29 Set 2012, 13:32

Texto de

Opinião

O outono do nosso descontentamento

Na nova cartilha da poupança, a preocupação maior não é adiar a morte ao paciente, mas desinvestir da vida, poupando recursos.

Depois de tudo a que temos assistido em matéria de falta de vergonha, por parte de governantes e de outros titulares de cargos públicos, isto é, quando eu acreditava que já tinham sido excedidos todos os limites, eis que o presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV), a quem, pelos vistos, assistia ainda algum pudor, se levanta, afoito, e liquida essa escassa reserva de vergonha, instando os profissionais de saúde a conter despesas e apontando como áreas-alvo os doentes terminais e os portadores de doença crónica.

Das 2 uma: ou o dia dos enganos/mentiras é todos os dias ou para dar a cara pelo CNECV nomearam um sujeito sem decoro algum e de quem a ética foge a 7 pés todos os dias.

Alguém acredita? Só os tolos, muito tolos!

Por razões que não conhecemos com rigor, o presidente do CNECV sentiu necessidade de denunciar uma prática encapotada (contrária à função do hospital e à deontologia médica), superiormente imposta não só às comissões de farmácia dos hospitais, mas também aos clínicos prescritores, e, com isso, levar a tutela a reagir.

Fê-lo de forma pouco ortodoxa, mas conseguiu os seus objectivos. Haja em conta o número e a qualidade de vozes que saíram à liça para tapar o sol com a peneira. Incluindo a tutela que, para minimizar estragos, divulgou os resultados de um estudo sobre o desperdício hospitalar, realizado nos últimos meses, por um ex-diretor e um ex-bastonário, entre outros médicos, segundo encomenda do ministro.

Todos admitiram o plano de corte nas despesas, em curso nos hospitais e centros de saúde, mas negaram a existência de qualquer orientação relativamente aos fármacos.

Quem frequenta os hospitais e/ou centros de saúde não tem dúvidas sobre quem mente. Sabe-o porque a revolta de alguns sai frequentemente do silêncio dos gabinetes para os corredores, em forma de desabafo contra a ordem geral de cortar, cortar e cortar. Sabe-o também pelo eco de situações cuja gravidade deu origem a inquérito externo e consequente falatório. Ou de ouvir comentar as virtudes da nova cartilha da poupança em saúde, segundo a qual a preocupação maior não é adiar a morte ao paciente, mas, precisamente desinvestir da vida, poupando recursos. Ou seja: doentes com cancro, ou portadores de outra doença crónica e por quem a medicina terá, alegadamente, feito já tudo o que podia, esses doentes não justificam o dispêndio na aquisição dos fármacos mais recentes que a indústria farmacêutica apresente para aquela doença.

Mandam-nos esperar pela morte em casa – o que quer que isso signifique em termos de qualidade de vida ou da existência ou não de retaguarda familiar –, poupando também na logística.

À luz daquela cartilha, cada chefe de serviço está ciente de que quanto mais poupar mais agradará ao responsável da unidade; este ficará bem perante o diretor do departamento, que, por sua vez, satisfará a administração do hospital, que, por fim, cairá nas boas graças do ministro.

“Vive e deixa morrer” parece ser o lema de Paulo Macedo, que fez história como director-geral dos Impostos, no combate à fraude e fuga fiscais, arrecadando receitas que permitiram um significativo corte na despesa do Estado. A mesma sageza não o assiste, porém, enquanto responsável pela Saúde, onde seria lógico aplicar o seu excecional e reconhecido talento para o corte, de precisão dir-se-ia cirúrgica, para remover interesses instalados no Serviço Nacional de Saúde. Prefere apontá-lo aos utentes, que, tratados ao nível do desperdício, são os principais sacrificados na redução dos custos com a saúde. (Isto de um governante tão poupado, gastar dinheiro em estudos, nesta altura, ultrapassa a minha capacidade de entendimento. Ou será que aqueles senhores trabalharam à borla?)

Ainda que mal lhe pergunte, sr. ministro, como vão as Parcerias Público-Privadas da Saúde?

Teria a mesma coragem de levar a cabo um corte na fatura dos medicamentos para as cadeias? Faz ideia dos milhões que um estabelecimento como Custóias gasta ao ano por ajuste direto?

Metodicamente, Paulo Macedo “redimensionou” os hospitais.

Recorrendo ao jargão futebolístico, diria que o ministro acabou com os doentes na secretaria. Primeiro, foi a subida das taxas moderadoras e do custo dos medicamentos, associada à perda de outros benefícios sociais e à crescente precaridade das famílias, que afugentou muitos doentes; outros, sem pernas para fugir, tiveram de ser afastados.

Tomando por amostra o hospital de S. João, o IPO e o centro de Saúde de Paranhos, posso dizer que vejo, há meses, as salas de espera praticamente às moscas e que nos corredores dos hospitais não se vê uma maca nem doentes encostados às paredes. No IPO, a situação é ainda mais flagrante. A movimentação de pessoas é tão rarefeita que a estrutura mais parece um hotel.

Enfim, do paradigma das “urgências” entupidas com falsas “urgências”, dos doentes internados nos corredores e das longas listas de espera, passámos para o paradigma dos hospitais sem doentes.

Hospitais desorganizados, com acolhimento caótico e sem capacidade de resposta não dão, por certo, boa imagem de um país. Mas hospitais sem doentes são uma coisa sinistra.

No início deste ano, quando, aqui nas páginas do Porto24, perspetivei 2012 como “Um céu carregado, sem boas-abertas“, alguém me disse: “Pessimismo exagerado…”.

Antes fosse! Vir aqui dar a mão à palmatória e pedir desculpas era preferível a este desconforto de ter razão. Porque a verdade é que chegámos ao Verão em cenário catastrofista. É isso: nós, portugueses, os que trabalham e os que já trabalharam durante várias décadas para conquistar o direito a uma velhice tranquila, bem como aqueles que querem trabalhar mas não têm emprego e tantos outros, de recursos mais débeis e doentes, estamos todos sob a síndroma de uma catástrofe social a que se poupam apenas alguns dos que para lá nos empurraram.

Com o país em cinzas, setembro entrou bem, com chuva, mas o pior está para vir. É o outono do nosso descontentamento.

Apetece-me cantar Madalena Iglésias, para embalar o descontentamento:

“Setembro desfolhou-se
numa agonia lenta…”

Alice Rios escreve segundo o novo acordo ortográfico

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