12 Abr 2013, 16:02

Texto de

Opinião

Aleixo à bomba – Parte Segunda

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Com a torre partida em fundo, perguntemos por quem parte: para onde foi? Para as casas prometidas aos moradores é que não, porque ainda não se fez nenhuma.

Escombros da implosão da torre 4 do Bairro do Aleixo

Foto: Miguel Oliveira

Hoje veio abaixo a segunda das cinco torres do Aleixo. É o Aleixo à bomba, parte segunda. Agora não importa voltar às razões desta operação urbanística, aos prós e contras das receitas para um bairro problemático. Curtas palavras apenas para lembrar o que está ainda em causa: o poder de alguns sobre o destino de muitos. Os solos mais cobiçados do espaço urbano são para quem pode lucrar com eles  e uma comunidade constituída quase totalmente por pessoas pobres e sem poder de se fazerem ouvir teve como única saída a saída, marcada pelo desalento, a resignação e a amargura.

O Aleixo ficará a pontuar a gestão autárquica de Rui Rio como símbolo da sua soberba. Foi ostentá-la, durante a demolição da primeira torre em Dezembro de 2012, para uma embarcação no meio do rio, com vista privilegiada para o naufrágio do gigante de betão e longe dos gritos de desespero que os que não se refugiaram na distância puderam ouvir. Há uma dimensão de tragédia nesta morte do Aleixo que a cidade não quer escutar: porque andamos distraídos com os mil afazeres, porque andamos inquietados a reagir às pequenas derrocadas da nossa crise no meio da crise. As imagens televisivas darão eco àquilo que aparece como uma operação urbana argumentada como necessária. À hora dos telejornais é uma imagem como outra qualquer, é só uma imagem e o mundo segue adiante empurrando à sua frente um turbilhão de notícias que não passam de imagens – porque é tudo imagem na sociedade do virtual.

Com a torre partida em fundo, perguntemos por quem parte: para onde foi? Para as casas prometidas é que não, porque ainda não se fez nenhuma. As torres vêm ao chão, mas nada se ergue no seu lugar. As pessoas são deslocadas, mas ninguém lhes perguntou nada – porque aos sem-poder resta a obediência. Para quem ouve o estribilho da conversa dos bairros problemáticos, o bairro era mau. Para uma grande parte dos seus moradores, as casas eram consideradas boas, muitos investiram no seu arranjo interior, alguns contraíram empréstimos para reparações e melhoramentos. Vão agora ficar a pagar ao banco os cacos que foram para a lixeira.

O executivo camarário vir-nos-á explicar, como já fez várias vezes, que ali se acoitam delinquentes e traficantes e que há que correr com eles. Por isso vem tudo abaixo. Rio é a boa consciência do Porto, e lendo com atenção um texto de justificação produzido recentemente podemos depreender que tem enorme pena de não ser juiz porque já tinha resolvido os problemas da morosidade na justiça. Expulsaria assim os fora-da-lei, passariam ao estatuto de fora-dos-bairros, porque nos bairros do senhoriato de Rio ninguém se porta mal. E todos os traficantes estariam agora à sombra, caçados com grande eficácia pelo seu olho clínico, que consegue perfeitamente distinguir onde está a boa gente e onde se esconde a má. Porque para Rio o mundo é a preto e branco e é por isso que ele e os que o acolitam e caucionam são tão rápidos e eficazes.

Que pena não ser juiz! Do mal o menos, é senhorio das habitações camarárias e pode sempre mandar abater o covil dos malvados. Só não começou logo pela torre que concentrava a maior parte das atividades do mercado de drogas porque os tribunais não atuam em tempo útil. E começou assim exatamente pela que era a torre mais pacata e serena do bairro – ora aí está a lógica da batata! E que ricos terrenos ali ficam livres! É assim que a cidade anda para diante. Porque a cidade, com Rio, anda para diante – e os pobres para trás.Que saudades vamos ter dele a partir de Outubro!

Luís Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico.

  1. Neca says:

    Acho muito bonito o texto. Mas se não vive no Aleixo, não compreende o degredo humano que ali se vive.

  2. Ana Cristina MArtins says:

    Luís, é raro ler um texto teu sem o escape de uma, ou mais, gargalhada pelo meio, ou no mínimo um sorriso irónico, a aliviar a tensão das coisas sérias que tu escreves com humor.Este li-o a suster a respiração, como se atravessasse uma piscina debaixo de água, e só na última frase, alívio dos alívios, deitei fora o ar com um pequeno esgar de sorriso vingativo, ainda assim triste. Dói o humanismo que transborda nesta crónica, porque faz notar a sua falta trágica no tempo que vivemos. É mais triste porque acho que já ninguém vê que falta, está tudo a olhar para outro lado, para onde alguém aponta. E às vezes parece que já ninguém quer olhar para o que tu estás a ver. Haja alguém que veja nesta terra.

  3. marta says:

    Haja quem diga com clarividência o que tem de ser dito. E que triste que é ler, assim a cru, as consequências do drama deste país: a mediocridade de quem nos governa… e sair disto?

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