Image de Abril na Avenida (daqui a uns anitos)

Foto: Arq/Miguel Oliveira

15 Mar 2014, 23:35

Texto de

Opinião

Abril na Avenida (daqui a uns anitos)

Onde estava no 25 de abril? Batista Bastos fez a pergunta a 16 personalidades na década de 90, a convite do Público, mas talvez tenham sido mais populares as rábulas que Herman José, numa imitação feliz, ou melhor, com a qualidade do grande humorista que é.

Imagem de perfil de Carlos Pereira Santos

Quase sempre jornalista, começou no assassinado jornal O Comércio do Porto e daí seguiu para O Jogo, O Norte Desportivo, A Bola e RTP-N. Actualmente, encontra-se de novo n'O Jogo. No jogo das palavras, escreveu um quase romance, “A Candidata”, que aconselha a quem ainda não leu. É co-autor da biografia de Jorge Costa, o Bicho, e foi o ghost writer da biografia de Vítor Baía, até este revelar a autoria... na apresentação do livro. Coisas que acontecem a quem acha que nada acontece por acaso. Nasceu em Leça da Palmeira, indiscutivelmente, o melhor de todos os cantinhos onde existe vida, e tem uma paixão eterna pelo Porto.

Um destes dias, a pergunta vai surgir e antes que se escreva uma série de artigos sobre o o que se passou há 40 anos, cá estou eu a antecipar-me, mesmo à douta Assembleia desta República, que para já só discute os orçamentos das sessões comemorativas. Qual é o meu objetivo? Tornar-me no primeiro gajo do Porto a escrever uma crónica a sobre os 40 anos do 25 de Abril, ainda que num sítio que se chama Porto 24 (é verdade que ninguém tem culpa que cada dia só tenha 24 horas).

E isto significa que vá falar aqui do 25 de abril? Ora, aqui é que está o busilis. Não vou falar do 25 de Abril de 1974 (ou sim), porque estar a escrever com esta liberdade é o resultado mais puro de ter existido uma Revolução feita com Cravos, com uma paragem no semáforo em Lisboa quando a coluna de Salgueiro Mais avançava sobre o Terreiro do Paço (estava vermelho, ora essa!). Viva a Liberdade! Assim, daqui a uns anos, quando os meus bisnetos fizerem uma pesquisa num veloz motor de busca vão chegar à conclusão que o bisavô Carlos foi o primeiro gajo do Porto a escrever uma crónica sobre o 25 de abril em 2014 (agradece-se aos sucessores que cumpram o seu papel e não quebrem a corrente de herdeiros, porque sem bisnetos nunca serei bisavô, e sem netos nem avô serei).

Mas, já agora, desfaço a curiosidade, para quem a tem: quando Salgueiro Maia avançava eu estava a dormir;  quando o povo saiu à rua estava eu a caminho da escola Preparatória António Nobre, em Matosinhos, mas mal cheguei recebi guia de marcha de volta para Leça porque “tinha acontecido qualquer coisa” e não havia aulas. Olha que fixe! Bola, aí vamos nós!

Aos poucos fui percebendo que alguma coisa tinha mudado; em casa, o meu pai avisava que vinha aí o comunismo, e eu quero lá saber, se o comunismo nos der um feriado todos os dias na escola! Ou se joga à bola ou se vai para trás do pavilhão dar uns  beijos e fumar cigarros comprados avulso com o dinheiro inicialmente destinado para o autocarro (camioneta, com vossa licença, e do A. Maia, normalmente).

O 25 de Abril arrasa-me emocionalmente, e gosto de me emocionar no 25 de Abril, por mais umas razões que não vêm ao caso, mas essencialmente pela Liberdade. Há datas que nos marcam para a vida. O 11 de Setembro, por exemplo, e até nem vem a propósito (a Liberdade é assim). No dia do ataque terrorista estava eu na cidade dos Beatles, a fazer a cobertura jornalística do jogo Liverpool-Boavista, para a Champions. Antes do jogo houve um minuto de silêncio que foi a coisa mais sentida que já vivi. E arrepia-me. Ao contrário do que se faz hoje nos minutos de silêncio, ninguém bateu palmas. Ouviu-se o silêncio.

Volto ao 25 de Abril para dizer aos meus bisnetos que quando forem vivos celebrem a data, por exemplo,  na Avenida dos Aliados, em festa. Isto, claro, se um qualquer arquiteto entretanto não se lembrar de fazer da nossa avenida um inexpugnável bloco de cimento.

 

Opinião

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