1 Set 2012, 15:49

Texto de

Opinião

A desgraça de ser pobre

A desgraça de ser pobre é crestar à espera de transporte, perdendo o melhor da tarde de domingo na paragem do autocarro.

“Por que têm de sofrer tanto os pobres deste país?”

A pergunta, mais como um desabafo, dirigido a todos e a ninguém, veio de dentro da pequena multidão que se concentrava numa paragem de autocarros, na Rotunda da Boavista, ontem (domingo) à tarde.

Pouco passava das 15h. Decididamente, a hora de ponta dos pobres para irem à praia.

Eles eram avós, empurrando a neta num carrinho, à sua frente; eram um casal de idosos, ela de bengala e ele de canadianas, sempre a consultar a tabela horária dos autocarros, afixada na plataforma; eram pessoas a quem o peso da idade e o volume do corpo impunham um passo lento e incerto; e era o pai com uma filha, ainda bebé, ao colo e outro, maiorzinho, no chão – todo o ar de gente humilde, mas que com a dignidade não transige. Cada um com a sua mochila às costas, água à vista, à mão de beber. Com as cabeças desprotegidas, o pai oferecia as costas ao sol, criando uma zona de sombra no peito, onde a filha se aninhava, chorando e chamando pela mãe.

– A mãe não pode ir pá praia! Está doente, não sabes? – disse, em bicos de pés, o pequenito, tentando acalmar a irmã que nos braços do pai se debatia contra o sono, o calor ou a saudade do colo materno. Ou tudo isso junto.

Num quarto de hora juntaram-se ali passageiros para 2 autocarros. Para alguns este seria o terceiro transporte para irem de casa, na cidade, até à Foz.

Tão depressa assim se foi perdendo a ordem de chegada, na busca por uma nesga de sombra. Até o esguio poste de iluminação foi amigo dos pobres, protegendo-os com um risco de sombra. Os olhos postos na Avenida de França, sempre a ver se o “203” aparecia. E na sua maneira especial, particular e única – caraterística dos desafortunados – começaram a falar uns com os outros, como se fossem vizinhos ou velhos conhecidos, partilhando angústias, opiniões e preocupações…Relatos sobre doença, a crise, a carestia de vida e a desgraça de ser pobre.

E a desgraça de ser pobre é crestar à espera de transporte, perdendo o melhor da tarde de domingo na paragem do autocarro. A desgraça de ser pobre é ver chegar aos 42 minutos um autocarro com horário de passagem na Rotunda aos 23 minutos e vê-lo chegar cheio, sem lugares sentados disponíveis e com o motorista condicionado pelo atraso, a não dar tempo a quem precisa de mais tempo para entrar e sair…

E tudo porque a administração da Sociedade de Transportes Coletivos do Porto ignora que os filhos das mães doentes, as pessoas com bengalas ou canadianas, os avós com carrinhos de bebé, os doentes em cadeira de rodas e, em geral, todos os pobres, novos ou velhos, têm também o direito de ir à praia ao domingo à tarde. Só por miopia social se explica que, nomeadamente para a carreira Marquês-Foz-Marquês, haja apenas 2 autocarros por hora, ao domingo, em Agosto.

Sim, por que têm de sofrer tanto os pobres deste país? 

A pergunta que me amarfanhou a alma e me fez sentir realmente pobre.

Mudámos o curso dos rios, criámos armas de destruição maciça, inventámos as autoestradas digitais, que nos permitem ver guerra – qualquer que seja o recanto do planeta onde ela estoire – em direto, conquistámos a lua e até já chegámos a Marte, mas nós, como seres humanos, pouco evoluímos. Não obstante vivermos numa sociedade global, o mendigo, o desempregado e o sem-abrigo continuam ao nosso lado e não conseguimos vê-los ou chegar até eles. Ou seja: transpusemos todos os limites, mas permanecemos arraigados a um certo tribalismo.

Alice Rios escreve segundo o novo acordo ortográfico

  1. Minha linda Sra:K Deus lhe dê sempre a coragem de ver e escrever artigos sobre estas e outras verdadeiras desgraças!!! (SER POBRE)
    Com todo o meu carinho e apoio k seja a voz dos k só podem falar da forma comoa Sra:APRECIOU…..
    Atenciosamente: MªRosário Conde Galante

    PS: (por estas e outras tenho 64anos e vivo entre 4paredes)

  2. e triste ser pobre o mais triste ainda e nao ter uma saida uma soluçao vivo em um beco sem saida tenho 44 anos nao tenho ningue,para me ajudar as vezes nao tenho nada o q comer tenho bico de papagaio miomas no ultero esporao nos pes e fico a espera da desgraça de ser pobre esperando 1 saida pelo sus sistema unico de saude dos pobres e dos miseraveis vivo as custas de remedios controlados e qdo falta onde pego de graça fico sem meu remedio sou praticamente sozinha neste inferno q para ops ricos e um paraiso ai dos ricos se nao fosse nos os miseraveis!

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