23 Nov 2011, 19:17

Texto de

Opinião

Vantagens de andar de autocarro

Sempre me fascinaram estas curtas deslocações em autocarro, pela galeria de tipos e figuras, que analiso divertidamente. Um microcosmos ambulante.

Andar na cidade, de transporte coletivo, é quase como ir à escola. Todos os dias se aprende. Pela positiva como pela negativa. Cada viagem pode saldar-se por um conjunto de ensinamentos (mais-valias de um passe ou bilhete pré-comprado) – sobre o ser humano, a sociedade e até sobre nós mesmos.

Frequentemente é-nos dada oportunidade de conferir a nossa mediania – se está mais próxima da excelência ou da mediocridade, em matéria de asseio pessoal, cortesia, educação ou solidariedade. Muitas vezes é um idoso de postura periclitante ou uma criança do pré-escolar que nos obrigam, com a humildade de uma palavra ou o silêncio de um gesto, a rever o conhecimento que temos de nós próprios.

Normalmente, viajo dentro do perímetro urbano, onde a STCP é operadora exclusiva. O meu interesse começa na fila de espera, na sobejamente conhecida incapacidade das pessoas para seguirem uma ordem e respeitarem a sua organização. E, quando o autocarro chega, desmancha-se uma fila tentacular e há sempre últimos a obstruir a entrada aos primeiros.

Sento-me preferencialmente num daqueles lugares que praticamente ninguém quer – à frente, de costas para o motorista. Aí me sinto como que diante de um palco, onde vão desfilando atores, desde a velhinha dos Clérigos, curvada sobre si, à viúva da Ramada Alta – “ti Maria” para os motoristas -, resmungona e implicativa. E cada paragem constitui uma nova cena, sobre a qual eu tenho visão ampla (exceto para aqueles que se concentram junto do motorista).

Os olhares voltam-se para um rapaz com auscultadores, que dorme, aparentemente, e que deverá ficar sem tímpanos antes de chegar a adulto; uma jovem insinuante, com ar de quem diz “Estou aqui! Se me queres, leva-me…”, fala e sorri para um telemóvel, sem deixar de apreciar o impacto da sua pujança física; uma mulher-a-dias, ou a horas, põe ao sol a vida dos patrões; um homem já entrado nos 60, mas bem encadernado, rompe pelo aperto, como se fosse sair, mas estaciona junto de um grupo de adolescentes ingenuamente distraídas e ninguém repara nele, com uma mão enterrada no bolso e a expressão lasciva, roçando-se nas miúdas.

Sempre me fascinaram estas curtas deslocações em autocarro, precisamente pela galeria de tipos e figuras, que analiso divertidamente, como mosaico social, caldo de cultura. Um microcosmos ambulante.

Cada linha ou carreira tem os seus. Na carreira 600, por exemplo, há uns quantos, entre eles um homem que dardeja contra as mulheres, outro que canta incessantemente o seu romance triste, e o histriónico Daniel, em estilo de pregação, que ameaça chamar o DIAP (Departamento de Investigação e Acção Penal).

Por vezes, o motorista também assume protagonismo, isto é, também se constitui como figura. E nem sempre faz boa figura. A conduzir vertiginosamente só com uma das mãos, enquanto a outra segura o telemóvel, numa interminável conversa privada, não faz, de certeza, boa figura. Porque enquanto conduz com a atenção desfocada, sucedem-se as travagens bruscas e as portas ficam nervosas e precipitadas.

Há dias, talvez semanas, o motorista de um autocarro da linha 703 foi protagonista de um episódio grave. Eram quase 4 da tarde quando o autocarro, praticamente vazio, abriu as portas, na paragem dos Aliados. O motorista conversava com uma passageira que fizera toda viagem junto dele. De repente… gritos no fundo do autocarro:

– Sr. motorista, abra a porta!

Dois idosos não tinham tido tempo de sair. Um nos degraus da porta, o outro atrás, segurando-lhe um braço, olhavam para o motorista. Mas ele arrancou, ignorando-os, bem como os apelos, que subiam de intensidade:

– Abra a porta! Abra a porta!!!

Observando a cena pelo retrovisor, com uma expressão enigmática, o motorista viu-se obrigado a parar, poucos metros adiante, no semáforo. E fê-lo com uma travagem tão brusca que a proteção do banco junto à porta se estilhaçou com o impacto dos joelhos dos passageiros que ali viajavam. Então, abriu a porta aos 2 idosos, que saíram cautelosamente, patinando na fibra do painel estilhaçado.

Até à Cordoaria, o mesmo olhar, com algo de maquiavélico. E nem uma palavra, um pedido de desculpas a quem paga para ser transportado em segurança. À empresa reportou os danos no interior do veículo como resultado de pontapés de jovens turbulentos. Para passar o serviço ao colega que o substituiu no turno seguinte fechou as portas a ouvidos indiscretos.

E nem uma palavra, um pedido de desculpas a quem paga para ser transportado em segurança.

Pela negativa também se aprende. Mas passávamos bem sem lições como esta.

Alice Rios escreve segundo o novo acordo ortográfico

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