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Foto: Carlos Romão

7 Jul 2016, 10:54

Texto de

Opinião

Água, areia e betume

A razão de a literatura não ser considerada um sério perigo rodoviário é algo que sempre intrigou.

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Já éramos vizinhos de Bairro, agora pusemo-nos a misturar a paixão pela cidade com o amor aos livros e às palavras. E já criámos novos roteiros para os nossos leitores num Porto cheio de livrarias e afectos. Todas as semanas, os bairristas encontram as deliciosas colunas de opinião dos escritores Vanessa Rodrigues, Jorge Palinhos, Marisa Oliveira e Rui Manuel Amaral – os nossos cronistas de Bairro – no Porto24. Sempre à quarta-feira, o vosso Bairro dos Livros no nosso Porto24. Boas leituras!

Há tanta gente a vivê-la dentro dos carros: dos passageiros que suportam a viagem banhados em páginas – como eu os invejo! – até aos condutores que acabaram de ler Guerra e Paz enquanto esperavam pelo semáforo verde; e sem esquecer os escritores que fizeram parte da sua obra ao volante, como o amigo que escreve poemas num caderno pousado sobre o volante ao rolar pelas auto-estradas do interior, outro que já teclou peças de teatro no telemóvel enquanto seguia descontraidamente pela A1 e os incontáveis músicos e artistas que compuseram – na mente, no papel, no gravador ou no ecrã – o esboço de tantas das suas obras, enquanto guinavam pelas estradas serranas ou flutuavam na paisagem cinza, verde e imprecisa da auto-estrada.

Tanta criatividade talvez seja do carro: da sua sensação de conforto e intimidade, que nos leva a esquecer que estamos à vista da rua, e nos faz cantar, falar sozinhos, bocejar ou escarafunchar partes embaraçosas do corpo. Mas também pode ser de tanto mundo e tanta gente que nos é dada a ver, uma após a outra, como uma ideia choca e se cinde uma após a outra com o movimento do carro.

Ou talvez seja da própria viagem, do movimento parado, da sensação de vazio e ausência que se entranham num carro e na estrada, de ver o alcatrão ser devorado pelo para-choques, de ver seres humanos serem arremessados para o passado, uns após outros, enquanto novos chegam e chegam. Do mundo que se torna um relâmpago perseguido pela nossa mente, a tentar chegar a ele, a chegar ao tempo e ao lugar onde não se está, que talvez esteja lá adiante, talvez esteja lá atrás, e torna a nossa cabeça um turbilhão de memórias e ansiedades tal que uma imagem, uma ideia, uma palavra, muitas palavras, como as desta crónica, surgem límpidas ao quilómetro 255 da IP1, ainda antes da saída para Estarreja, e aí detêm o carro, a viagem e a própria estrada.

Mas não contem nada disto à Direção Geral de Viação: ainda se lembravam de lançar uma campanha contra a arte na estrada e depois como é que era?

Jorge Palinhos tem trabalhado como escritor, dramaturgo e guionista. Os seus textos já foram publicados, encenados e apresentados em Portugal, Espanha, Brasil, Alemanha e EUA. É ainda docente do ensino superior e bolseiro da FCT. 

Jorge Palinhos

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.