16 Mai 2011, 18:56

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Opinião

A cultura “enxuta” do PSD

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Um dia destes, o PSD acabará de vez com a Cultura, ou com o que restará dela.

Cultura

Foto: Anjan Chatterjee

Um dia destes, o PSD acabará de vez com a Cultura, ou com o que restará dela. Um futuro Governo de Passos Coelho não será nem magro, nem gordo, nem seco, nem molhado; será, simplesmente, “enxuto”, como disse o próprio no último domingo. E num Governo tão frugal não há espaço para políticas de pouco alcance.

O PSD tem, de facto, um problema com a Cultura: Cavaco relegou-a, inclusive, a subsecretaria de Estado. Basta olhar para a forma como a Câmara do Porto extinguiu a Cultura e a substituiu pelo pelouro do Conhecimento e Coesão Social para perceber que os sociais-democratas têm uma visão um tanto ou quanto estranha sobre o que devem ser as políticas públicas.

Como reconhece o insuspeito Joe Berardo, só um néscio poderá argumentar que esta seja uma área de somenos importância no desenvolvimento de um indivíduo ou de uma comunidade. Num exercício de lucidez, o comendador concluiu que a Cultura, para o PSD é, “infelizmente, um problema”: “Eu não sei bem o que ele [Passos Coelho] quis dizer com isto. Eu compreendo que o país está em crise e talvez seja para cortar custos, mas a cultura é indispensável”. Canavilhas não seria mais eloquente.

O discurso já é mais ou menos conhecido. Receia-se é que, agora, com o discurso da crise, tudo se extinga com base no estafado argumento da elite.

É verdade que um festival como o Odisseia – Teatro do Mundo, com espectáculos de Peter Brook ou Pina Bausch, é, e será sempre, elitista. Mas o que este festival demonstra, de forma exemplar, é que há público para “Une Flûte Enchantée” ou para “Bamboo Blues”. Que nomes como Peter Brook ou Pina Bausch esgotam salas de espectáculos em teatros fora da capital.

É verdade que há vida para além de La Féria e de um teatro municipal condenado a ser uma sala de espectáculos “enxuta”? É verdade, há vida e teatros cheios para além do Rivoli.

Por outro lado, o Odisseia também é exemplar pela forma como agrega 4 teatros num só festival. O programa, de indubitável qualidade, e contemporaneidade, reúne o Teatro Nacional de São João, no Porto, o Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, o Theatro Circo, em Braga e o Teatro de Vila Real, numa parceria que seria mais difícil se as instituições permanecessem ensimesmadas e, logo, incapazes de pensar em rede.

O Odisseia, e tudo o que se lhe pode seguir, seria absolutamente impossível caso não existisse uma muito razoável rede de salas de espectáculos nas principais cidades do Norte do país. E qualquer semelhança entre isto e o PSD é uma pura e abusiva coincidência. O PSD precisa de políticos de cultura menos “enxuta”.

  1. JDACOSTA says:

    Amilcar, não comentarei o seu artigo; entendo os seus propósitos e não censuro as suas conclusões. Detenho-me numa frase: “O PSD tem, de facto, um problema com a Cultura: Cavaco relegou-a, inclusive, a subsecretaria de Estado”, que invoca um ex-primeiro-ministro (que chegou ao cargo à um quarto de século e o deixou á mais de quinze anos). É admissível que o PSD hoje tenha um problema com a Cultura; é possível que não seja o único (é provável até que sejam poucos os atores políticos não tenham um problema similar). Mas não é certo que o actual Presidente da República – quando primeiro ministro – tenha relegado a Cultura a uma Subsecretaria de Estado; de fato tempos houve que foram duas, tuteladas por um Secretário, sendo este directamente dependente da Presidência do Conselho de Ministros (ou seja, a Secretaria de Estado despachava directamente com a chefia do governo). E ao longo daquela já longínqua década de governo houve felizes e menos felizes politicas públicas. Depois disso, já observamos ministérios irrelevantes depois de termos apreciado secretarias de estado proeminentes.
    Amílcar, a questão não é genética, é comportamental. Enquanto a cultura for nota de rodapé em jornais ou apelidada adorno de ‘elites’ (seja o que isto for), a ‘enxutice’ não será exclusivo apanágio do PSD hoje.

    • Caro JDACOSTA,
      “(que chegou ao cargo à um quarto de século e o deixou á mais de quinze anos)”: tanto o seu “á” como o seu “à” deveriam ser “há”. Não seja enxuto na sua escrita. E quando diz que não comentará, não comente. Ou comente, simplesmente.

      • JDACOSTA says:

        Tiago, não comentei o artigo. Fiz um conjunto de observações a uma frase que fatualmente era incorrecta. E quando tal acontece, o sentido e o propósito do todo saem prejudicados.
        Quanto à correção, obrigado. Sempre a aprender com os melhores.

        • Caro J. da Costa,
          Fez, é claro, e realmente, várias observações em relação à frase que considerou incorrecta e, gabo-o, exprimiu no final da sua contribuição uma sua opinião – em relação à irrelevância de ministérios ou às conotações com os usufruidores da cultura.
          Este é um espaço de opinião, é portanto o que aqui se deseja ver explanado. Não lhe sugeri que não comentasse, apenas que não diga que não o vai fazer, quando o faz. É um pouco a técnica do “já para não falar de…”.
          Ainda bem que fez as observações e que deixou a sua opinião!
          Tiago

  2. Passos Coelho tem toda a razão em dizer que a cultura é transversal. Hmm… não, afinal não tem.
    Porque Passos Coelho diz que “a cultura é uma área transversal”. Uma área. Porque é que esta coisa do governo “enxuto” de Passos Coelho me transporta para uma ideia de política de cultura “frígida”?
    A cultura, em si, é transversal. Tudo é cultura – tudo. Mas Passos Coelho é-o muito pouco – ou nada.

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