder a estas questões. Aqueles que tiverem a certeza das suas respostas que se pronunciem e me expliquem como se conseguem “microgestões” da nossa vida pessoal, para assuntos que requerem uma “macrogestão” mais eficiente. Por enquanto esta última apresenta-se ruída, podre por dentro, e já não lhe suportamos o cheiro horrível.

Talvez a crise funde um novo amor, genuíno e fraterno, e crie as oportunidades para que com essa força imanente destruamos a Cólera dos nossos tempos e que, tal como no romance de García Márquez, nos comprometamos com o Outro, seja ele quem for, por forma a derrubar aqueles que tanto nos têm condenado à fome, à miséria e ao sofrimento desumano.

Simão Mata é psicólogo e escreve segundo o novo acordo ortográfico. O texto foi enviado para a Opinião Porto24. Pode enviar também os seus artigos.

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